Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
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Justiça e sorte

Dia desses fiquei a meditar sobre um interessante adágio que ouvi certa vez nos EUA: “justiça é o que o juiz comeu no desjejum matinal”. Eis aí uma forma leve de retratar um problema grave, qual o da influência de fatores humanos em decisões judiciais.

Comecemos pela própria personalidade do juiz. Um estudo norte-americano realizado sobre 140.000 processos ao longo de 13 anos em 30 cidades comprovou que, para um mesmo crime e idênticas circunstâncias, as penas variaram em até 63%.

Em Israel foram examinadas mil sentenças proferidas ao longo de 2009 por oito juízes. A conclusão: quando eles estão descansados e bem nutridos a chance de serem mais complacentes chega a ser seis vezes maior. Como são maiores as penas impostas aos três últimos condenados do dia. A idênticos resultados chegou um estudo realizado na Universidade de Columbia (EUA).

Não nos esqueçamos do futebol. Após analisarem sentenças proferidas entre 1996 e 2012 pesquisadores norte-americanos descobriram que nos dias seguintes a alguma derrota do time local as penas aplicadas eram sensivelmente maiores.

Há também a questão da aparência dos envolvidos. Uma séria pesquisa realizada no Laboratório de Neurociência Integrativa da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, comprovou que os vereditos podem variar – e bastante – em função da face da vítima e do acusado.

Tudo isto pode ser pitoresco e até justificável sob o pensamento de que ‘estamos a falar da justiça humana e suas imperfeições’ – bela reflexão, desde que não seja sua vida ou liberdade sujeita a tais incertezas.

Não há, admitamos, justificativa para a permanência de um quadro destes! Já passou da hora de reconhecermos que a figura do juiz, como a conhecemos, retrata uma experiência razoavelmente recente na história da humanidade – e que deu errado.

Por conta deste fracasso, e para proteger as partes destas falhas tão humanas, criou-se um monstruoso sistema processual – que está a inviabilizar o próprio mundo das leis. A tornar a justiça uma “avis rara”.

A verdade é que, neste início de milênio, deveríamos começar a conceber um novo modelo de sistema judicial. Um que fosse mais baseado em colegiados e pudesse comportar regras processuais mais simples e eficientes. Que estivesse, enfim, à altura das necessidades do momento histórico.

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

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