A sucessão de infâncias dá forma à vida humana. A infância forma ou deforma, mas sempre cumpre o papel definitivo de dar à luz um adulto capaz de sobreviver ao genocídio infantil que grassa pelo mundo. Mutilando, estuprando, matando ou humilhando, as pessoas grandes, como candidamente as tratou o Pequeno Príncipe, são muito criativas na elaboração das sodomias silenciosas que acontecem a um palmo de nós, na sala ao lado, nas clínicas, nas periferias ou nos palacetes.
Os infanticidas são democráticos: matam em todos os lugares, não escolhem muito e andam pelas ruas com seus olhares de homens cívicos e bem-posturados. Jovens, velhos, magros e gordos. São todos eles. Assim mesmo, entre sorrisos corteses e gentilezas, destroem para sempre a vida inteira de uma criança, deixando marcas indeléveis que perpetuam a dor que aquela menina carregará sozinha, desafiando a razão humana e os limites da sobrevivência.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 mostra que os casos de estupro, estupro de vulnerável, estupro total (incluindo o estupro de vulnerável), estupro de mulheres, assédio sexual, importunação sexual e pornografia aumentaram gravemente. Os demais crimes, se diminuíram, foi pouco, e ainda apresentam índices elevados, sobretudo contra crianças e adolescentes, sempre elas a sofrer na carne e na alma essa abominação definitiva.
E os criminosos? Estão por aí, ao nosso lado. Ao nosso lado mesmo, considerando que 65% dos casos ocorrem dentro da casa da criança. E ninguém vê. Ou, se vê, culpa a criança. Ou o pai da criança. Mas, se a criança contar a violência que sofreu, quem acreditará? As marcas quase nunca são aparentes de imediato, mas vão brilhar intensamente nos dias seguintes e serão como faróis a guiar essa criança desacreditada.
Por isso, uma sugestão: ao menor sinal, denuncie. Não pague para ver. Não confie no próprio senso ético, porque você enfrentará um criminoso dissimulado e astuto, capaz de mentir tenazmente. Denuncie. Fôssemos nós tão espertos e justos, esses crimes sequer aconteceriam.
Estamos perdendo a guerra. Denuncie.









