Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
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Me engana que eu gosto

ou: o irônico visgo das fake news e outras armadilhas que montamos para nós mesmos

Antes de qualquer coisa, convém lembrar que o ser humano, essa criatura que se autodenominou racional com uma convicção que a própria razão deveria ter impedido, é antes de tudo um bicho, e como tal é governado por instintos que precedem em alguns milhões de anos qualquer constituição, qualquer código eleitoral e qualquer algoritmo de rede social, e que têm a virtude de não se deixarem impressionar por nenhum desses documentos.

Dificilmente alguém sem fome vai comer algo envenenado, porque o instinto de sobrevivência descarta o perigo quando não há necessidade que o justifique. Dificilmente alguém sem libido vai cometer uma violência sexual, porque o impulso que conduz ao crime precisa existir antes que o crime se torne possível. Dificilmente alguém com a vida financeira equilibrada vai se jogar de cabeça numa arapuca para levar vantagem sobre outra pessoa, arriscando as consequências negativas daquilo que simplesmente não lhe atrai, não lhe interessa e não lhe faz falta nenhuma. A isca só funciona quando o peixe está com fome, e o pescador sabe disso muito melhor do que o peixe.

As fake news — que é como chamamos hoje, com a elegância de quem precisa de anglicismo para dar respeitabilidade ao que sempre foi apenas mentira — existem desde que o mundo é mundo, e desde que o mundo é mundo encontram compradores dispostos, entusiastas até, porque a mentira bem calibrada não é aquela que contradiz a realidade do ouvinte, mas a que confirma o que ele já queria acreditar, a que chega com o formato exato do buraco que havia no coração de quem a recebe, e encaixa com um estalo que parece revelação mas é apenas o som da arapuca fechando.

O que muda com o tempo é só o figurino. Os formatos se modernizam, as plataformas se multiplicam, a velocidade aumenta, e nós nos aperfeiçoamos — alguns como predadores, que é a função mais nobre da cadeia, e a maioria como vítimas, que é a mais comum e, portanto, a mais democrática.

No ambiente eleitoral, o fenômeno ganha contornos que seriam cômicos se as consequências não fossem tão sérias e tão duráveis. Surgem, a cada dois anos com a pontualidade de um cobrador de dízimo, figuras que se apresentam com máscaras e roupagens que jamais foram as suas — o corrupto histórico que se oferece como guardião da probidade, o violento que se candidata em nome da paz, o que nunca trabalhou um dia sequer em qualquer setor produtivo e aparece como defensor dos trabalhadores, o que sempre viveu do Estado e se apresenta como inimigo do Estado, o que tem ficha corrida na Justiça e vem falar em família e em valores, e o que saqueou o erário por décadas e hoje, com a memória seletiva que a velhice distribui com generosidade aos que mais precisam, posa de vítima de perseguição política.

E não é difícil descobrir. É até fácil. Hoje existem sistemas, registros públicos, históricos de votação, declarações de bens, certidões, processos, fotografias comprometedoras e vídeos ainda mais comprometedores — tudo disseminado, acessível, gratuito, disponível na palma da mão de qualquer eleitor com dois dedos de tela e um segundo de vontade. A verdade, ao contrário do que se pensa, não está escondida. Ela está ali, exposta, esperando, com a paciência de quem sabe que não será procurada.

Porque muitos de nós simplesmente não queremos encontrá-la.

O que queremos é outra coisa: a sacramentalização de uma crença que já formamos antes de qualquer informação, a confirmação de um modelo que nos atende por razões que nem sempre conseguimos explicar, mas que sentimos com a intensidade de uma fé religiosa — e a fé, como se sabe, não pede provas, pede testemunhos, e os testemunhos ela mesma providencia. Fazemos vistas grossas. Nos deixamos enganar com a cumplicidade de quem assina o próprio laudo. Às vezes — e aqui chegamos ao ponto mais delicado da questão — chegamos a pedir para ser enganados, porque nos apresentamos tão ligados a determinados valores, conceitos e seus ícones, que recuar parece uma derrota maior do que o próprio engano.

Descobrir que fomos ludibriados dói. Admitir publicamente que fizemos papel de ingênuo dói mais ainda. E mudar de posição, rever o voto mental que já depositamos internamente, reconhecer que o candidato do nosso coração tem passado, tem processo, tem sócio inconfessável e tem a consciência tão limpa quanto a ficha que a Justiça Eleitoral insiste em não reconhecer como limpa — isso, para muitos, é pior do que morrer abraçado com o problema.

E assim seguimos. Caminhando para o abismo com a convicção de quem está indo para o paraíso, indignados com quem aponta a direção errada, certos de que o mapa é verdadeiro porque foi o nosso candidato que desenhou.

Pronto: está aberta a temporada de caça ao pato. Por que “pato”? O pato é um animal que anda, nada e voa, mas não faz nenhuma dessas atividades bem, talvez porque não se preocupe em especializar-se em nenhuma delas, convencido de que três meias-bocas valem mais do que uma inteireza. Há cisnes? Sim, cuja fraqueza é a sua própria vaidade. E marrecos? Também, mas esses, barulhentos, terminam se livrando de muitos problemas pela algazarra que produzem. O pato, esse não: fica à mercê dos costumeiros predadores porque o conforto do lago, as companhias costumeiras e a pouca vocação pelo desconhecido o mantêm aceitando placidamente suas limitações — porque as alternativas são mais desafiadoras, exigem mais energia do que apenas “quaquejar” a cada dois anos ou administrar ambientes novos e mais perigosos, como o são aqueles próprios dos bichos que não se soldam aos limites do conforto.

A temporada está aberta. Os candidatos já estão em campo. As máscaras estão preparadas.

E o eleitor já começou a pedir para não ver o rosto que está por baixo.ou: o irônico visgo das fake news e outras armadilhas que montamos para nós mesmos.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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