Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Vergonha alheia

Fui ao médico. Estava com vergonha. Não minha.

Os sintomas tinham começado discretos. Um calor no rosto durante o jornal da noite. Uma vontade de sumir no meio da entrevista de alguma autoridade. A mão que ia sozinha à testa, e lá ficava, cada vez que alguém em Brasília começava uma frase com “com todo o respeito”. Depois piorou. Passei a corar lendo o grupo da família. Corava até dormindo.

O médico me examinou com a calma de quem já viu de tudo. Mediu a pressão, olhou a garganta, pediu que eu dissesse “trinta e três”. Eu disse, e fiquei vermelho sem saber por quê. Ele anotou.

— Vergonha alheia — diagnosticou. — Crônica. Contraída por exposição prolongada ao noticiário.

— É grave?

— É a única doença que eu conheço em que quem transmite não adoece.

— E quem me passou isso?

— Está ótimo. Nunca esteve melhor. Deu entrevista ontem.

Pediu exames. Voltei na semana seguinte com o raio-X, e ele pôs a chapa contra a luz com cara de preocupação.

— Pulmão de fumante.

— Mas eu nunca fumei, doutor.

— Fumante passivo. O senhor passou a vida perto de quem fuma. — Apontou outra mancha. — E isto aqui é corrupção passiva.

— Mas eu nunca recebi nada!

— Por isso mesmo. No Código Penal, passivo é quem recebe. Na medicina, é quem paga. O senhor é o passivo.

Explicou que era comum. Que quase todo brasileiro tinha as duas manchas. Que muitos desenvolviam também um quadro de terceiro de boa-fé, que é quando a pessoa não tem nada a ver com a história e perde mesmo assim. Perguntei se tinha remédio. Tinha, mas o plano não cobria, e o posto também não, porque era com dinheiro público.

— E quem paga o dinheiro público?

— O público.

— E quem é o público?

Ele me olhou por cima dos óculos. Não precisou responder.

Na saída, a conta. A secretária — moça simpática, ria de tudo — me estendeu o papel sem levantar os olhos.

— Não está coberto. Culpa do sistema.

— Quero reclamar com o sistema. Onde ele fica?

— Ninguém sabe. Não tem CPF, não tem endereço, nunca foi intimado.

— Então quem paga isso?

— O pato.

Olhei em volta, procurando o pato. A sala de espera estava vazia. Paguei.

Voltei ao consultório uma última vez, com a lista de dúvidas que todo paciente leva e nenhum médico responde.

— E bala perdida, doutor, o senhor trata?

— Essa não. Essa não é comigo.

— Por quê?

— Porque não existe. Nunca vi uma perdida. Todas acham alguém.

Ninguém riu. Nem a secretária, que ria de tudo.

Fiquei um tempo calado. Depois fiz a pergunta que tinha vindo fazer desde o começo, e que tinha vergonha — minha, dessa vez — de fazer.

— E o contrário, doutor? Vergonha própria? Não tem para vender? Eu levava umas caixas. Conheço gente precisando.

Ele fechou a ficha, tirou os óculos e deu a notícia como quem dá um diagnóstico sem volta:

— Vergonha própria saiu de linha. Agora só tem alheia.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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