Capítulo V – A lenda da joia mágica que dominava demônios com seu anel
Salomão, filho de Davi, governou Israel por volta do século X a.C. e é celebrado na Bíblia como o homem mais sábio que já viveu. Em 1 Reis 3, lemos que Deus lhe apareceu em sonhos e lhe concedeu “coração sábio e entendido”. A Bíblia também registra que Salomão escreveu três mil provérbios e mil e cinco cânticos (1 Reis 4:32), e que sua sabedoria atraiu governantes de toda a terra.
Reza a lenda que a o anel associado a Salomão para combater espíritos vem do historiador judeu Flávio Josefo (século I d.C.). Josefo relata que Salomão compôs fórmulas de exorcismo e deixou ensinamentos sobre como expulsar demônios. Ele conta ter presenciado um judeu chamado Eleazar usar um anel com o selo de Salomão para extrair demônios de pessoas possessas, na presença do imperador Vespasiano. Josefo escreve: “Deus também lhe permitiu aprender a arte que é usada contra os demônios, para o benefício e cura dos homens.” (Antiguidades Judaicas, 8.2.5).
Josefo, embora seja uma fonte histórica valiosa, escreveu séculos depois da morte de Salomão. O relato de Eleazar usando um anel com “o selo de Salomão” já era uma tradição oral circulante na época.
No entanto, a narrativa mais completa sobre o anel vem de um texto chamado Testamento de Salomão, um escrito pseudoepígrafo em grego, composto provavelmente entre os séculos II e IV d.C., mas com acréscimos posteriores que se estendem até a Idade Média. O texto não é considerado canônico por nenhuma denominação judaica ou cristã.
A história começa com Salomão enfrentando um problema prático na construção do Templo em Jerusalém. Um jovem trabalhador, que Salomão amava como filho, estava sendo atormentado por um demônio chamado Ornias. O demônio roubava metade do salário do rapaz e, à noite, sugava sua vitalidade pelo polegar da mão direita, deixando-o definhado.
Salomão, preocupado, orou no Templo dia e noite pedindo ajuda divina. Então o Arcanjo Miguel, o mesmo que lidera os exércitos celestiais, desceu e entregou-lhe um anel mágico. Não era um anel qualquer: trazia gravado o selo de Deus, e quem o possuía podia comandar todos os espíritos, bons e maus.
“Quando ouvi isso, eu, Salomão, entrei no Templo de Deus e orei intensamente, dia e noite, para que o demônio fosse entregue em minhas mãos e que eu pudesse dominá-lo. E ao Senhor soberano, nosso Deus, foi agradável. E o Arcanjo Miguel desceu e me entregou um anel.” (Testamento de Salomão, 1:5-6).
De posse do anel, Salomão instruiu o jovem a lançá-lo contra Ornias. O selo atingiu o peito do demônio, que caiu imediatamente subjugado, e o possessor foi levado diante do rei. Ornias foi interrogado e revelou sua origem zodiacal e que já havia sido derrotado pelo Arcanjo Uriel.
Salomão então ordenou que Ornias recebesse de volta o anel e fosse buscar o príncipe de todos os demônios: Belzebu. O próprio Belzebu foi forçado a comparecer diante de Salomão. Ao ser questionado sobre sua identidade, Belzebu revelou que era o mais alto dos anjos caídos do céu.
“E convoquei novamente para ficar diante de mim Belzebu, o príncipe dos demônios, e o coloquei em um assento elevado de honra, e lhe disse: ‘Por que estás sozinho?‘” (Testamento de Salomão, 6:1).
Com Belzebu sob seu comando, Salomão passou a ter todos os demônios à sua disposição para construir o Templo. Cada demônio era interrogado, revelava seu nome, sua área de atuação (a enfermidade ou tentação que causava) e o anjo que o derrotava. Salomão registrava tudo, e, assim, nasceu um catálogo de demônios que influenciaria profundamente a demonologia medieval.
No Talmude Babilônico, compilado entre os séculos III e V d.C., encontramos uma versão diferente da história. Aqui, Salomão precisa encontrar o shamir, um verme ou inseto sobrenatural capaz de cortar pedras sem ferro, porque a Torá proibia o uso de instrumentos de ferro no altar (Deuteronômio 27:5; Êxodo 20:25).
O shamir estava sob a guarda do rei dos demônios, Ashmedai. Salomão envia seu comandante Benaia com o anel mágico para capturar Ashmedai. Benaia engana o demônio, embebeda-o e o prende com correntes. Ashmedai é levado a Jerusalém e forçado a revelar o paradeiro do shamir.
Mas a história tem uma reviravolta: Ashmedai descobre que Salomão havia lhe tirado o anel para mostrá-lo a seus ministros. Em um golpe, Ashmedai engole Salomão, assume sua aparência e o arremessa a uma distância de 400 parasangas (equivalente a aproximadamente 2.100 quilômetros). Por quarenta dias, Ashmedai reina em seu lugar, até que Salomão recupera o anel e retorna ao trono.
No Islã, Salomão é venerado como profeta e rei. O Alcorão menciona seu poder sobre os ventos, os animais e os jinn (espíritos), mas a Bíblia e o Alcorão não mencionam um anel especificamente para combater demônios.
A tradição islâmica posterior, no entanto, desenvolveu sua própria versão. O demônio Sakhr rouba o anel de Salomão e governa em seu lugar por quarenta dias. Em uma variante que ecoa a história de Polícrates de Heródoto, Sakhr joga o anel no mar, onde é engolido por um peixe. Um pescador captura o peixe e, sem saber, o entrega ao desalojado Salomão, que encontra o anel e é restaurado ao poder.
O “Selo de Salomão” é tradicionalmente representado como um hexagrama (estrela de seis pontas) ou, em algumas versões, um pentagrama (estrela de cinco pontas). O hexagrama é o mesmo símbolo que hoje conhecemos como Estrela de Davi e que aparece na bandeira de Israel.
Segundo as lendas, o anel era feito de duas partes: uma de latão para comandar espíritos bons e uma de ferro para subjugar espíritos maus. Nele estava gravado o nome inefável de Deus (o Tetragrama YHWH), e era esse nome que lhe dava poder.
A lenda do anel de Salomão não morreu na antiguidade. Durante a Idade Média e o Renascimento, ela floresceu em grimórios como A Chave Menor de Salomão, cujo primeiro capítulo, o Ars Goetia, lista 72 demônios que Salomão teria aprisionado em um vaso de bronze com o selo. Outros textos como o Livro dos Mistérios, século III d.C. e as obras da Cabala judaica também incorporaram a tradição.
A Bíblia não menciona anel mágico, selo sobrenatural, domínio sobre demônios ou qualquer arte de exorcismo praticada por Salomão.
A história do anel dado por Deus a Salomão para combater demônios não é mentira no sentido de invenção moderna, e sim, é uma tradição lendária antiga, que remonta a pelo menos dois milênios e que aparece em quatro grandes tradições culturais: a judaica, a cristã primitiva, a islâmica e a ocultista ocidental.
E você, acredita na lenda de que o Rei Salomão era capaz de controlar demônios com o seu anel?









