Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Se fosse da vaca

Todo condomínio tem um. Chega à festa de aniversário, olha a sala e informa que a cozinha deveria ficar onde está a varanda, que a varanda ficaria melhor no lugar da cozinha, que a cor da parede é um equívoco e que ele, se fosse o dono, já teria derrubado aquele pilar — o pilar, esclareça-se, que sustenta o prédio. Não traz nem o vinho. Traz a planta baixa mental de uma casa que nunca construiu, e vai embora sem deixar a planta, apenas a certeza de que tudo ali estava errado e de que, na cabeça dele, impunha-se implodido.

Esse convidado tem muitos primos. O torcedor que escala o time do sofá e nunca calçou uma chuteira; o cunhado que sabe o ponto exato da carne mas jamais acendeu a churrasqueira; o passageiro que dirige do banco de trás; o vizinho que sabe exatamente como se administra uma padaria, uma prefeitura e um país, na ordem que a conversa pedir. São os reformadores do mundo — especialistas na crítica pela crítica, gente para quem a obra alheia existe unicamente para ser apontada com o dedo.

E o dedo, note-se, é o único instrumento que carregam.

Que ninguém entenda aqui uma defesa da infalibilidade das coisas feitas. Vivemos, todos, uma sucessão de erros de ótica, de ética, de perspectiva, de visão de mundo — o que fizeram antes de nós tem remendos por todo lado, e o que fazemos agora será remendado por quem vier depois, o que é, convenhamos, a única forma conhecida de a humanidade seguir em frente. Criticar é ofício nobre e necessário. O problema não está no defeito apontado. Está na hora seguinte, quando se pergunta ao apontador o que ele põe no lugar.

Porque aí aparece a colcha de retalhos. O reformador do mundo tem sempre uma solução, e a solução é sempre a mesma peça: costurada com linha alheia, agulha alheia e recortes de ideias alheias, ouvidas pela metade num vídeo, num almoço, numa conversa de barbeiro, e emendadas sem que ninguém tenha experimentado o resultado antes. A proposta é invariavelmente mais cara do que aquilo que pretende substituir, mais difícil de executar, e despreza com desdém tudo o que a experiência já ensinou a quem fez a coisa criticada — o que, para o reformador, não conta como argumento, conta como cumplicidade com o erro.

Em tempo eleitoral a figura vira praga. Basta abrir qualquer rede social para ver o dedo apontado em todas as direções ao mesmo tempo: a rua está errada, a ponte está errada, a escola está errada, o adversário está errado por existir. Pergunte-se, porém, pela rua, pela ponte, pela escola que o apontador construiria, e a resposta vem no formato de sempre: um slogan, um vídeo de trinta segundos e a promessa de que, depois de derrubar tudo, o resto se resolve. O verbo predileto é desconstruir. O verbo construir não consta do vocabulário.

Compreende-se, claro, a atração do ofício. Derrubar é rápido, barato e rende aplauso na hora; construir é lento, custa dinheiro e o aplauso, quando vem, vem tarde e vai para outro. Diminuir o adversário dá o prazer imediato de parecer maior do que ele sem precisar crescer um centímetro. Mas há um detalhe que essa contabilidade omite: quem só demole nunca é cobrado pelo que não construiu, e é exatamente por isso que se sente tão à vontade para cobrar dos outros.

Há uma fábula antiga para essa gente. La Fontaine contou-a com uma bolota e uma abóbora; Monteiro Lobato, que a trouxe para cá, deu-lhe o nome de “O reformador da natureza” e inventou para ela Américo Pisca-Pisca, homem que tinha o hábito de pôr defeito em todas as coisas e para quem a natureza só fazia asneiras — uma abóbora enorme presa a um caule fininho rente ao chão, e uma jabuticabeira imensa a sustentar frutinhas miúdas, quando o lógico, para ele, seria o contrário. Pisca-Pisca deita-se à sombra da jabuticabeira, cai-lhe uma jabuticaba no nariz e ele acorda convertido: se aquilo fosse uma abóbora…

Permita-se aqui uma atualização da fábula, que a natureza capixaba tem material de sobra.

O nosso reformador senta-se sob a árvore da praça e diagnostica o erro. Passarinho é bicho pequeno, leve, não precisa de asa nenhuma; ande a pé, que perde pouco! Asa, mesmo, deveria ter a vaca, animal grande, pesado, que gasta o dia inteiro para atravessar o pasto — a natureza, se tivesse consultado alguém competente – pondera consigo mesmo – teria posto a vaca no galho e o pardal no chão. Diz isso e fecha os olhos, satisfeito com sua imodesta lucidez. E é nesse instante que o passarinho lá em cima, sem nenhuma intenção reformadora, faz aquilo que os passarinhos fazem nos galhos.

Cai-lhe na testa um pingo. Coisa mínima. Um grama de opinião.

E o reformador, limpando a testa com o dorso da mão, chega enfim à única conclusão útil que a vida lhe deu de graça: Vixe! Se aquilo fosse da vaca…

Desde então, dizem, olha para cima antes de propor qualquer coisa. Já é o bastante. Comemoremos!

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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