João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
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Coração de tempestade

Li, recentemente, a biografia de Carlos Lacerda, escrita por Mário Magalhães. Trata-se de uma obra fundamental não apenas para entender a vida desse brasileiro —extremamente polêmica, diga-se de passagem —, mas também para mergulhar na origem da nossa imprensa moderna. Mas, não apenas, O livro nos remete ao coração da política brasileira, em especial à Era Vargas e ao curto período democrático entre 1945 a 1964, durante o qual o biografado foi personagem central.

Nascido em 1914, torna-se adulto na virada da Primeira República para a Era Vargas. Filho de uma família de políticos mais alinhados à esquerda, viveu desde muito cedo a experiência das perseguições, prisões e maus-tratos que a polícia política varguista reservou aos adversários do regime. Teve uma infância difícil, marcada pela ausência paterna, decorrente da permanente luta política do pai, mas também pelas muitas relações que este manteve com o universo feminino. Inveterado galanteador, o pai mantinha duas famílias, e teve um fim de casamento pavoroso para os filhos.

Parece que sua tempestade interior começou aí, mas foi a maneira como lidou com ela é que o transformou em um ser humano especial, muito diferente dos demais. Leitor compulsivo começou a escrever desde muito jovem. Ainda criança, inventou um jornalzinho manuscrito, restrito a amigos e parentes. Além disso, escrevia e encenava peças de teatro e produzia outros textos que o levaram, muito cedo, a ingressar profissionalmente no mundo da imprensa.

Filiado ao Partido Comunista, era um agitador nato. Participava de todos os movimentos que o levassem a propor coisas novas ou reclamar de injustiças. Estudante de Direito na, hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro, curso que nunca concluiu, teve forte atuação na defesa dos direitos individuais e da liberdade de imprensa, de pensamento e de ações políticas.

Foi antigetulista desde o início da longa jornada do presidente no poder, desde 1930, inicialmente ligado aos comunistas. Afastado deles, foi personagem muito importante na criação do UDN (União Democrática Nacional), que, mesmo sendo um partido político claramente conservador, levava em seu coração a ideia de uma grande frente em defesa da democracia e pelo fim do autoritarismo que marcou a Era Vargas. Preso diversas vezes, Lacerda conheceu de perto o mundo das torturas, tão comuns naquele tempo.

Vigoroso defensor do modelo social dos Estados Unidos, foi um dos fundadores do jornalismo moderno brasileiro. Desde o início, criou o que ele mesmo chamava de uma “fábrica de notícias”, com muitas inovações. Seu jornal A Tribuna da Imprensa, rivalizou durante longos anos com o Última Hora, de Samuel Wainer, jornalista muito ligado ao governo Vargas, e também disputou espaço com o grupo empresarial de Assis Chateaubriand, dono de O Jornal, da TV Tupi e e inúmeros outros negócios nessa área.

O extenso trabalho de pesquisa de Mário Magalhães mostra que Carlos Lacerda foi o primeiro político brasileiro a entender a força da televisão. Em seus longos programas, adotava uma postura muito didática para se comunicar com a população. Sabendo da força da imagem, usava um quadro-negro para explicar, de forma simples, intrincados problemas, como um verdadeiro professor das massas. Intelectual vigoroso, foi tradutor de Shakespeare e dono de um texto forte, adjetivado e agressivo. Lacerda foi um líder que saiu da imprensa para a vida política.

Eleito vereador pelo Rio de Janeiro, quando o Rio ainda era o Distrito Federal, foi o candidato mais votado de todo o Brasil. Assim iniciou sua carreira política meteórica, que quase o levou à Presidência da República. Dono de ideias vigorosas, foi adquirindo, ao longo do tempo, um viés conservador alicerçado em um cristianismo reacionário que o transformou num defensor de propostas muito diferentes daquelas que tinha na juventude.

Entretanto, o que mais encanta na leitura da biografia desse grande personagem da política brasileira do pós-guerra é a batalha das ideias em que se meteu. Batalha, sim, porque havia muitas ideias e muitos defensores e detratores de cada uma delas. Parece até mentira que o Brasil já foi um lugar onde a política se fazia com ideias, num universo onde cabiam Jorge Amado, Alceu de Amoroso Lima, Victor Nunes Leal, Rubem Braga, Carlos Drumond de Andrade, Gilberto Freyre, Juscelino Kubistchek, Vinicius de Moraes e tantos outros.

Hoje, quando olhamos esse deserto de ideias e de personagens, onde vigora um clima de brigas banais e um populismo desqualificado, temos saudade desses tempos em que a capacidade de formular e defender políticas públicas movia a política. Hoje, resta-nos esse enorme vazio político em que vivemos.

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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