João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
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O café conillon capixaba

Muitas vezes, quando nos deparamos com o progresso do Espírito Santo, não paramos para pensar como tudo isso foi construído em tão pouco tempo. Quando comparamos essa trajetória com a dos países europeus, onde as atividades produtivas em larga escala datam de séculos, é que nos damos conta do quanto avançamos. No caso específico no norte do Estado, hoje tão próspero, isso é ainda mais evidente.

A região se constituiu como é hoje praticamente no século XX, sobretudo impulsionada pela cafeicultura, com plantio em massa do café arábica. Foi essa atividade que determinou a construção da Estrada de Ferro Vitória-Minas, concebida no final do século XIX para transportar o produto até o Porto de Vitória, e que começou a operar nos primeiros anos do século passado. Ela estimulou a construção de toda a malha urbana da região, inclusive de sua cidade-polo, Colatina, onde foi construída uma estação ferroviária, responsável pela própria existência da cidade e de sua potência.

Como toda a região se desenvolveu com base na economia cafeeira, a política do governo nacional de erradicação dos cafezais, a partir de meados dos anos 1960, foi um desastre para todos. Os proprietários que aderiram ao processo de indenização para extrair os cafezais do solo, em boa parte deixaram a região. Mas, como a política determinava que, em lugar do café deviam ser cultivados pastos ou mamoeiros, deixou de haver trabalho para os meeiros.

Foi a ruína geral da economia capixaba como um todo, especialmente nas terras do norte do Estado. Éramos praticamente apenas produtores de café, e a sua retirada deixou o vazio. Quando veio a política de substituição dos antigos plantios, ela deixou de fora as terras abaixo de 400 metros de altitude. Nesse momento, surge, mais uma vez, a figura gigantesca do imigrante polonês e grande empreendedor Eduardo Glazar, sobre o qual falei em artigo recente.

Em seu livro Brava Gente Polonesa, ele registra que o plantio de um café mais adaptado às terras quentes só começaria em 1971, em São Gabriel da Palha, contando com todo o seu incentivo e com o prefeito de São Gabriel. Os primeiros registros da produção local são de 1974, na sua segunda gestão. Ele próprio já vinha fazendo experimentos com o café em sua propriedade há alguns anos.

Essa produção quase artesanal, em sua propriedade, produziu um conhecimento: nos primeiros quatro anos do plantio, ele viu que a produção se iniciava mais cedo, alcançava maior produção por pé e por área, além de ser mais resistente às pragas. Como prefeito, Eduardo Glazar passou a distribuir mudas, sem qualquer apoio em políticas públicas nacionais.

Em determinado momento, as lideranças do município — a câmara municipal, a prefeitura e os empresários — estavam engajadas na produção de mudas em viveiros, para ampliar a produção. A pedra de toque, entretanto, foi o fato de os produtores de São Gabriel tomarem conhecimento de que o grande exportador de café Jônice Tristão estava construindo uma fábrica de café solúvel em Vitória. Jônice abraçou, de imediato, o plano daqueles produtores e passou a comprar o café conillon produzido em São Gabriel da Palha.

Desde o início dessa nova epopeia do norte capixaba, os governadores Christiano Dias Lopes e Arthur Gehardt ficaram solidários ao esforço daqueles abnegados produtores de São Gabriel da Palha. O resultado todos conhecem hoje: o Estado venceu aquela quadra de dificuldades e se instituiu como grande produtor nacional.

O aprendizado que esse fato histórico nos dá é que não só de políticas econômicas se faz o progresso de uma região. Em determinados casos, ocorre o contrário, como na erradicação dos cafezais capixabas, responsável pelo atraso e pela desolação, pelo crescimento desorganizado das maiores cidades do nosso Estado e por graves consequências, como, por exemplo, na segurança pública.

Somente a capacidade empreendedora instalada em um território pode determinar a prosperidade, assim como é o papel de lideranças responsáveis que produzem o progresso. Eduardo Glazar, Dário Martinelli e outras lideranças de São Gabriel da Palha construíram um exemplo capixaba de superação da crise, graças ao plantio em larga escala do café conillon.

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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