Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.
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Do AI-5 ao 8 de janeiro: a arte nunca se calou diante do autoritarismo

Às vésperas das urnas, a história lembra: quando a democracia é ameaçada, artistas são os primeiros a perceber e os últimos a se render

Há uma regra que atravessa séculos: regimes autoritários temem a arte. Não por acaso, uma das primeiras providências de quem pretende governar sem limites é decidir o que pode ser pintado, cantado, encenado e exibido. Em 1937, o nazismo montou em Munique a exposição “Arte Degenerada” para ridicularizar a vanguarda moderna. No mesmo ano, Picasso respondia ao bombardeio de Guernica com uma tela que se tornou o grito mais duradouro contra a barbárie. O poder tentou silenciar; a arte respondeu.

O Brasil conhece bem esse enredo. Depois do AI-5, em dezembro de 1968, a censura passou a vigiar exposições, peças, filmes e canções. A resposta dos artistas foi inventiva e corajosa. Hélio Oiticica ergueu a bandeira “Seja marginal, seja herói”. Artur Barrio espalhou suas Trouxas Ensanguentadas pelo Parque Municipal e pelo Ribeirão Arrudas, em Belo Horizonte, obrigando a cidade a encarar aquilo que o regime escondia. Antonio Manuel fez do próprio corpo nu a obra, no Salão Nacional de 1970. Cildo Meireles carimbou perguntas em cédulas de dinheiro e gravou mensagens em garrafas de Coca-Cola, fazendo circular pela economia aquilo que a imprensa não podia publicar. Quando a ditadura fechou uma mostra de jovens artistas no MAM do Rio, em 1969, artistas e críticos de vários países boicotaram a Bienal de São Paulo. O isolamento internacional foi o preço que o regime pagou por calar a criação.

Do AI-5 ao 8 de janeiro: a arte nunca se calou diante do autoritarismo
Carmela Gross, Barril, 1969

Essa memória não é peça de museu. Ela volta a fazer sentido quando o país se aproxima de mais uma eleição sob o peso de ameaças recentes à ordem democrática. Não é preciso recorrer a hipóteses: em 8 de janeiro de 2023, a sede dos Três Poderes foi invadida e o patrimônio artístico nacional foi atacado. A tela “As Mulatas”, de Di Cavalcanti, foi rasgada a golpes de faca. Esculturas, tapeçarias e peças históricas foram danificadas. Não foi acaso. Quem pretende destruir a democracia sabe que precisa também destruir os símbolos que a sustentam, e a arte é um deles.

Do AI-5 ao 8 de janeiro: a arte nunca se calou diante do autoritarismo
Carlos Zílio, Identidade Ignorada, 1974

Antes disso, já havíamos visto sinais. Em 2017, a exposição Queermuseu foi fechada em Porto Alegre após uma campanha de pressão. Performances foram transformadas em caso de polícia, artistas passaram a ser tratados como inimigos públicos, e o financiamento à cultura virou alvo de suspeita permanente. O roteiro é conhecido: primeiro se desqualifica o artista, depois se constrange a instituição, por fim se normaliza a censura. Quando a sociedade percebe, a liberdade de criação já encolheu.

Por isso o momento exige atenção. Discursos que relativizam golpes, que sonham com a volta de um regime de exceção ou que tratam as instituições como obstáculos a serem removidos não são meras opiniões no mercado de ideias. São ameaças concretas a um pacto que custou caro ao país. E a cultura, historicamente, é uma das primeiras vítimas quando esse pacto se rompe.

Do AI-5 ao 8 de janeiro: a arte nunca se calou diante do autoritarismo
Anna Maria Maiolino, O Herói, 1966

Mas a história também ensina outra coisa: a arte sempre encontrou brechas. Ela fala por metáforas quando a palavra direta é proibida, circula por caminhos inesperados quando os espaços oficiais se fecham, e sobrevive aos regimes que tentaram apagá-la. Os nomes dos censores foram esquecidos; as obras que eles perseguiram estão nos livros, nos museus e na memória coletiva.

Defender a democracia, neste momento, não é uma bandeira partidária. É defender a possibilidade de discordar, de criar, de expor, de provocar. É garantir que um artista possa fazer uma obra incômoda sem medo de ser preso, e que um museu possa abrir suas portas sem pedir licença a quem decide o que é aceitável. A liberdade de expressão artística não sobrevive sem instituições livres, imprensa livre e eleições respeitadas.

Os artistas brasileiros já mostraram que sabem resistir. Seria melhor, desta vez, que não precisassem. Cabe a cada um de nós, no voto e no cotidiano, impedir que a história se repita. Porque a arte nunca se calou diante do autoritarismo, e não será agora que vai começar.

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.

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