João Batista Dallapiccola Sampaio
João Batista Dallapiccola Sampaio
Advogado de balcão há 39 anos, especialista em direitos sociais, graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pai orgulhoso e avô realizado
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Câmara de Vereadores: casa de leis ou de acolher cidadão?

Quando se fala em Câmara Municipal, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a de um plenário onde se discutem e votam projetos de lei. Essa é, sem dúvida, uma das funções centrais do Vereador. Mas reduzir a Câmara a uma simples “fábrica de leis” é ignorar o que ela representa, historicamente, na vida das cidades: um espaço de acolhimento, de escuta e de ligação direta entre o poder público e o cidadão comum.

O cargo de vereador não nasceu no Brasil. Suas raízes remontam à Idade Média em Portugal, quando cidades e vilas eram administradas por conselhos locais formados por moradores eleitos para cuidar dos assuntos da comunidade. Todavia, o conceito do cargo vem da Roma antiga com a figura do Edil com funções semelhante de escuta ativa com o cidadão. Com a expansão marítima dos séculos XV e XVI, os portugueses trouxeram esse modelo para suas colônias, e assim que uma povoação ultramarina alcançava certo número de habitantes, recebia autonomia para instituir sua própria câmara.

No Brasil, essa história começa em 1532, quando o povoado de São Vicente foi elevado à categoria de vila e passou a ter direito a uma câmara municipal, sendo a primeira do País. Durante todo o período colonial, essas câmaras concentravam poderes que hoje estão divididos entre Executivo, Legislativo e Judiciário: arrecadavam impostos, regulavam o comércio e os ofícios, cuidavam do patrimônio público e até geriam prisões. Foi somente com o avançar do século XIX e, mais tarde, com a criação da figura do Prefeito antigo Alcaide, que a Câmara passou a se dedicar exclusivamente à função legislativa que conhecemos hoje.

Ao longo de quase quinhentos anos, portanto, a essência do vereador permaneceu a mesma: ser a voz da comunidade dentro da estrutura de poder local.

Atualmente, cabe ao vereador elaborar e votar leis municipais, fiscalizar os atos do prefeito e da administração pública, julgar as contas do Executivo com o apoio do Tribunal de Contas, participar de comissões que analisam temas como saúde, educação e orçamento, e apresentar requerimentos, indicações e moções que expressem as necessidades da população. É também o vereador quem pode instaurar processos de investigação diante de denúncias graves, exercendo um papel essencial de controle sobre o uso do dinheiro público.

São atribuições técnicas e formais, mas que só fazem sentido quando estão a serviço de algo maior: a população.

É aqui que mora o verdadeiro valor do mandato de um vereador, muitas vezes esquecido: a Câmara Municipal deveria ser, antes de tudo, uma casa de portas abertas. Um lugar onde o morador que não conseguiu resolver um problema na secretaria de saúde, o pai de família preocupado com o buraco na rua do bairro, ou o comerciante que enfrenta dificuldades com a burocracia municipal, encontre alguém disposto a ouvir.

Essa escuta ativa não é um detalhe protocolar, é o alicerce de uma boa gestão pública. Um vereador que mantém proximidade com a população, que recebe reclamações com atenção e as transforma em ação política concreta, cumpre uma função tão importante quanto votar uma lei em plenário. Afinal, de que adianta um mandato tecnicamente correto se ele estiver distante da realidade das ruas, das filas de espera, das famílias que precisam ser ouvidas?

A boa relação entre vereador e comunidade fortalece a democracia em sua forma mais concreta: aquela que se vive no dia a dia, no bairro, na esquina, na conversa direta. É por meio dessa proximidade que o cidadão sente que seu voto tem consequência, que sua voz chega a algum lugar, que existe, sim, alguém disposto a representá-lo com seriedade e humanidade.

Ser vereador é, portanto, um exercício constante de equilíbrio entre a técnica legislativa e a sensibilidade humana. É preciso saber redigir um projeto de lei, mas também saber sentar ao lado de quem sofre com a falta de infraestrutura. É preciso fiscalizar o Executivo, mas também estar presente nas associações de moradores, nos conselhos comunitários, nas portas abertas das próprias casas dos eleitores.

Ressaltamos, que a eleição de vereador é das mais disputadas e complexas diante da representatividade em comunidades e bairrismos.

Valorizar essa figura e cobrar dela essa postura de escuta e acolhimento, é fortalecer a própria democracia municipal. A Câmara de Vereadores, mais do que uma casa de leis, precisa ser reconhecida, ocupada e vivida como aquilo que sempre deveria ter sido: a casa do povo.

***

Esta coluna foi escrita em parceria com o vereador por Vitória, João Flávio da Silva de Paiva, e o vereador licenciado em Cariacica, Edgar Pedro Teixeira – atualmente Secretário de Esportes de Cariacica

João Batista Dallapiccola Sampaio
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Advogado de balcão há 39 anos, especialista em direitos sociais, graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pai orgulhoso e avô realizado

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