Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Impossível é Deus pecar

— e tudo o mais está ao alcance de quem ousar

Quando eu era criança, ouvia minha avó dizer “impossível é Deus pecar” sempre que queria expressar que qualquer coisa além disso — qualquer coisa — era possível de existir, de ser criada, de ser entendida, de ser descoberta, de ser concebida. Cresci achando graça naquilo, sem entender a profundidade que a frase encerrava. Tinha-a apenas como uma espécie de gabarito existencial: se o impossível era Deus pecar, e se Deus era o maior de todos os seres, então tudo o mais cabia no mundo. Tudo o mais era matéria da experiência humana.

Não me lembro de ter parado, naqueles anos, para avaliar a grandeza retórica e filosófica daquelas quatro palavras. Eram palavras de avó. E palavras de avó, quando somos crianças, têm o mesmo estatuto das coisas que simplesmente existem — o céu, o cheiro de chuva, o pão na mesa. Não se questiona. Recebe-se.

Depois veio a adolescência, com a arrogância que lhe é própria e que, bem pensando, talvez seja necessária — porque é dela que nasce o ímpeto de questionar. E questionar eu fiz. Se era mesmo impossível Deus pecar, quem tinha cunhado essa certeza? Aquela frase, pensei, tinha cheiro de armadilha. Cheiro de submissão disfarçada de sabedoria. Era como se dissessem: o impossível está reservado a Deus, e você, ser humano, ocupe o seu lugar. A frase que eu entendia como expansão passou a me parecer, por um tempo, como uma fronteira — gentil na forma, mas fronteira.

Essa suspeita foi a mesma que me levou a questionar outras coisas: a existência de Deus, o uso comercial que se faz da fé, a forma como a religião pode servir tanto à libertação quanto ao controle. Não foi uma crise — foi um crescimento. A dúvida, quando honesta, é sempre crescimento.

Mas o tempo, que não pede licença, foi depositando camadas. E com as camadas vieram as experiências, as perdas, as surpresas, os amores, as dores, as pessoas que ficaram e as que foram, e tudo aquilo que só se aprende vivendo — e que não tem nome em nenhum livro porque cada um vive do seu jeito, à sua maneira, com os materiais que tem e os que vai buscar.

E foi assim, sem que eu percebesse exatamente quando, que voltei a ouvir a voz da minha avó. Não com os ouvidos de criança, que recebe. Não com os ouvidos de adolescente, que suspeita. Mas com os ouvidos de quem já errou o suficiente para saber que o erro não é o fim, e que já acertou o suficiente para saber que o acerto também não é.

“Impossível é Deus pecar.”

Hoje leio nessa frase não uma submissão, mas uma declaração. Uma declaração de que o ser humano é, por natureza — e até, quem sabe, por concepção divina, se quisermos considerar essa hipótese —, um ser sem teto. Sem limite de altura. Sem fronteira demarcada entre o que é e o que pode ser. Do maior dos nascidos ao mais humilde dos viventes, cada um carrega dentro de si uma capacidade que não vem impressa no rosto nem no sobrenome nem no endereço: a capacidade de se reinventar.

Não é frase de autoajuda. É constatação histórica. O ser humano chegou à lua sem nunca ter saído do chão. Curou doenças que matavam em massa. Atravessou oceanos sem saber o que havia do outro lado. Escreveu músicas que fazem chorar pessoas que nunca se viram. Construiu pontes sobre abismos — físicos e afetivos. E fez tudo isso tropeçando, errando, voltando, tentando de novo, com mãos imprecisas e vontade teimosa.

Reinventar-se não é apagar o que se foi. É somar. É pegar o que a vida fez com você e fazer algo com o que a vida fez. É entender que a cicatriz não é a derrota — é a prova de que houve batalha, e de que você ainda está aqui para contá-la.

Minha avó não sabia — ou talvez soubesse, à sua maneira — que estava enunciando uma das verdades mais radicais que existem: que a limitação humana é, em grande medida, uma escolha. Ou uma crença. Ou um medo com roupagem de certeza.

Impossível é Deus pecar. Tudo o mais, inclusive você, inclusive eu, inclusive aquilo que ainda não foi tentado nem imaginado — tudo isso é território aberto.

O que você vai fazer com ele é a única pergunta que realmente importa.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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