Há algo de simbólico no fato de um projeto voltado ao colecionismo de arte contemporânea nascer a partir da imagem de um arquipélago. Afinal, colecionar sempre foi, em alguma medida, construir pontes. Entre artistas e públicos, entre tempos distintos, entre territórios separados por oceanos, mas unidos por afinidades estéticas e afetivas.
É justamente essa ideia que move o Arquipélago Clube de Arte, iniciativa das capixabas Lara Brotas e Flávia Dalla Bernardina, lançada em Lisboa, em uma movimentação que ultrapassa o simples anúncio de uma nova plataforma e revela algo mais amplo: a crescente inserção do Espírito Santo em circuitos internacionais de produção, circulação e reflexão sobre a arte contemporânea.
Se durante muito tempo o colecionismo esteve associado apenas à aquisição de obras e ao universo privado, hoje ele assume outra dimensão. Em um cenário em que instituições culturais enfrentam dificuldades de financiamento e artistas dependem cada vez mais de redes de apoio e circulação, os colecionadores passaram a desempenhar papel decisivo na preservação da produção contemporânea e na construção da memória cultural do presente. Não por acaso, grandes coleções privadas transformaram-se em centros de pesquisa, fundações e museus, redefinindo a relação entre mercado e patrimônio.
É nesse contexto que o Arquipélago se apresenta. Mais do que orientar compras, a plataforma propõe acompanhamento especializado de coleções, pesquisa de procedência, catalogação, conservação, assessoria jurídica e interlocução com instituições culturais. Em outras palavras, entende a coleção como um organismo vivo, capaz de produzir conhecimento e legado.
A escolha de Lisboa como ponto de partida também parece carregada de significado. Nos últimos anos, a capital portuguesa consolidou-se como um dos principais polos culturais da Europa, atraindo galerias, artistas, colecionadores e feiras internacionais. Entre Brasil e Portugal, estabeleceu-se uma nova geografia das artes visuais, marcada pela circulação de profissionais e pela intensificação dos intercâmbios.
Nesse sentido, não é casual que a programação de estreia comece com uma conversa entre Lara Brotas e o curador português João Silvério, responsável pela coleção da Fundação PLMJ, uma das mais importantes coleções corporativas de arte contemporânea do país. A discussão sobre quem define o valor da arte , mercado, crítica, curadoria ou instituições , toca uma questão central do sistema artístico contemporâneo e coloca o debate em um patamar que vai além das transações comerciais.
No dia seguinte, o lançamento oficial acontece no Ateliê B12, espaço independente coordenado pela curadora capixaba Clara Sampaio, em Lisboa. O encontro marca também a primeira edição do clube, desenvolvida em parceria com o artista Thainan Castro, reforçando uma característica que parece estar na essência do projeto: a compreensão de que colecionar não significa acumular objetos, mas participar da história da arte que está sendo produzida agora.
Talvez o aspecto mais interessante dessa iniciativa seja justamente a sua dimensão de travessia. Em vez de pensar a arte contemporânea a partir de centros consolidados e periferias culturais, Lara Brotas e Flávia Dalla Bernardina propõem uma lógica de conexões. O nome Arquipélago sintetiza essa visão: territórios distintos que permanecem singulares, mas encontram potência quando se relacionam.
Em um tempo em que a circulação de ideias tornou-se tão importante quanto a circulação das obras, o lançamento do Arquipélago Clube de Arte em Lisboa representa mais do que uma agenda internacional. É um sinal de maturidade de uma geração de agentes culturais que compreende a arte como campo de encontros, conhecimento e construção de futuro.
E talvez seja exatamente isso que o colecionismo contemporâneo possa oferecer de mais relevante: não a posse, mas a possibilidade de criar vínculos. Entre pessoas, obras e lugares. Entre o Espírito Santo e Lisboa. Entre ilhas que, afinal, nunca estiveram verdadeiramente separadas.









