Há dois anos, o Espírito Santo se despedia de um de seus maiores músicos. Elias Belmiro deixou um legado que permanece vivo na memória de seus alunos, amigos, admiradores e de todos que tiveram o privilégio de conhecer sua arte e sua generosidade.
Nosso último encontro, poucos dias antes de sua partida, continua vivo em minha memória. A simplicidade daquele instante, o reencontro marcado pelo respeito e pelo carinho, e a justa homenagem que Elias recebeu naquela noite tornaram-se uma das recordações mais significativas que guardo de sua trajetória.
Dois anos depois, a emoção permanece a mesma. Releio estas palavras e revivo cada cena, com a certeza de que Elias Belmiro continua presente por meio de sua música e da profunda contribuição que deixou para a cultura capixaba e brasileira.

A seguir, o texto escrito em 2024:
Meu encontro com o maestro Elias Belmiro
Infelizmente, no dia 27 de julho de 2024, nos deixou precocemente o maestro, professor e músico Elias Belmiro. Sobre as agruras que a vida lhe reservou, não tratarei aqui, outros o fizeram e fazem, na medida de suas necessidades, fortemente ancoradas no sensacionalismo. Prefiro relatar meu último encontro com Belmiro, nas escadarias do Palácio Sônia Cabral, no centro de Vitória.
Naquela noite realizava-se o 5º Festival Internacional de Violões ES e o 6º Concurso de Violão Maurício de Oliveira. Conforme o próprio reclame do evento preconizava: “Contaremos com importantes representantes do mundo todo, Vitória se tornará a capital do violão na América Latina durante junho de 2024”.
Acompanhados de um amigo, professor de Música da Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames), Fabrício Moreira, fomos eu e minha companheira, Fabíola Fraga, prestigiar um jovem violonista que havia deixado o Estado fazia algum tempo e retornava agora, já consolidado enquanto artista, para abrilhantar o evento, Esdras Maddalon. Fabrício e Esdras estudaram juntos, daí o convite.
Chegando ao local, antes de entrar, visualizamos uma figura encolhida e encurvada, sentada nas escadas do Palácio. Logo o reconhecemos, lá estava um dos maiores violonistas do Espírito Santo, o “Sr. Villa Lobos”, como muitos o apelidaram, tamanha destreza ao interpretar as obras do artista. Ele nos fez um pedido: “Quero ver meu aluno Esdras, vai se apresentar hoje aqui, mas estou com dificuldades para chegar até lá”.
Não pestanejamos, conduzimos o mestre ao lugar que lhe pertencia, as poltronas do Palácio, não suas escadarias. Sob o olhar interrogativo dos presentes, acomodamos um tímido e envergonhado Belmiro, maltratado pelas condições precárias em que se encontrava,nas cadeiras da frente, para que pudesse acompanhar o evento com a devida clareza.
O apresentador percebe Elias e o saúda com a pompa merecida, aplaudido de pé. Chega o momento esperado pelo maestro. O jovem Esdras Maddalon, apresentado a Belmiro por seu professor na Fames, ainda muito jovem e que, tempos depois, abriria um show do próprio maestro na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), o primeiro do jovem músico, adentra ao palco.
Agradecimentos feitos, ele nota a presença de Elias e os dois trocam um longo abraço sob os aplausos dos presentes. Terminada a participação de Esdras, Belmiro se retira, silenciosamente,como que se desculpando por sua realidade tão devastadora.Quem ali esteve jamais esquecerá.
Faz-se necessário, ainda, uma informação. No ano de 2000, Maurício de Oliveira, que deu nome ao evento mencionado, foi convidado por Elias Belmiro a participar do disco Influências. Nele, atuou ao lado de Elias nas faixas Se ela perguntare Magoado, ambas de autoria de Dilermando Reis. Ainda neste disco, Belmiro prestou-lhe reverência, compondo Mauriciando. Não mais soube dele até seu falecimento.

Para você, maestro, aquilo que sempre nos dedicou: poesia.









