José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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MAURICIO SALGUEIRO: o homem por trás da máquina

31 de maio de 2026: O domingo em que demos adeus a um dos mais brilhantes escultores brasileiros, e capixaba. A passagem de Maurício Salgueiro (1930-2026) é como se mais uma luz se apagasse no palco das artes no Brasil. O fim de uma geração que trouxe nomes como Amílcar de Castro, Franz Weissmann e o próprio Salgueiro domavam o ferro, não o dobrava, o fazia parecer vivo. No caso de Salgueiro, ele o colocava em movimento.

Maurício Salgueiro nasceu em Vitória, no centro, na rua Treze de Maio em 1930. Apesar de mudar-se para o Rio de Janeiro, sempre manteve seu vínculo com nosso estado, tendo sido professor de escultura no Centro de Artes, colaborando com o processo de criação e fortalecimento da federalização da Escola de Belas Artes.

Salgueiro era um mago dos movimentos. Conhecido internacionalmente como um dos nomes da arte cinética brasileira (aquela que coloca vida em obras, aparentemente estáticas). Sua obra sempre carregou um fardo do debate sobre os limites do homem, do estado e da máquina. Entre a luz e a obscuridade do silêncio.

MAURICIO SALGUEIRO: o homem por trás da máquina
Lâmina III de 1971 (Série Lâmina) e uma de suas obras com luz (série Escultura Luminosa (anos de 1960).

Lembro em uma exposição no Instituto Cultural Itaú, eu ainda era aluno da graduação, nos anos de 1980, entramos em um labirinto escuro, e a cada esquina dobrada um objeto… um botão… nossos corpos habituados a não tocar as obras, eram convidados a apertar um botão… um botão acionava máquinas que giravam; piscavam; faziam barulho, e piscavam intermitentemente até que paravam novamente a espera de uma nova interação… obras dos anos de 1960 que evidenciam o mais espetacular da arte cinética feita por um capixaba para o mundo.

MAURICIO SALGUEIRO: o homem por trás da máquina
Lâmina III (1971)

Em outra obra, que conheci no antigo Centro Cultural Carmélia (série Lâmina, quando este funcionava em sua plenitude, era uma mistura de ferro, lâmina de aço inox espelhado, socorro eletromecânico com movimentos sonoros e reflexão de imagens. Uma obra inquietante no acervo do nosso estado.

O som ritmado da placa que se movia, ao mesmo tempo que espelhava o observador, o distorcia. Uma engenhoca. Um grande brinquedo entre o estético e o lúdico. Mas sempre sobre a seriedade de um artista cujo projeto poético exalava força e criatividade. Mas, também um forte teor crítico. Salgueiro sempre foi atuante, inovador plástica e politicamente.

Em 1999, Frederico de Moraes escreve sobre ele:

(…) “Desde que retornou, em 1963, da Europa, onde permanecera dois
anos cumprindo o prêmio de viagem recebido no Salão Nacional, Mauricio Salgueiro
vem se dedicando, exclusivamente, à arte tecnológica. Em 1964
deu início à série de “esculturas luminosas”, nas quais, pela primeira vez, no
mundo, a luz fluorescente entra como matéria-prima da criação plástica.

[…] Explorando as possibilidades estéticas da luz, do som e do movimento
em estruturas mecânicas, Salgueiro vem construindo o que poderíamos
chamar de uma poética da máquina.

Ainda nos anos de 1960, nossa saudosa Carmélia de Souza escreveria um poema a ele, publicado em 22 de dezembro de 1963, no Jornal O diário:

Sua arte, sim – Pura. Bela.
Incontaminada.
Que começa no Cosme Velho e se destina
A ir muito além, porque para as Artes
Como a de Mauricio não há fronteiras
Nem limites

Aqui, em nossa capital, podemos ver algumas de suas obras em espaços públicos. Um Maurício mais tradicional, no qual podemos ver que o escultor dominava a figura humana e os processos da escultura pública. O Monumento à Bondade (1966), no Parque Moscoso, é uma homenagem ao Dr. Darcy Monteiro, ao mesmo tempo que revela um artista com domínio da forma e do metal. Um artista que associa arte, história e memória articulados.

Mas, é em duas outras obras na capital capixaba que Salgueiro vai revelar seu papel na arte nacional e, também o quanto estava à frente do pensamento escultórico capixaba naqueles anos de 1970, em que já tinha uma carreira consolidade a partir do Rio de Janeiro.

No movimento de revigorar a cidade de Vitória, o prefeito Chrisógono Teixeira da Cruz, em sua gestão (1971/1975) se empenhou em um projeto administrativo que modernizava a cidade, a atualizava. Talvez a mais expressiva intervenção neste sentindo, desde os anos de 1920. Chrisógono pensava uma Vitória em que passado, presente e futuro se articulavam de modo contínuo, em que um tempo, inspirado no outro, construía a cidade do aqui e agora. Neste sentido, o projeto político-administrativo dessa investe em expressivas obras arquitetônicas (como a sede nova da Prefeitura) reurbanização da escadaria Barbara Lindenberg (com a instalação de uma mais icônica escultura do nosso acervo a seu aberto: dona domingas, de Carlo Crepaz). Ou outras obras no Parque Moscoso. Essas primeiras com um toque da tradição, pelas mãos de Crepaz e mesmo com uma pitada do talento escultórico tradicional de Salgueiro.

Mas, é nessa gestão que sinaliza para a modernização da capital; para uma Vitória que administra sua herança colonial como lastro de seu futuro, que Chrisógono vai nos presentear com o vigor da escultura contemporânea de Maurício Sagueiro. Duas obras, quase lado a lado. O Monumento à Mãe (1971-75) e Monumento à Evolução da Cidade (1971/72).

MAURICIO SALGUEIRO: o homem por trás da máquina

A passagem de Salgueiro é uma perda pra todos. Mais um pedaço da história do Centro de Artes da UFES e da arte capixaba parte. O carnaval perde um dos seus mais diletos amantes. A escultura brasileira ouve o silenciar de um grande mestre.

Mas sua obra segue pulsando…

Que os céus te recebem com a alegria que você sempre teve e que siga inspirando novas gerações de escultores!!

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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