A palavra “economia” nasceu do grego antigo oikonomia, ligada à administração da casa. Oikos significava casa ou lar; nomos, regras e critérios de administração. Em linguagem simples, oikonomia era “a arte de administrar bem a casa”.
Entre os gregos, os filósofos Xenofonte e Aristóteles ligavam essa administração ao bom uso dos recursos. Com o tempo, o conceito chegou à gestão de empresas, governos e países.
Daí a provocação: Brasília precisaria de uma boa dona de casa como presidente?
Administrar um país é muito mais complexo do que administrar uma residência. Ainda assim, alguns princípios domésticos seriam úteis na gestão pública.
O primeiro é o orçamento. Uma dona de casa sabe que dinheiro não nasce na gaveta da cozinha. Se entram 10, não dá para gastar 15 indefinidamente e achar que a conta desaparecerá. Também não viveria tomando empréstimos e aumentando uma dívida que depois terá dificuldade para pagar. Endividar-se pode ser necessário; o problema é viver acima do que se ganha, principalmente quando os recursos vêm dos outros.
Ela também estabeleceria prioridades. Antes da televisão nova vêm alimentação, saúde, educação dos filhos e contas essenciais. Uma boa pergunta para qualquer orçamento público seria: isso é prioridade para quem paga a conta?
Nossa presidente-dona-de-casa também pesquisaria preços. Não compraria o primeiro pacote de arroz sem comparar preço e qualidade. Na administração pública, ainda aparecem falhas de planejamento, pesquisas de preços inadequadas e problemas, inclusive éticos, em contratações e licitações.
E desperdício? Arroz indo para o lixo em merendas escolares; medicamentos vencendo em hospitais; luz acesa sem necessidade; equipamentos pouco utilizados. Ela perguntaria: “Quem está pagando por isso?” No governo, a resposta é simples: o contribuinte, ou seja, o povo.
Ficaria ainda mais irritada com obra começada e não terminada. Em abril de 2025, o TCU registrou 11.469 obras paralisadas entre 22.621 empreendimentos mapeados com recursos federais, sendo que 70% são da área de educação e saúde. Sua pergunta seria: “Se não havia dinheiro e condições para terminar, por que começou?”
Também faria manutenção preventiva: consertaria a infiltração antes de trocar o telhado inteiro.
Na educação dos filhos, daria exemplo. Não pediria economia enquanto desperdiçasse nem falaria de ética fazendo o contrário. E não estimularia uma divisão de “nós contra eles”. Irmãos podem discordar, mas transformar metade da família em inimiga da outra metade não ajuda a casa a prosperar.
Com os vizinhos, buscaria boa convivência, evitaria conflitos desnecessários e se aproximaria de pessoas confiáveis. É uma boa metáfora para as relações internacionais: não precisamos concordar com todos, mas convém escolher bem nossas companhias.
Ao viajar, perguntaria: “Quanto podemos gastar?” Evitaria luxo incompatível com o orçamento, porque quem exige responsabilidade precisa dar exemplo.
Antes de uma reforma, perguntaria: é necessária? Temos recursos? Quando começa? Quando termina? Se existe algo que consome recursos e não é benéfico, cortaria. Em Brasília, seria o caso das estatais deficitárias e o excesso de servidores.
Talvez esteja aí uma boa definição de gestão: escolher prioridades, calcular custo-benefício, executar, acompanhar e terminar o que começou.
Governar um país como se administra uma casa não significa dizer que os dois são economicamente iguais — não são. Significa recuperar princípios elementares: não desperdiçar, não gastar acima das possibilidades, administrar dívidas, definir prioridades, pesquisar preços, planejar, concluir obras, dar exemplo e prestar contas.
Antes das grandes teorias, vale recordar a velha oikonomia: a arte prática e ética de cuidar bem da casa.
Você gostaria que um presidente se comportasse como uma boa dona de casa?









