João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
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Brava gente polonesa

Quando estava pesquisando para a produção da minha tese de doutorado, em 1988, chamada A Invenção do Coronel: raízes do imaginário político brasileiro, que deu origem ao livro homônimo com algumas adaptações para tornar a leitura mais leve, entrevistei personagens políticos capixabas ligados às heranças do coronelismo.

Entre os que conversei, um marcou muito o meu trabalho e a minha compreensão do papel das lideranças na construção da prosperidade: Eduardo Glazar, um imigrante polonês que chegou à região de São Gabriel da Palha no início dos anos 1930, com apenas 10 anos de idade. Sua trajetória de sucesso inicia-se por ser um dos primeiros que dominou a nossa língua entre o seu povo, servindo de interprete aos seus compatriotas. Sua trajetória de sucesso o transformou em uma liderança importante na conquista de benefícios nos primeiros tempos da localidade.

Encontrei, numa dessas estantes que ficam em praças públicas com obras para serem lidas pelo público, em Burarama, distrito de Cachoeiro do Itapemirim, um exemplar de um livro cuja existência eu desconhecia, Brava Gente Polonesa, que dá título à coluna de hoje, escrito pelo mesmo Eduardo Glazar. É um trabalho dividido em um grande número de capítulos, nos quais o autor conta sua saga desde a prisão de seu pai em um campo de prisioneiros na Rússia durante a Primeira Guerra Mundial até o ano de 2005, quando a obra foi publicada, um pouco antes de sua morte.

Quando chegou ao Brasil, em 1931, aquela região pertencia ao município de Colatina. A ponte Florentino Avidos não estava totalmente pronta, e ele e sua família tiveram que atravessar dois pranchões rústicos, todos em cima da carroceria de um caminhão. Encontraram mata pura, ainda habitada por um remanescente de indígenas e mais nada. A mata foi derrubada a machadadas, e as poucas dezenas de famílias polonesas vindas com a família Glazar foram destinadas a áreas de terra entre cinco e dez alqueires, nas quais foram plantados produtos destinados à sobrevivência das famílias e o café arábica, que era o produto que chegava ao mercado e gerava renda.

Os cafezais progrediram e os poloneses foram melhorando de vida, gerando em seu entorno a necessidade de estabelecimentos comerciais – as vendas – onde pudessem ser comprados os artigos mais necessários à sobrevivência. Eduardo Glazar passou logo a se ocupar também do comércio, inicialmente na Companhia Polonesa em São Gabriel da Palha e, depois, por conta própria, além de outras atividades na cadeia produtiva do café. Teve caminhão para o transporte, máquina de beneficiamento do produto e foi correspondente de bancos em São Gabriel da Palha.

Quanto o núcleo urbano foi se desenvolvendo, abriu o Cine Estrela, o primeiro da cidade; depois, abriu um pequeno hospital para dar assistência médica à população. Foi também o grande protagonista das atividades imobiliárias que permitiram o crescimento urbano de São Gabriel, entre tantas outras coisas que a sua capacidade empreendedora permitiu. Foi percebido pelo governador Carlos Lindemberg como grande liderança da localidade e filiou-se ao antigo PSD, como era hábito do governador, que promoveu politicamente o jovem líder. Por esse partido, foi vereador em Colatina ainda nos anos 1950 e, depois, o primeiro prefeito da cidade em 1967, retornando posteriormente ao mandato para concluir muitas de suas obras na cidade. Foi um prefeito empreendedor.

Esse breve resumo de sua obra no norte do Estado não nos dá a dimensão de sua grandeza como liderança, nem das vidas que salvou como proprietário dos primeiros veículos automotivos da cidade, que levavam doentes para Colatina, nem daqueles que amparou com crédito no começo de suas vidas comerciais, quando permitia que se as compras no armazém fossem pagas somente na coleta do café, sem a cobrança de juros.

A região norte do Espírito Santo tem seu desenvolvimento muito recente, afinal, estamos falando de um território coberto pela Mata Atlântica e ainda habitada por indígenas até há menos de 100 anos. Todo o progresso que hoje temos naquela área nasceu muito recentemente. É uma epopeia feita por algumas personalidades que se aproximam do heroísmo e revelam muita coragem pessoal. Coragem para enfrentar cobras e outros bichos desconhecidos, para entrar na mata em dias de frequentes temporais e para enfrentar um outro ambiente, tão diferente do país coberto de neve de onde vieram.

Acredito, entretanto, que a grande obra de Eduardo Glazar foi a forma como, juntamente com Dário Martinelli, abriram o horizonte da região como o plantio do café conilon, o grande responsável pela redenção de São Gabriel da Palha e de outros municípios após da trágica erradicação dos cafezais dos anos 1960. Mas essa história merece ser contada por inteiro em outro artigo.

 

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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