Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Pena inútil

Planeta Terra, 2020. Instalou-se séria pandemia, superior a fronteiras, raças, credos e fortunas. Determinou-se para uns bons dois terços da humanidade a medida simples do isolamento doméstico. Deveria ser um período de interiorização e reflexão. Até mesmo de oração. Cada qual com os seus. No recesso do lar. Protegido das correrias e angústias que a rotina traz.

A realidade mostrou-nos, porém, resultados outros – comuns a povos ricos e pobres, cultos e atrasados. Lutou-se vigorosamente pelo ato de simplesmente sair de casa – por mais ilógico que fosse, consideradas as circunstâncias.

Valia tudo: até uma simples saída com o cachorrinho de estimação – exceção à quarentena – acabou virando um fervilhante negócio! Parafraseando Churchill, nunca tão poucos cachorros andaram tanto com tantas pessoas! Quem não os alugou recorreu até a exemplares de pelúcia!

Os índices de suicídio, violência doméstica e divórcios dispararam. Poucos suportaram (?) a agonia (?) de simplesmente ficar em casa.

Meditemos um instante sobre isso: a prisão, ao fim do cabo, era o lar! A pena era ficar em família. No entanto, quase metade das pessoas preferiu jogar com a sorte pelas ruas.

Agora lance um olhar sobre nossas prisões. Dizem que sua principal função é ressocializar as pessoas. Devolvê-las melhores ao convívio das ruas. À vista do que testemunhamos em tempos de quarentena podemos afirmar sem receios ser este um objetivo absolutamente impossível – e não por acaso os índices de reincidência são tão altos.

Curiosamente, a humanidade insiste neste tipo de pena! Falta-nos, nesta área, criatividade. Espírito prático. E mesmo sensibilidade humana – optamos pela punição, por mais inútil e cara que seja.

Um alerta: que não se confunda o que este texto propõe com as tão comuns “penas alternativas”. Defendo que sigamos muito além. Que passemos a adaptar as penas mais aos criminosos que aos crimes, tornando-as mais eficientes e menos custosas.

Que tal pensarmos em perda de direitos, confiscos, vedação de atividades, imposição de obrigações etc. para aqueles casos nos quais a perda de liberdade, ao fim do cabo, não traria que mais problemas? E assim aliviarmos e tornarmos mais eficientes nossas masmorras, digo, prisões?

Ou será que o termo “ressocialização” não é que mero refúgio da hipocrisia?

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

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