Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.
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Emmanuel 7Linhas: a violência não terá a última palavra

Quando Mayrianne Mattos escreve sobre o pai, Emmanuel 7Linhas, não apresenta somente a trajetória de um artista. Ela reconstrói a presença de um homem cuja vida esteve profundamente ligada à poesia, à música, à religiosidade, à militância e ao compromisso com pessoas negras, pobres e periféricas. Seu relato revela um legado formado tanto pela produção cultural quanto pelas relações de afeto construídas ao longo dos anos.

Emmanuel demonstrou desde a infância uma relação singular com as palavras. Aprendeu a ler sozinho aos três anos, por meio de um jornal impresso. Primeiro filho de Luiza, encontrou na mãe sua grande companheira e uma referência decisiva para sua formação. Mulher negra, formada em Geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), ela enfrentou a fome e o trabalho doméstico antes de chegar ao ensino superior.

Leitora dedicada e colecionadora de discos de vinil, Luiza criou o filho em contato com livros, música, cinema, educação e interpretações críticas sobre o mundo. Mesmo diante das dificuldades enfrentadas por uma família negra e pobre, sempre apoiou o desejo de Emmanuel de viver da arte.

Emmanuel 7Linhas: a violência não terá a última palavraA relação entre os dois permaneceu intensa ao longo da vida. Ainda jovem, Emmanuel cuidou da mãe durante períodos difíceis de saúde. Quando retornou de São Paulo, voltou a passar grande parte dos dias ao lado dela. Mayrianne conta que, mesmo depois da morte do filho, Luiza ainda olha para a ladeira da rua onde moram, como se esperasse vê-lo subir novamente em direção à Avenida Carlos Lindemberg.

Emmanuel tornou-se pai aos 18 anos. Para Mayrianne e sua irmã, foi uma presença fundamental na construção da identidade, da autoestima e da consciência racial. Desde a infância, elas foram apresentadas à poesia, à música popular brasileira e às discussões sobre o significado de ser uma pessoa negra no Brasil.

O diálogo ocupava um lugar central nessa relação. Emmanuel conversava com as filhas sobre amizade, relacionamentos, espiritualidade, existência e problemas sociais. Assuntos considerados difíceis também eram abordados com sinceridade. Ao falar sobre gravidez na adolescência, por exemplo, compartilhava a experiência vivida por ele e pela mãe de Mayrianne, que também se tornaram pais muito jovens, e recorria ao filme Juno para ampliar a conversa.

A poesia surgia como ponte entre pensamento e sentimento. Mayrianne escreveu seu primeiro poema aos cinco anos e recebeu do pai, ainda criança, um livro de Cecília Meireles. Cresceu ouvindo “Carinhoso”, de Pixinguinha, lendo Cora Coralina e acompanhando as apresentações do Intifada. Em 2023, durante uma homenagem pelo aniversário de Emmanuel, ela encontrou uma definição capaz de traduzir essa convivência: “Meu pai é poesia contínua”.

Sua formação artística nunca esteve separada da atuação social. Após sua morte, a família encontrou uma agenda com anotações feitas em 2003 durante sua passagem pelo Educal, cursinho popular voltado para estudantes em situação de vulnerabilidade. Mayrianne também conserva lembranças do trabalho do pai como educador social e do envolvimento que mantinha com os alunos.

Emmanuel desejava uma realidade diferente para as populações atingidas pela desigualdade, pelo racismo e pela violência. Em Vila Velha e em São Paulo, aproximou-se de pessoas com diferentes experiências de vida. Não enxergava aqueles que viviam nas ruas como indivíduos distantes de sua realidade. Reconhecia neles uma proximidade social frequentemente ignorada por quem observa a pobreza do interior de carros e ambientes refrigerados.

Após seu assassinato, surgiram insinuações de que Emmanuel seria uma pessoa “envolvida”. Mayrianne responde a essa tentativa de desqualificação com uma frase contundente: o pai era envolvido com algo muito perigoso chamado arte.

A arte era sua maneira de compreender a vida; a religiosidade oferecia sentido à existência; e a militância orientava sua forma de estar no mundo. O nome Emmanuel 7Linhas faz referência às sete linhas da Umbanda e revela a importância da espiritualidade em sua produção.

Sua arte não buscava neutralidade. Carregava a ancestralidade, as feridas provocadas pelo racismo, a coragem da denúncia e a esperança na construção de um futuro ancestral. Havia em sua poesia o escárnio, a revolta e o direito de sangrar, mas também a cura, os encontros e os afetos.

Emmanuel produziu intensamente. Seus escritos permanecem espalhados pela casa, entre os discos de vinil, os livros e os objetos de seu altar. Nas redes sociais, deixou vídeos, músicas e poemas. Posicionava-se publicamente e mostrava o que pensava e sentia, ainda que essa postura pudesse lhe fechar algumas portas.

Uma morte repentina e violenta não interrompe apenas uma vida. Deixa projetos inacabados, sonhos pelo caminho e abas abertas no computador. Para a família, permanece também a dor pelo tempo retirado de suas filhas, especialmente da mais jovem, que ainda teria uma vida inteira para compartilhar com o pai.

Entre esses projetos estava o lançamento de Egodistônico, primeiro livro de Emmanuel 7Linhas. Durante anos, ele procurou meios de publicar a obra, recorrendo a editais, amigos e pessoas que, como ele, acreditavam na arte. Enquanto buscava espaço para os próprios textos, vendeu livros de outros autores e divulgou o trabalho de artistas que enfrentavam dificuldades semelhantes.

Percorria ladeiras com a mochila pesada, carregada de publicações, e comentava sobre a dificuldade de vender livros em meio aos likes. Em 2024, finalmente concluiu Egodistônico e se preparava para apresentá-lo ao público.

Saulo, da Editora Cousa, enviou a Mayrianne a versão digital da obra. Ao abrir o arquivo, ela encontrou, por acaso, a página de um poema dedicado a ela. A leitura provocou lágrimas, tristeza e saudade, mas também confirmou a capacidade do livro de reunir sentimentos presentes na trajetória do autor: revolta, consciência, afeto, esperança e coragem.

O lançamento póstumo acontecerá em novembro, no Cine Luso, durante um evento do qual Emmanuel participou em 2025 e que, neste ano, prestará uma homenagem ao artista. Para a família, realizar esse encontro significa concretizar um sonho interrompido e manter suas palavras em circulação.

Egodistônico ultrapassa a dimensão de uma publicação póstuma. O livro impede que a violência imponha um ponto final à trajetória de Emmanuel 7Linhas. Ele precisa ser lembrado por aquilo que escreveu, cantou, ensinou, defendeu e construiu, e não apenas pelas circunstâncias brutais de sua morte.

Publicar sua obra também é um ato de justiça cultural. Significa reconhecer um artista negro e periférico enquanto autor de pensamento, memória e produção intelectual. Significa ainda questionar quantas obras permanecem esquecidas em cadernos, arquivos digitais e gavetas porque seus criadores não encontraram, em vida, as condições necessárias para publicá-las.

Preservar os escritos, as músicas e as imagens de Emmanuel é uma responsabilidade que não pertence somente à família. Cabe também às instituições culturais, à imprensa, aos pesquisadores e à sociedade capixaba impedir que esse patrimônio desapareça. Sua produção integra a história cultural do Espírito Santo e precisa ser lida, estudada, divulgada e reconhecida.

A violência retirou Emmanuel 7Linhas do convívio de sua família e de seus amigos, mas não conseguiu eliminar sua presença. Ela continua nas filhas, nos artistas que ele apoiou, nas pessoas alcançadas por seu trabalho e nas palavras deixadas pelo caminho. Como afirma sua família: “Emmanuel 7Linhas presente, hoje e sempre!”.

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.

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