João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Os capixabas são conservadores e empreendedores

As eleições costumam ter traços estruturais e conjunturais. Os primeiros são aqueles que se repetem a cada processo, fazendo parte da estrutura histórica mais permanente da sociedade. Já os segundos são produto de um processo específico e podem se diferenciar ao longo do tempo.

Entre o que venho chamando de elementos estruturais, no caso do Espírito Santo, está uma certa autonomia das eleições regionais em relação às eleições nacionais. Vamos ver como isso se dá nas eleições que se aproximam. Tem sido assim em quase todas elas. Mesmo depois de 2018, quando a polarização entre petistas e bolsonaristas tomou conta do Brasil, nós continuamos fora dela nos processos eleitorais.

Tanto é assim que Renato Casagrande, em 2022, colocou alguns aliados para fazer, no segundo turno, uma dobradinha com os eleitores de Bolsonaro. Arnaldinho Borgo, de Vila Velha, Euclério Sampaio, de Cariacica, e Enivaldo dos Anjos, de Barra de São Francisco, foram mobilizados para garantir que o eleitor de Jair Bolsonaro também votasse nele, configurando, assim, o estranho voto Casanaro. A estratégia serviu para blindar o Renato Casagrande da polarização, garantindo a ampliação do voto dele ao universo longe da centro-esquerda, de onde se originou.

Por seu passado integralista, o Espírito Santo é muito conservador, tradicional mesmo. No atual ciclo de poder, protagonizado por Paulo Hartung e Renato Casagrande, ambos fizeram acenos à direita para conquistarem o poder regional. Esse conservadorismo deve-se, sobretudo, ao cristianismo originário do catolicismo, tal como o vivemos aqui no passado. A forte presença da imigração italiana entre nós permitiu isso. Com a substituição do catolicismo pelas novas seitas evangélicas, o quadro se agudizou.

Mas, se os italianos e seus descendentes têm esse traço conservador nos costumes, têm também, como traços marcantes, a dedicação ao trabalho, tanto que muitas famílias progrediram, e também uma forte capacidade empreendedora. São hoje muitos deles empresários de sucesso na área rural e também na indústria, no comércio e na área de serviços. Essa capacidade empreendedora tem feito nossa tradição conservadora escolher dirigentes mais ousados, que não caberiam no perfil mais tradicional.

Em 1990, elegemos Albuíno Azeredo governador do estado, um homem negro, vindo de uma família pobre da região metropolitana, que fez sua campanha para o governo justamente em cima desse passado de dificuldades e de sua capacidade de ascensão por meio dos estudos.

Engenheiro civil, trabalhou na Vale até tornar-se um empresário de sucesso. Sua trajetória de esforços pessoais impressionou os capixabas, que o elegeram para governar o Espírito Santo.

Vitor Buaiz foi um dos primeiros governadores petistas do Brasil, mostrando que os capixabas não se assustaram com a sua vertente de esquerda. Votaram, antes, naquele que havia sido um bom prefeito de Vitória, um homem de gestos contidos, muito ligado à sua estrutura familiar e um médico voltado para as causas sociais. Mais uma vez valeu mais a sua capacidade empreendedora do que seu vínculo ideológico.

José Ignácio Ferreira foi cassado pelos militares de forma muito injusta em 1969, em plena vigência do AI-5. Foi um combativo presidente da OAB-ES no mesmo período autoritário dos militares e emergiu na política capixaba no momento da abertura, das Diretas Já e do combate à corrupção no governo Sarney. Nada disso o impediu de ser nosso governador.

Já Paulo Hartung e Renato Casagrande, os dois grandes protagonistas da política capixabas nas primeiras décadas do século XXI, também não são filhos da aristocracia local. Renato vem de uma família de pequenos proprietários agrícolas em Castelo, e seu pai tinha uma espécie de quitanda, um mercadinho de frutas e legumes. Longe de pertencer ao mundo os privilegiados, Renato é um homem que se construiu na política por seus valores. Mais um empreendedor.

O mesmo se pode dizer de Paulo Hartung, filho de um comerciante de médio porte do ramo de móveis, que teve lojas inicialmente no Sul do estado, vindo para Vitória mais tarde. A trajetória de PH é mais claramente de esquerda no início da vida; hoje, é homem de centro-direita, tendo sido importante líder estudantil na juventude e governador por três vezes.

Minha tese é a de que os capixabas privilegiam os candidatos ao Executivo estadual que mostrem resultados. A capacidade empreendedora de seus dirigentes é uma razão de voto muito importante. Conjugamos, assim, conservadorismo e empreendedorismo na mesma medida, o que é, como disse no início, um traço estrutural de nossa política.

 

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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