Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
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Causa da morte

Ela Kissi-Debrah, uma criança de apenas nove anos de idade, faleceu na cidade de Londres, no Reino Unido, vítima de problemas respiratórios. Sua mãe, Rosamund Adoo-Kissi-Debrah, iniciou então uma verdadeira cruzada em torno da redação do atestado de óbito – que fosse nele lançada como causa da morte a poluição do ar.

Seu argumento é digno de nota: sua filha residia às margens de movimentada rodovia situada ao sul da capital, na qual intenso o tráfego de caminhões e bem assim elevados os níveis de poluição derivada da queima de óleo diesel – um quadro sabidamente causador de doenças respiratórias.

Eis aí uma grande iniciativa: colocar o dedo em uma ferida que flagela todo o planeta. Fico a pensar, por exemplo, no relatório final da CPI da Poluição, apresentado na Assembleia Legislativa  do Espírito Santo nos já distantes idos de 1996, no qual uma pneumologista relacionava o aumento do número de mortes de crianças à elevação dos níveis de poluição atmosférica na Grande Vitória – um alerta que confere com lúcida tese de doutorado desenvolvida sobre o mesmo tema.

A propósito, a Organização Mundial de Saúde calcula que a passividade carneira diante dos índices de poluição do ar assassina 600.000 crianças a cada ano – algumas no seu bairro, inclusive. Há, claro, as que sobrevivem e chegam à idade adulta. Passarão, então, a integrar outra sinistra estatística, qual a das sete milhões de mortes prematuras.

Trata-se de um quadro tão pungente que já ensejou incisiva manifestação por parte da UNICEF, no sentido de que está sendo negado ao futuro da humanidade um dos mais básicos direitos humanos, qual o do acesso a ar minimamente respirável – não mais puro, mas apenas respirável.

Dia desses fiquei a pensar nisso, e com infinita tristeza, ao contemplar os pés de uma criança que brincava, despreocupada, na varanda do apartamento de seus pais. Era chocante a cena da pele ainda tenra enegrecida por um pó preto comprovadamente assassino, mas que permanece impune, passando ao largo dos mais respeitáveis atestados de óbito.

Enquanto isso, alheio a este debate, lá está o corpo da pequena Ela. Eu não sei como, afinal, será redigida sua certidão de óbito. No que toca à sua lápide, porém, vejo como perfeito o seguinte epitáfio: “Aqui jaz mais uma vítima da ganância humana”.

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

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