Existe, neste país abençoado por Deus e pelo algoritmo, um fenômeno tão brasileiro quanto o suco de caju requentado servido em copo de plástico: o surgimento espontâneo, como fungo após chuva tropical, do famoso do trimestre.
Não confunda com famoso. O famoso tem sobrenome, tem trajetória, tem, no limite, algum talento discutível. O famoso do trimestre tem alcance, que é coisa bem diferente e, convenhamos, muito mais democrática. Afinal, talento é coisa de elite. Alcance, qualquer um consegue — basta aparecer no lugar certo, na hora errada, de preferência em alguma situação que misture lágrimas, escândalo e um jogador de futebol de segundo escalão que todo mundo jurava que era craque.
O processo de fabricação do famoso do trimestre é, devo reconhecer, uma obra de engenharia social de rara eficiência. Começa sempre com um acontecimento catalisador. Pode ser um namoro de quarenta e cinco dias com alguém que esteve na televisão pelo menos uma vez. Pode ser uma tragédia com câmera por perto. Pode ser uma frase dita sem qualquer intenção, gravada em ângulo desfavorável, que algum produtor de conteúdo entediado decidiu transformar em meme às três da manhã de uma quarta-feira. O gatilho varia. O resultado é invariável.
No dia seguinte ao acontecimento catalisador, cria-se o perfil nas redes sociais.
A “bio” é sempre uma obra de literatura concisa e ambiciosa: “Mãe. Guerreira. Apaixonada pela vida. Em construção.” Em construção, note-se, é a parte mais honesta. Porque o que se constrói ali, com a velocidade de um canteiro de obras movido a algoritmo e engajamento de pessoas com muito tempo livre, é uma persona. Uma marca. Um produto sem fórmula definida, mas com embalagem brilhante.
Os primeiros posts são sempre de uma humildade calculada que comove até os mais cínicos: “Nunca imaginei que minha história fosse tocar tanta gente.” E a gente — a gente mesmo, você, eu, seu primo que passa o dia no celular — vai lá e “curte”. Comenta. Compartilha. Porque a história não é extraordinária, a história é nossa. A pessoa é tão comum, tão próxima da mediocridade cotidiana de cada um de nós, que amar ela é, de alguma forma distorcida, amar a nós mesmos. É a democratização da fama servida em bandeja de plástico brilhante imitando prata.
Em dois meses, são duzentos mil seguidores.
Em quatro, já tem coach.
Porque todo famoso do trimestre, sem exceção conhecida, descobre em algum momento que tem uma missão maior do que simplesmente existir e aparecer. A missão é transformar vidas. O veículo dessa transformação costuma ser um curso digital de autodesenvolvimento, vendido em doze parcelas, cujo conteúdo principal consiste em frases que qualquer pessoa encontraria num calendário de farmácia de bairro, mas reunidas num PDF com muito gradiente e fonte serifada, o que confere ares de profundidade filosófica ao que, na essência, é o seguinte insight: acredite em você.
As palestras seguem. As entrevistas chegam. Os produtos aparecem — e aqui o cardápio é farto: suplemento de emagrecimento com nome em inglês, creme antienvelhecimento de procedência nebulosa, curso de inglês online com certificado de validade jurídica questionável, aplicativo de meditação que você vai baixar e nunca abrir. Tudo divulgado com um sorriso treinado em “ring light” e a frase “Indico demais, amei!”, que no idioma da influência digital significa: “Estou sendo pago para dizer isso, mas no contrato não exigem que eu seja convincente.”
O guarda-roupa, nesse período áureo, merece menção especial.
Há uma estética muito particular que o famoso do trimestre adota assim que o primeiro cheque de “publi” deposita. É uma estética que eu descreveria, com a delicadeza que o tema merece, como luxo de aeroporto de cidade do interior em feriado prolongado. Bolsas de grife que custam o salário de três meses de um professor de escola pública, usadas com um agasalho que contradiz qualquer princípio estético que a própria grife já defendeu. Óculos escuros em ambiente fechado. Unhas compridas decoradas com cristais suficientes para iluminar uma discoteca de médio porte. E os penduricalhos — Deus do céu, os penduricalhos. Colares, pulseiras, anéis em quantidade que sugere ou devoção a múltiplas divindades simultaneamente ou um acordo com algum ourives que não faz perguntas.
O namorado, invariavelmente, joga futebol.
Não necessariamente bem. O critério não é técnico. O critério é que ele também esteja nesse limbo dourado da fama relativa — famoso o suficiente para agregar seguidores ao casal, desconhecido o suficiente para que o relacionamento não eclipse a própria persona em construção. É uma matemática delicada, executada por pessoas que nunca estudaram matemática, mas têm instinto para mercado.
O relacionamento dura, em média, o tempo necessário para um “feat” em alguma música que vai tocar em rádio regional por três semanas.
E então vem o escândalo.
Sempre vem o escândalo.
A forma varia — estelionato, golpe do investimento, produto que não existe, dívida com fornecedor, declaração desastrosa, live em que a pessoa diz em voz alta o que a maioria das pessoas só pensa em privado e imediatamente se arrepende. A forma varia, repito, mas a estrutura dramática é a mesma, e é de uma previsibilidade que beira o classicismo grego: ascensão, “hybris”, queda.
E aí, meus caros, acontece o mais fascinante de todo o fenômeno.
A mesma multidão que curtiu, que comentou “Inspiração!“, que comprou o curso em doze parcelas, que defendeu apaixonadamente nas discussões de grupo de família, que chamou de “referência” e “exemplo de superação” — essa multidão pega pedras.
Pedras grandes. Pedras com boa mira. Pedras atiradas com a indignação moral de quem nunca participou de nada, nunca incentivou ninguém, nunca clicou em nenhum “link” de “publi” duvidosa.
“Sempre soube que era falsa.” “Gente, que vergonha, como tem gente que cai nessa.” “O povo precisa aprender a discernir.”
O povo. Sempre o povo — esse terceiro misterioso que fez tudo que nenhum de nós fez.
É o momento mais honesto de todo o ciclo, paradoxalmente. Porque revela o verdadeiro motor que moveu a máquina desde o início: não admiração, não identificação, não inspiração. O que moveu tudo foi o tédio. O tédio imenso, abissal, de pessoas sem assunto que precisam de assunto. E o famoso do trimestre serve a isso com competência: primeiro como objeto de admiração, depois como objeto de escândalo. A função social é a mesma nas duas fases. É combustível para conversa. É pauta para o grupo. É algo para dizer que não seja sobre a própria vida, que é pequena e sem algoritmo para amplificá-la.
O famoso do trimestre, depois de algum tempo, some. Às vezes literalmente — em delegacias, em processos, em lugares onde o “wifi” é ruim e o “ring light” não ilumina nada. Às vezes simplesmente perde relevância, que é, no idioma das redes sociais, a forma mais lenta e cruel de morte.
O perfil fica. Os “posts” ficam. Os produtos que foram indicados com amor ficam, na memória de quem comprou e na subconsciência de quem não comprou, mas pensou em comprar.
E o povo — esse povo que nunca fez nada — já está olhando para o próximo catalisador. O próximo namoro de quarenta e cinco dias. A próxima frase gravada em ângulo desfavorável. O próximo fungo após a chuva.
Porque o verdadeiro produto dessa indústria nunca foi o suplemento, nem o curso, nem a bolsa de grife anacrônica.
O produto somos nós.
E, convenhamos, somos um mercado inesgotável.









