José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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A diversidade étnica na escultura pública: a diversidade dos grupos escultóricos

Em recente visita à nova sede da Câmara Municipal de Viana, fui surpreendido com uma obra que eu não tinha conhecimento. Embora nosso grupo de pesquisa tenha se empenhado em mapear os monumentos nos 78 municípios capixabas, é notório que a velocidade como novas esculturas públicas tem surgido já me impressiona.

A obra integra as dependências da Câmara Municipal de Viana, um projeto que surpreende pela sua ousadia de pensar um espaço do legislativo municipal com um projeto sustentável, tanto do ponto de vista energético como ambiental e de acessibilidade. Esse novo espaço reflete a descentralização dos investimentos públicos do centro metropolitano, retomando o protagonismo dos municípios nas bordas da nossa capital. Viana tem se empenhado em se tornar o Portal da Serra Capixaba. E nos parece estar fazendo isto com um conjunto de ações políticas, administrativas, sociais e, especialmente, culturais.

A sede municipal já conta com uma obra do escultor José Carlos Vilar, que em sua homenagem aos povos açorianos da colonização vianense, faz referência às montanhas e à prática de voo livre na Rampa do Urubu.

A diversidade étnica na escultura pública: a diversidade dos grupos escultóricos

Ainda em Viana, bustos de personalidades históricas e mesmo religiosas vão formando um acervo de obras, às quais o Monumento às Etnias, da Câmara municipal se soma. Essa ação cultural em Viana vem reforçando o lugar das artes e dos monumentos como um sinalizador da história e do pertencimento da população local, bem como seu acesso a bens culturais e artística que ficavam limitados à nossa capital capixaba.

Essa iniciativa de Viana parece interromper um movimento que vinha apagando a produção escultórica capixaba. Ƒoi possível notar que por muitas décadas tivemos uma quase paralização de inciativas públicas ou privadas nesse sentindo.

Em nossa capital a Lei Namy Chequer, no final dos anos de 1990, trouxe obras relevantes que fomentaram a ideia de termos um museu a céu aberto em Vitória, mas vimos que após dez anos, essa Lei Municipal foi perdendo sua vitalidade, e as obras obrigatórias começaram a se limitar a pequenos formatos, no hall de entrada das edifícios, ou ainda atrás da porta de entrada. Muitas delas sendo, inclusive, retiradas por moradores ou síndicos que desconhecem sua origem, ou movido por um novo gosto pessoal que se sobrepõe ao intuito coletivo das obras originadas desta lei.

Com essas alterações, a ideia de um acervo semipúblico, colado ao termo de habite-se das construções com gerenciamentos da Secretaria de Cultura e do Sindicato dos Artista, tem naufragado e as obras nas últimas décadas não estão compartilhadas com a população nas ruas da cidade. Mas, felizmente, outras ações têm ressuscitado essa emergência estética.

Recentemente, em Vitória e Vila Velha podemos também verificar duas iniciativas icônicas. Organizado e mantido pela iniciativa privada, o Parque Cultural Reserva Vitória tem se mostrado uma efetiva ação de retomar o lugar memorial e cultural do espaço compartilhado. A outra ação de forte expressão é o Parque de Esculturas da Casa do governador (que já foi alvo de uma outra coluna minha). Uma retomada de obras em espaços de vivência coletiva.

O caso da Câmara de Viana

Retomo aqui a obra que me impressionou, pelo seu tamanho e pela sua feitura. A escultura, que fica no pátio interno da câmara legislativa, mas de acesso ao público. A obra fala da união, da junção das diferenças para a formação do espaço que habitamos.

O tema das etnias que formaram o solo capixaba, expressas em sua diversidade, não é raro na escultura pública capixaba. Temos conjuntos escultóricos sobre as três principais etnias em São Mateus e Nova Venécia, ambas do escultor Giacomo Castiglia; Em Linhares, numa obra de Nilson Camisão (retirada para uma reforma da praça, sob a alegação da nudez das figuras, elas foram abandonadas pelo poder público municipal e aguardam um possível restauro que nunca ocorreu); e agora, essa obra de Hippólito Alves, em Viana. Temos diversas obras isoladas, como Dona Domingas, O monumento ao Índio, Monumento ao Rei Zulu, em Vitória; assim como o Chico Prego na Serra; O Caboclo Bernardo, também em São Mateus, dentre outros.

O que me chama a atenção na obra de Viana?

A dimensão da obra é um fato marcante. Sua escala monumental não é comum no cenário capixaba, daí um certo interesse especial.

A diversidade étnica na escultura pública: a diversidade dos grupos escultóricos

A Imagem acima permite uma percepção de sua escala.

Em uma conversa com o artista, pude saber um pouco mais do projeto, visto por seu criador.

[] Então é um monumento às etnias… às raças… e… tem essas
três figuras… bem… humanóides… vou botar assim sem muita
definição… mas… representam três figuras… humanas… que
têm… tem um globo… que representa o universo… a terra… da
onde vieram os. Os imigrantes… e aqueles que aqui estavam
também… e… essas duas fitas aí representam… as duas berras
importantes que passam aí… a mulher contempla lá em cima
com a menina… essa bailarina soltando uma pomba que é
o Divino Espírito Santo.
Há uma teatralidade muito grande… eu estou falando disso tudo aí.

Entra aqui a principal diferença desse monumento com os demais monumentos a grupos étnicos que formaram nosso estado. Ele, assim como o monumento aos açorianos de Vilar, não personaliza ou diferencia os corpos transformando-os em lugares de fala. Hippólito, sequer se limita a referenciar uma única etnia, ele parece tentar pensar que sobretudo somos humanos e devemos nos pensar como tal nas nossas igualdades e não em diferenças. A identidade religiosa da comunidade está expressa na pequena bailarina que solta a pomba, numa clara referência à Festa do Divino, tradicional na comunidade.

A diversidade étnica na escultura pública: a diversidade dos grupos escultóricos

A Obra interage com o espaço arquitetônico, assim como nos grandes jardins internacionais. Os corpos sustentam o globo, interligados por sus mão e laços que envolvem a grande esfera.

O projeto idealizado pelo artista em constante diálogo com o Presidente da Câmara, Joilson Broedel, revela essa tendência da nova câmara de Viana: atenção às questões do meio ambiente e da sustentabilidade, mas também com o incentivo da arte e da cultura, condensados em um projeto arquitetônico inovador que coloca Viana no diálogo com a contemporaneidade e com as necessidades de crescimento orquestrado na responsabilidade do poder público com a comunidade em que está inserida. O prédio e a obra refletem a preocupação do presidente em estratégias de fortalecimento da cultura e da economia local.

A diversidade étnica na escultura pública: a diversidade dos grupos escultóricos

A diversidade étnica na escultura pública: a diversidade dos grupos escultóricos

A obra impressiona pela sua dimensão e proposta de diálogos mediados pelas aproximações e não por dicotomias que parecem estar levando esse mundo a um patamar de intolerância e segregação.

O monumento de Hippolito parece uma tentativa de lembrar de nossas semelhanças.

Inserido nesse espaço arquitetônico e cultural em Viana, parece sinalizar a harmonia entre o povo e o poder político; a municipalidade existe na dimensão do povo a quem cuida e garante os direitos humanos básicos.

A diversidade étnica na escultura pública: a diversidade dos grupos escultóricos

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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