A ‘capixabice’ da minha família vem da parte da minha avó materna. Dona Eurydece foi nascida e criada na região rural de Guarapari, de onde saiu quando se casou com meu avô libanês, Fued, e para onde voltou, já idosa, nos anos de 1990.
Vovó Lide, como eu a chamava, tinha um gosto peculiar para comer: da vaca, só consumia o queijo, a manteiga e a carne seca; segundo a própria, todo o resto tinha gosto de leite.
Como boa cidadã guarapariense que era, peixe e frutos do mar estavam sempre presentes em seu prato, assim como a pimenta e a farinha. Por conta dela surgiu no cardápio familiar a velha e boa Torta Capixaba.
Na história – Um dos pratos mais conhecidos da culinária do Espírito Santo, a Torta Capixaba é fruto de uma mistura de culturas: dos colonizadores europeus, dos índios e dos africanos. Na confecção da torta são usados diversos frutos do mar, como siri desfiado, camarão, ostra e sururu, além de bacalhau e palmito.
O prato é tradicional por ocasião da Semana Santa e feito na maioria das casas dos capixabas. A torta é um prato tão presente na história do Estado que até Pero Vaz de Caminha comentou nas cartas sobre o hábito dos índios de comerem uma mistura de frutos do mar com palmito.
No entanto, só por volta do século XIX que a torta como conhecemos começa a tomar forma. Os portugueses já tinham o hábito de comer frutos do mar e, com a forte influência que a igreja católica possuía sobre o povo lusitano, o hábito de não comer carne na Semana Santa era seguido à risca. Foi nessa época que os portugueses tiveram a ideia de acrescentar o marisco e o bacalhau à mistura feita pelos índios.
Na minha história – Como uma boa família com raízes capixabas, o prato – que, em minha humilde opinião, é o maior símbolo da culinária do Estado (já que a moqueca tem autoria contestada pela Bahia) – é tradicional na Sexta-Feira da Paixão desde que minha madrinha Neuza, de 82 anos, se entende por gente.
Entretanto, devido à dificuldade de reunir muita gente em feriados, desde que se mudou de volta ao Estado, minha dinda criou uma nova tradição: celebrar a virada de ano com a iguaria. Ou seja, para o meu gosto, Torta Capixaba tem gosto de renovação.
Dona Neuza conta também que a praticidade do prato único, apenas acompanhado de arroz, facilita a organização da Ceia de Réveillon, celebrado em família todos os anos.
Receita – Para fazer a Torta Capixaba da minha família, você precisará:
½ kg de palmito natural previamente cozido, ou 2 vidros
250 g de azeitonas pretas
1 kg de bacalhau desalgado e desfiado
500 g de siri desfiado e cozido
500 g de caranguejo desfiado e cozido
500 g de camarão cozido
250 g de sururu cozido
12 ovos
3 tomates picadinhos
3 cebolas picadinhas
10 dentes de alho picadinhos
4 maços de coentro picadinhos
Aproximadamente 15 colheres de sopa de azeite extra-virgem
Sal e pimenta a gosto
Modo de preparar:
Prepare um refogado com azeite, cebola, alho e leve ao fogo com o palmito e espere até ganhar consistência. Acrescente os frutos do mar, depois o bacalhau e as azeitonas, mexendo todo o preparo até evaporar toda a água. Retire para esfriar e misture uma parte das claras em neve com as gemas.
Coloque a massa em uma panela de barro e leve ao forno por 30 minutos, até secar bem a torta. Retire e coloque o restante das claras em neve batidas com as gemas por cima. Para finalizar, coloque as azeitonas e a cebola em rodelas. Deixe assar até dourar. Sirva com arroz branco.
Bom apetite e Feliz 2020!











