Muitas vezes, quando nos deparamos com o progresso do Espírito Santo, não paramos para pensar como tudo isso foi construído em tão pouco tempo. Quando comparamos essa trajetória com a dos países europeus, onde as atividades produtivas em larga escala datam de séculos, é que nos damos conta do quanto avançamos. No caso específico no norte do Estado, hoje tão próspero, isso é ainda mais evidente.
A região se constituiu como é hoje praticamente no século XX, sobretudo impulsionada pela cafeicultura, com plantio em massa do café arábica. Foi essa atividade que determinou a construção da Estrada de Ferro Vitória-Minas, concebida no final do século XIX para transportar o produto até o Porto de Vitória, e que começou a operar nos primeiros anos do século passado. Ela estimulou a construção de toda a malha urbana da região, inclusive de sua cidade-polo, Colatina, onde foi construída uma estação ferroviária, responsável pela própria existência da cidade e de sua potência.
Como toda a região se desenvolveu com base na economia cafeeira, a política do governo nacional de erradicação dos cafezais, a partir de meados dos anos 1960, foi um desastre para todos. Os proprietários que aderiram ao processo de indenização para extrair os cafezais do solo, em boa parte deixaram a região. Mas, como a política determinava que, em lugar do café deviam ser cultivados pastos ou mamoeiros, deixou de haver trabalho para os meeiros.
Foi a ruína geral da economia capixaba como um todo, especialmente nas terras do norte do Estado. Éramos praticamente apenas produtores de café, e a sua retirada deixou o vazio. Quando veio a política de substituição dos antigos plantios, ela deixou de fora as terras abaixo de 400 metros de altitude. Nesse momento, surge, mais uma vez, a figura gigantesca do imigrante polonês e grande empreendedor Eduardo Glazar, sobre o qual falei em artigo recente.
Em seu livro Brava Gente Polonesa, ele registra que o plantio de um café mais adaptado às terras quentes só começaria em 1971, em São Gabriel da Palha, contando com todo o seu incentivo e com o prefeito de São Gabriel. Os primeiros registros da produção local são de 1974, na sua segunda gestão. Ele próprio já vinha fazendo experimentos com o café em sua propriedade há alguns anos.
Essa produção quase artesanal, em sua propriedade, produziu um conhecimento: nos primeiros quatro anos do plantio, ele viu que a produção se iniciava mais cedo, alcançava maior produção por pé e por área, além de ser mais resistente às pragas. Como prefeito, Eduardo Glazar passou a distribuir mudas, sem qualquer apoio em políticas públicas nacionais.
Em determinado momento, as lideranças do município — a câmara municipal, a prefeitura e os empresários — estavam engajadas na produção de mudas em viveiros, para ampliar a produção. A pedra de toque, entretanto, foi o fato de os produtores de São Gabriel tomarem conhecimento de que o grande exportador de café Jônice Tristão estava construindo uma fábrica de café solúvel em Vitória. Jônice abraçou, de imediato, o plano daqueles produtores e passou a comprar o café conillon produzido em São Gabriel da Palha.
Desde o início dessa nova epopeia do norte capixaba, os governadores Christiano Dias Lopes e Arthur Gehardt ficaram solidários ao esforço daqueles abnegados produtores de São Gabriel da Palha. O resultado todos conhecem hoje: o Estado venceu aquela quadra de dificuldades e se instituiu como grande produtor nacional.
O aprendizado que esse fato histórico nos dá é que não só de políticas econômicas se faz o progresso de uma região. Em determinados casos, ocorre o contrário, como na erradicação dos cafezais capixabas, responsável pelo atraso e pela desolação, pelo crescimento desorganizado das maiores cidades do nosso Estado e por graves consequências, como, por exemplo, na segurança pública.
Somente a capacidade empreendedora instalada em um território pode determinar a prosperidade, assim como é o papel de lideranças responsáveis que produzem o progresso. Eduardo Glazar, Dário Martinelli e outras lideranças de São Gabriel da Palha construíram um exemplo capixaba de superação da crise, graças ao plantio em larga escala do café conillon.









