Luiz Paulo Vellozo Lucas
Luiz Paulo Vellozo Lucas
Luiz Paulo Vellozo Lucas - engenheiro de produção pela UFRJ com cursos de pós graduação em finanças (Arthur Andersen), desenvolvimento econômico(BNDES) e economia industrial (IE-UFRJ), mestrado em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável pela UFES. Foi funcionário de carreira concursado do BNDES onde ingressou em 1980, aposentando-se em agosto de 2016. Foi prefeito de Vitória por dois mandatos consecutivos (1997-2000 e 2000-2004), deputado federal pelo Espírito Santo e foi diretor Presidente do BANDES, Banco de Desenvolvimento do Espirito Santo entre 2015 e 2016 e do IJSN-Instituto Jones dos Santos Neves entre 2019 e 2020. Luiz Paulo escreve quinzenalmente, sempre às sextas-feiras.
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Espera maré

O restaurante Espera Maré, na Barra do Jucu, na beira do rio onde se contempla a revoada das garças ao entardecer e se come da melhor culinária capixaba há mais de trinta anos, é um dos meus lugares favoritos na Grande Vitória. Conversando com Érika, a fundadora do restaurante, perguntei se ela estava esperando a maré cheia ou a maré vazante. Ela então me disse que, quando ela e o marido criaram e batizaram o charmoso lugar, ela estava grávida da primeira filha, uma menina cujo nome seria Maré. As marés na natureza, enchentes ou vazantes, são eventos previsíveis. Não se sofre ao esperar quem só deseja desfrutar.

Na política, como no mercado financeiro, também existem ondas de influxo e refluxo, como as marés na natureza. As opções são surfar na onda, ir contra a corrente ou esperar. Desde 2002, quando Lula venceu José Serra nas eleições presidenciais, o Brasil se debate entre duas ondas populistas, faces da mesma moeda: o Lulopetismo e o bolsonarismo. Pela última pesquisa da Quaest de abril/2026, 62% dos brasileiros não decidiram em quem votar para presidente. Incomodados como ostras entre o mar e o rochedo.

Convidado por Aécio Neves a ser candidato a presidente da república pelo PSDB, Ciro Gomes foi questionado pela repórter: “O senhor acredita ser ainda possível ocupar o espaço da terceira via?” Ciro respondeu de bate-pronto: “Como assim, terceira via? Lula e Bolsonaro são uma só via. O Brasil precisa de uma via alternativa.” Ele enumera os dados de endividamento e inadimplência de famílias e empresas: “Um terço das empresas brasileiras e metade da população adulta brasileira estão negativados no SERASA.” Além dos rumos da economia, a violência, o descontrole da criminalidade, os problemas estruturais das cidades, toda a agenda de reformas institucionais, tudo passa ao largo da superficialidade do populismo em ambas as versões. Só interessa mesmo a perspectiva de poder político e a valorização dos ativos.

As eleições de outubro vão decidir muita coisa além da presidência da república, mas é a eleição presidencial que referencia o posicionamento dos palanques estaduais e as candidaturas proporcionais. A janela de mudança partidária que se encerrou em 4 de abril, junto com a data limite para renúncias e desincompatibilizações, foi uma espécie de primeiro turno. No Espírito Santo, o projeto eleitoral de Ricardo Ferraço e Renato Casagrande consolidou três chapas fortes para a Câmara Federal: o PSB de Casagrande e de vários secretários de estado, o PODEMOS de Gilson Daniel e a Federação Progressista de Marcelo Santos e Josias Da Vitória. O MDB de Ricardo Ferraço, o PSD de Paulo Hartung, o PDT de Sergio Vidigal e o PSDB de Arnaldinho Borgo não conseguiram montar chapas competitivas para a disputa. Enquanto isso, o PT e o PL organizam projetos “puro sangue” com Helder Salomão e Fabiano Cantarato fazendo o palanque de Lula e Magno Malta e sua filha Maguinha estruturando o campo bolsonarista raiz afim de surfar no 22 do capitão.

O governo Casagrande conseguiu tirar dois deputados federais com mandato do Republicanos de Pazolini e um do PSDB que já não tinha a candidatura de Arnaldinho Borgo ao governo estadual. O deputado Evair de Mello, liderança bolsonarista nacional, deixou o PP e a Federação Progressista, filiando-se ao Republicanos, afastando-se assim da aliança partidária governista e viabilizando a chapa adversária do Anchieta. O ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, é o principal adversário da frente liderada por Ricardo Ferraço e Renato Casagrande. Ele tem uma escolha estratégica difícil de fazer: Ele pode apresentar-se como candidato de centro, como fez na eleição municipal onde o deputado Capitão Assunção foi quem assumiu o 22 bolsonarista, deixando para o prefeito o discurso centrista sem radicalização ideológica, ou pode juntar-se ao PL de Magno Malta num palanque unificado de Flavio Bolsonaro, assumindo um alinhamento completo e absoluto ao polo ultradireitista.

Os palanques estaduais vão se formando principalmente em função das lógicas locais, ora buscando surfar nas ondas nacionais, ora diluindo alinhamentos e formando alianças misturadas ou ainda afastando-se claramente da maré populista. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes, apoiador de Lula, foi buscar uma liderança bolsonarista da Baixada Fluminense para a vaga de vice. Seis deputados federais do Republicanos e União Brasil migraram para o PSDB, aliado de Paes numa clara demonstração de incômodo com os rumos do palanque carioca de Flávio Bolsonaro, controlado pelo desgastado e condenado ex-governador Claudio de Castro do PL.

Em Alagoas, João Henrique Caldas, o JHC, popular prefeito de Maceió, fez movimento semelhante, apoiado pelo veterano líder tucano, o ex-governador Teotônio Villela. Eleito e reeleito com 83% dos votos pelo PL, JHC renunciou à prefeitura e entrou no PSDB para assumir a candidatura ao governo estadual, longe da polarização nacional. Renan Calheiros, do MDB Lulista, é seu principal adversário.

A polarização nacional na eleição para presidente vai se consolidando, mas nos estados constata-se que se trata de maré vazante. Temos ainda bastante fluidez nos posicionamentos e alianças até 15 de agosto, quando acaba o segundo turno e a campanha começa. Só então os eleitores serão chamados a decidir.

O PSDB cresceu remando contra a maré, como na época de sua fundação, longe do poder. Passou a ter uma bancada de vinte deputados federais e nove candidatos a governador.

Luiz Paulo Vellozo Lucas
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Luiz Paulo Vellozo Lucas - engenheiro de produção pela UFRJ com cursos de pós graduação em finanças (Arthur Andersen), desenvolvimento econômico(BNDES) e economia industrial (IE-UFRJ), mestrado em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável pela UFES. Foi funcionário de carreira concursado do BNDES onde ingressou em 1980, aposentando-se em agosto de 2016. Foi prefeito de Vitória por dois mandatos consecutivos (1997-2000 e 2000-2004), deputado federal pelo Espírito Santo e foi diretor Presidente do BANDES, Banco de Desenvolvimento do Espirito Santo entre 2015 e 2016 e do IJSN-Instituto Jones dos Santos Neves entre 2019 e 2020. Luiz Paulo escreve quinzenalmente, sempre às sextas-feiras.

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