Brasilina e o imaginário da brasilidade sob suspeita

Brasilina, poéticas de uma nação mátria, em cartaz na Galeria do Centro Cultural SESI, em Vitória, reúne 32 artistas e designers sob a suposição que tá título à mostra. Idealizada por Fernando Nicolau e Isabela Castello, que assina a curadoria ao lado de Isabel Portella, a exposição toma como ponto de partida a brasilina, substância presente no interior do pau-brasil. A cor que a nomeia nasce de uma matéria submetida ao corte. A brasilidade, nesse sentido, aparece como resultado de fraturas, encontros, violências, transformações e reinvenções. Afinal, o que significa produzir imagens para um país cuja identidade nunca se deixou reduzir a uma forma única? Essa pergunta veio junto do bate-papo com artistas, que mediei na última terça-feira (22). Esta crítica é tanto decorrente desse bate-papo quanto do passeio pelos trabalhos expostos na galeria. Como são muitos artistas, me parece que seria pouco produtivo e injusto tentar apontar alguns poucos nomes e trabalhos em um texto curto. Assim, vou me permitir falar sobre as ideias que lá encontrei de modo mais amplos, com a expectativa de que o público possa perceber similaridades entre esta reflexão e o que vai encontrar na mostra.

A escolha dessa metáfora da brasilina retiraria a exposição de uma representação convencional do Brasil. Em vez de reunir imagens reconhecíveis da nação, Brasilina procura aproximar trabalhos que interrogam memória, ancestralidade, território, matéria, cultura, desigualdade e resistência. Os três eixos propostos, Identidade, Natureza e Sociedade, são, em alguma medida, o mesmo; e permitem perceber que aquilo que se entende por identidade depende das relações entre corpos, territórios, histórias e formas de vida. A própria curadoria afirma o desejo de escapar de uma imagem única ou estereotipada do país e de reunir diferentes perspectivas sem convertê-las em uma narrativa homogênea.

Brasilina e o imaginário da brasilidade sob suspeita
Anelice Lober – Não é sopa não, 2020. Foto: Fabíola Fraga.

Essa intenção ganha densidade quando se considera uma questão que atravessou o bate-papo realizado com os artistas: a identidade nacional brasileira não constitui um dado estável, mas um problema histórico. Desde os primeiros projetos de representação do território, o Brasil foi sucessivamente descrito por imagens produzidas a partir de interesses políticos, econômicos e culturais. A natureza exuberante, a mistura racial, a cordialidade, a festa, o futebol, a alegria e a promessa de desenvolvimento formaram parte de um repertório que, em diferentes momentos, procurou conferir unidade a uma experiência marcada por profundas desigualdades. A exposição nos permite colocar esse imaginário sob suspeita.

Nesse ponto, a expressão “nação mátria” é uma das chaves conceituais da exposição. A ideia é afastar a identidade nacional dos símbolos oficiais e dos discursos de poder para aproximá-la da terra, da ancestralidade, dos afetos, do cuidado e da participação das mulheres na constituição da vida social e cultural. Ao substituir uma imagem tradicional da nação por outra, corre-se o risco de produzir uma nova figura pouco reconhecível, quando não totêmica. O interesse do conceito, contudo, aparece justamente quando ele deixa de funcionar como definição e passa a função de pergunta. Que formas de pertencimento podem existir sem uma identidade essencial? Que país pode ser pensado quando a ideia de unidade pouco ou nada depende de uma suposta origem comum?

Brasilina e o imaginário da brasilidade sob suspeita
Liane Rodit, Memória, série: Raízes, 2026. Foto: Fabíola Fraga.

O bate-papo tornou evidente que essa questão também passa pela promessa recorrente de um Brasil no qual nos reconheçamos. Na conversa, falei sobre como a fórmula “país do futuro”, tantas vezes associada à expectativa de modernização e progresso, parece carregar uma inevitabilidade irritante: o futuro nunca chega. A promessa se desfaz diante de nós e, com ela, a possibilidade de compreender o presente como uma etapa incompleta. Talvez o problema não esteja no fato de o futuro nunca se realizar, mas na própria ideia de que exista um destino nacional capaz de orientar uma experiência tão diversa. O país não precisa corresponder a uma imagem previamente estabelecida para existir como experiência coletiva.

Essa percepção também impede que a brasilidade seja isolada do contexto latino-americano. O Brasil possui uma história específica, marcada pela colonização portuguesa, pela escravidão, pela dimensão continental do território e por diferentes processos de formação cultural. Entretanto, suas experiências de violência, dependência econômica, desigualdade, autoritarismo, resistência e reinvenção cultural pertencem também a uma história latino-americana mais ampla. Pensar a brasilidade nesse campo significa reconhecer que a identidade nacional se constitui em relação com outras identidades, fronteiras e histórias. A imagem de um Brasil excepcional, separado de seus vizinhos por uma suposta singularidade absoluta, perde força diante dessa perspectiva.

Brasilina e o imaginário da brasilidade sob suspeita
Eulália Manual – À esquerda: Há um país inteiro aqui (2026) – à direita: Área Indígena (2019). Foto: Fabíola Fraga.

Os trabalhos reunidos na exposição tornam esse problema ainda mais complexo porque muitos deles partem de experiências que não nascem como questões nacionais. O íntimo pode preceder o político. E não, nem sempre é assim. Uma lembrança familiar, uma relação com determinada matéria, uma memória ancestral, uma experiência corporal ou uma paisagem particular podem adquirir dimensão social quando entram em contato com estruturas históricas mais amplas. A curadoria talvez tenha como mote o interesse por trabalhos nos quais questões individuais se tornam coletivas, ainda que não afirme esse critério de maneira explícita. Nesse movimento, a política pode surgir na escolha de uma matéria, na recuperação de uma memória, na maneira de ocupar um espaço ou na decisão de tornar visível aquilo que determinada narrativa nacional preferiu deixar à margem.

A heterogeneidade dos trabalhos, por outro lado, constitui uma qualidade e um problema da exposição. Há diferenças consideráveis entre pesquisas poéticas já consolidadas e trabalhos que parecem corresponder a investigações ainda iniciais ou em processo pouco consistentes. A variedade de procedimentos, escalas, materiais e linguagens produz uma experiência irregular, na qual algumas obras encontram no espaço uma presença convincente, enquanto outras parecem depender de condições de montagem que não foram plenamente resolvidas. Em certos casos, escolhas dos próprios artistas contribuem para essa dificuldade; em outros, a disposição espacial e a relação entre trabalhos produzem aproximações pouco precisas. É sempre bom lembrar que a montagem é crucial na construção daquilo que uma exposição consegue dizer.

Talvez essa irregularidade revele, de modo involuntário, uma dificuldade constitutiva de qualquer tentativa de reunir o Brasil sob uma mesma exposição. Não existe uma forma neutra de colocar lado a lado experiências tão distintas. A coexistência produz atritos, desníveis e silêncios. Algumas obras pedem maior distância, outras exigem aproximação; algumas se sustentam pela força de uma pesquisa madura, enquanto outras parecem anunciar possibilidades que ainda não alcançaram sua forma mais precisa. O resultado é uma espécie de campo de tensões no qual diferentes noções de pertencimento disputam espaço.

Brasilina parte de uma substância extraída de uma árvore associada ao próprio nome do país e a transforma em metáfora de uma identidade que só aparece depois do corte, do contato e da transformação. A ferida indica que toda construção identitária possui uma história material e política. A “nação mátria” proposta pela mostra pode ser compreendida como uma hipótese poética para pensar um país sem exigir dele uma essência.

No fim, talvez o Brasil que emerge da exposição seja menos uma imagem do que uma pergunta persistente. Não o país que deveria chegar ao futuro, tampouco aquele que caberia em seus símbolos mais conhecidos, mas aquele que se produz na diferença entre memórias, corpos, territórios e experiências; um país que não precisa ser uno para possuir vínculos. A brasilidade, nesse sentido, aparece como a própria matéria em transformação. A cor da brasilina, nascida de uma matéria ferida, torna-se então uma imagem possível para esse Brasil que não cessa de procurar sua forma sem jamais encontrar uma forma final.

Revisão: Alana de Oliveira
Rodrigo Hipólito
Rodrigo Hipólito
Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Escritor, historiador da arte, crítico e podcaster. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM-UFES, 2015-2020), do Departamento de Comunicação (DEPCOM-UFES, 2023-2025) e dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade Europeia de Vitória (FAEV, 2015-2023). Editor da Revista do Colóquio e redator do site Nota Manuscrita.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

.column-title { display: flex; align-items: center; margin-bottom: 10px; color: #009cde; font-family: ES_Hoje !important; font-size: 20px !important; font-weight: 600 !important; }.box { border: 2px solid #009cde; border-radius: 20px; width: 180px; height: 35px; padding: 5px; display: flex; justify-content: center; align-items: center; }.line { border-top: 2px solid #009cde; flex-grow: 1; height: 0; margin-left: 10px; }
Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas em Fé Pública

.ncolumn-title { display: flex; align-items: center; margin-bottom: 10px; color: #757575; font-family: ES_Hoje !important; font-size: 20px !important; font-weight: 600 !important; }.nbox { border: 2px solid #757575; border-radius: 20px; width: 230px; height: 35px; padding: 5px; display: flex; justify-content: center; align-items: center; }.nline { border-top: 2px solid #757575; flex-grow: 1; height: 0; margin-left: 10px; }
Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]