João Batista Dallapiccola Sampaio
João Batista Dallapiccola Sampaio
Advogado de balcão há 39 anos, especialista em direitos sociais, graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pai orgulhoso e avô realizado
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M E R C A D O S PELO MUNDO

Onde a alma de um povo se revela

Desde os tempos mais remotos, os mercados públicos são muito mais do que simples espaços de comércio. Eles representam o coração pulsante das cidades, o ponto de encontro onde a cultura, a gastronomia e a vida cotidiana se entrelaçam.

Historicamente, os mercados foram os verdadeiros motores da vida urbana na Europa pré-industrial, funcionando como centros de sociabilidade e intercâmbio cultural. Esta tradição milenar se mantém viva em diferentes cantos do mundo, cada mercado contando uma história única sobre seu povo. Neste artigo, percorro alguns dos mais emblemáticos mercados que tive o privilégio de conhecer, desde a Europa até a América Latina, para afirmar com convicção: o Mercado Central de Belo Horizonte é, sem sombra de dúvida, o mais autêntico e vibrante de todos.

Começando pelos mercados internacionais, em Lisboa, o famoso Mercado da Ribeira (Time Out Market). Lá, encontrei uma curadoria impecável de sabores portugueses, com chefs renomados e uma atmosfera cosmopolita.

Madrid, por sua vez, surpreendeu com o Mercado de San Miguel, que se reinventou como um polo gastronômico de tapas e vinhos, mais voltado ao turismo do que à vida local.

Em Barcelona, meu mercado favorito é o Mercado de La Boqueria, em Las Ramblas, Gosto da enorme variedade e da beleza das frutas frescas, queijos, azeitonas, temperos e tapas, especiarias que faz desse mercado uma parada indispensável para quem visita à cidade.

Partindo direto para Paris, visitei o Mercado da Bastille e tive uma ótima experiência. Encontrei uma grande variedade, pães artesanais, embutidos, temperos e doces típicos franceses, além de algumas barracas com roupas e acessórios. Sem dúvida, recomendo a visita para quem deseja conhecer um lado mais autêntico de Paris.

Na cidade de Florença por sua vez, tem o magnífico Mercato Centrale que simplesmente amo como cidadão Italiano que sou. Também tenho um carinho especial pelos mercados da Sicília, repletos de peixes e frutos do mar fresquíssimos e especiarias. Em Roma, gosto muito dos mercados locais, que oferecem excelentes ingredientes, massas artesanais, vegetais frescos, vinhos e uma atmosfera autêntica que faz parte do dia a dia dos italianos.

Em Budapeste, o Grande Mercado (Nagy Vásárcsarnok) impressiona pela arquitetura, um verdadeiro tesouro da cultura húngara.

Na Holanda, em Amsterdam, um dos mercados que mais me impressionou foi o Albert Cuyp Market, o maior e mais famoso mercado de rua do país. Gosto da enorme variedade de queijos holandeses, flores, arenque fresco e os clássicos stroopwafels. É um lugar vibrante, cheio de vida, que representa muito bem a cultura e a tradição holandesa.

Em Bruxelas, gosto especialmente dos mercados de flores, que deixam a cidade ainda mais charmosa. A tradicional feira na Grand-Place encanta pelo cenário histórico, onde encontro uma excelente variedade de flores, plantas e produtos locais em um ambiente agradável e acolhedor.

Saindo da Europa em direção ao Oriente Médio, na Arábia Saudita, com os mercados de Riyahd, o Souk Al-Zal, conhecidos como é o coração histórico do comércio local, misturando cultura, artesanato e culinária, e, logo ao lado, o mercado de Deerah Souq conhecido pela impressionante variedade de joias de ouro. Já nos Emirados Árabes, os mercados de rua de Abu Dhabi, é possível encontrar uma grande variedade de produtos, como especiarias aromáticas, tecidos, perfumes árabes, joias, artesanato e lembranças típicas.

Nestes mercados do oriente médio, notei uma grande valorização da romã, das tâmaras e do mel, este último não só local, mas de todo o mundo, destacando-se o mel branco e o mel de manuka. Todo um ambiente e mística diferenciados.

Todos são espaços notáveis, cada um com seu charme, mas todos, de certa forma, “domesticados” para o visitante estrangeiro.

De volta à América do Sul, em Buenos Aires presenteou-me com o Mercado de San Telmo, onde o tango e o cheiro de couro se misturam num cenário de antiquários e pulperias.

No Brasil, a diversidade também se faz presente. O Mercadão de São Paulo é impressionante em sua grandiosidade e oferta, mas tornou-se, ao longo dos anos, uma espécie de “mercado boutique” para turistas, mais famoso pelos sanduíches de mortadela fotografados para as redes do que pela experiência genuína de compras dos Paulistas e Paulistano.

O Mercado Público de Porto Alegre é charmoso e acolhedor, mas de dimensões mais modestas.

Já o Mercado de Recife, com a energia contagiante do povo nordestino, forte no artesanato, preserva com orgulho a identidade da região, é um mercado vivo, onde se sente a alma pernambucana.

No Espírito Santo, a capital Vitória possui o Mercado da Vila Rubim. É um bom mercado, com tradição e história, especialmente na venda de pescados, artesanatos, e todas espécie de produtos. Porém, é inegável que ele vive um momento de declínio. A infraestrutura envelheceu, o fluxo de consumidores diminuiu e a administração pública parece não ter conseguido encontrar um rumo para revitalizar aquele espaço que já foi tão vibrante. Falta-lhe o fôlego e a reinvenção que outros mercados tiveram.

Mas, sem nenhuma hesitação, o lugar que ocupa o topo do meu coração é o Mercado Central de Belo Horizonte. Lá, o que se encontra é a alma do povo mineiro em sua forma mais pura. Não há filtros, não há cenários montados para turistas. Há, sim, o cheiro inconfundível do queijo artesanal, o doce de leite cremoso, o torresmo estalando e o famoso “tropeirão”, jiló com fígado e cerveja gelada que alimenta gerações. Os bares são frequentados pelos próprios belo-horizontinos, que vão para tomar uma cerveja gelada ou uma cachaça de rolha, bater papo animado e sentir o movimento.

E as lojas de cachaças? Aí meu coração treme, sou cliente do Ronaldo Licores & Cachaças, como também do Empório Central do Queijo, canastra ou padrão minas? E também do Empório Ambix Lamas que vende o melhor Whisky nacional, artesanato Brugnara & Duarte e muito mais.

O Mercado Central de BH não é somente um ponto turístico, é um ponto de encontro, um pedaço da cidade que pulsa com a simplicidade e a hospitalidade mineira. É lá que se ouve o sotaque, se aprende as receitas e se sente o calor humano que faz de Minas Gerais um estado tão especial. A diversidade de produtos, a honestidade dos comerciantes e a atmosfera genuinamente popular fazem do Mercado Central uma experiência que nenhuma curadoria gastronômica de mercado europeu consegue reproduzir.

Viajar pelo mundo é descobrir que, apesar de todas as diferenças culturais, os mercados são a língua universal da vida cotidiana. Eles são testemunhas da história, guardiões de tradições e palcos de relações humanas genuínas.

No Brasil, Recife preserva sua identidade nordestina, São Paulo ostenta sua grandiosidade e Porto Alegre mantém seu encanto. Mas, para mim, a verdadeira essência do que um mercado deve ser está no Mercado Central de Belo Horizonte. Ele não precisa se reinventar para turistas porque nunca deixou de ser o que sempre foi: a casa do povo mineiro.

Enquanto outros mercados se tornam vitrines, BH continua sendo um coração aberto, batendo forte com o ritmo de um povo que sabe receber bem. E essa, meus caros, é a maior riqueza que um mercado pode ter.

*Texto escrito em conjuntocom Lucio Aparecido Sousa e Silva

João Batista Dallapiccola Sampaio
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Advogado de balcão há 39 anos, especialista em direitos sociais, graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pai orgulhoso e avô realizado

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