O Espírito Santo teve, ao longo de sua trajetória histórica, grandes empreendedores, que construíram o nosso progresso, antecipando pressões sobre investimentos só agora realizados. Um deles foi certamente foi José Marques Soares, o Coronel Soares, um próspero proprietário de terras, fazendeiro de sucesso, criador de gado no município de Itapemirim, no Sul de nosso Estado, a partir da segunda década do século XX. A empresa Soares & Irmãos, com a qual operou no porto, foi constituída em 1921. Seu acervo foi preservado por sua filha Ivilisi, sua guardiã, e vem sendo organizado e digitalizado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Itapemirim e Marataízes.
Na política, foi vereador por dois mandatos, tendo inclusive sido presidente da Câmara Municipal. Nas eleições que disputou foi o mais votado, sendo o responsável pela organização e apuração dos votos, o que não era pouca coisa na primeira república, quando as eleições eram decididas nos bastidores. Seu irmão e sócio, o Joca, foi prefeito de Itapemirim. Ainda assim, sua marca existencial foi a do empreendedor que operou no Porto da Barra de Itapemirim, e muito lutou para o seu crescimento. É esse o elemento que quero destacar.
Mesmo considerando a importância da dimensão empreendedora em sua vida, é importante registrar que, em seu tempo, as possibilidades de fazer sucesso nos negócios sem levar em conta dimensão dos relacionamentos políticos era quase impossível. Isso certamente o aproximou da poderosa família Monteiro de Cachoeiro de Itapemirim. Não por acaso, o Coronel Marcondes de Souza, ligado a essa família, e o próprio Bernardino Monteiro foram entusiastas da obra da Estrada de Ferro Itapemirim quando governaram o Espírito Santo, o primeiro entre 1912 e 1916, e o segundo entre 1916 e 1920. A ferrovia viabilizaria o porto.
Eles ficaram convencidos de que era importante construir uma ferrovia e um porto de porte na Barra do Itapemirim. Seria o escoadouro natural do café produzido na região. O porto natural exigia a construção de um cais para os navios atracarem, além de outros equipamentos para a sua operação. Assim, foi construída a estrada de ferro que ligou Cachoeiro de Itapemirim a Marataízes, passando pelo porto da Barra, mas os outros investimentos nunca ocorreram, e essa foi a razão da vida do Coronel Soares.
Outro elemento importante na lógica política daquela época é que o seu irmão Joca, prefeito de Itapemirim nesse período, foi peça importante nesse xadrez do poder. Juntos davam uma dimensão importante à articulação entre o progresso econômico da região e os relacionamentos políticos. Essa, aliás, sempre foi a alma do coronelismo, sistema de controle da política que ambos fizeram parte.
A primeira onda do café no Espírito Santo, digamos assim, ficou concentrada em grande parte na região sul, sobretudo no Vale do Itapemirim. Devido a sua proximidade com o Vale do Rio Paraíba, região pioneira na produção da cafeeira na região sudeste do Brasil, a grande produtora nesse período.
O litoral, onde se situa Itapemirim, ficou muito vinculado à cana de açúcar, sendo a produção do café feita no interior. Cachoeiro do Itapemirim, no vale do mesmo rio, acabou polarizando o processo, e, assim, fluía para Cachoeiro boa parte do que era produzido na região. As estradas de ferro que começariam a ligar os pontos mais distantes do território capixaba começaram a existir em função desse processo econômico. Faltava um porto, que poderia ser construído na Barra, mas acabou sendo instalado em Vitória. A fundação do porto da capital completa 120 anos agora, em março de 2026.
Por um lado, era uma demanda econômica da sociedade, mas de outro seria uma boa oportunidade de negócios para o setor empresarial local. Os negócios dos irmãos tiveram o abrigo da empresa Soares & Irmãos, que passou a operar o porto e o trapiche na Barra. Mas, eram necessários investimentos como os que estavam sendo feito no Porto de Vitória, que se modernizava para atender a exportação do café. A escala dos negócios era tímida diante da ousadia do Coronel Soares, que vislumbrava uma economia pujante para a região.
Hoje vemos o governo estadual e o capital privado viabilizando um empreendimento portuário de grande porte na região sul. Certamente será um elemento importante para o progresso regional. Um visionário, o Coronel Soares, já tinha entendido isso há um século. Sonhou com um porto regional moderno e bem equipado, sabendo do impacto econômico que teria. Operou um trapiche, um conjunto de armazéns dos quais temos apenas um resto de ruínas. Hoje, sem ter realizado o seu sonho, o Coronel Soares merece justas homenagens, agora que seu sonho vai se realizar, tão próximo do local que imaginou poder tornar mais desenvolvido.









