Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Debate não é derrota para quem sabe entrar

O presidente Lula resiste a participar do último debate da televisão, o da TV Globo, marcado para esta quinta-feira, 1º de outubro. A decisão pode ser entendida como cálculo: quem lidera costuma ter mais a perder num confronto de última hora, sobretudo quando vários adversários podem concentrar nele perguntas e ataques. Mas, em marketing político, a ausência também é uma mensagem — e nem sempre aquela que o candidato gostaria de transmitir. Flávio Bolsonaro confirmou presença. Se Lula não comparecer, o púlpito vazio será uma imagem à disposição dos adversários.

Não existe uma regra segundo a qual todo candidato deve participar de todo debate. Existe, isso sim, um cálculo: quanto se pode ganhar com a exposição, quanto se pode perder com um erro e qual é o custo de deixar o adversário falar sozinho. A estratégia de Tarcísio de Freitas diante de Fernando Haddad ajuda a compreender essa diferença — e por que a mesma escolha pode ser racional para um candidato e arriscada para outro.

Tarcísio faltou ao debate da Record, em 21 de setembro. Pelas regras acertadas entre as campanhas, o confronto virou uma entrevista de 30 minutos com Haddad, diante do púlpito vazio do governador. Tarcísio alegou dificuldade para conciliar os compromissos de governo e de campanha; Haddad chamou a ausência de estratégia para evitar a comparação. O governador, porém, já havia participado do debate da Band e confirmou presença no da Globo. Não se trata, portanto, de uma recusa absoluta ao confronto, mas de uma escolha seletiva sobre onde e quando comparecer.

A escolha fica mais compreensível quando se olha o cenário eleitoral. Na pesquisa Datafolha divulgada em 24 de setembro, Tarcísio aparecia com 50% das intenções de voto, contra 30% de Haddad. O mesmo levantamento registrou rejeição de 45% ao candidato petista e de 29% ao governador. A vantagem larga e a diferença de rejeição podem oferecer à campanha de Tarcísio uma margem para absorver o custo da cadeira vazia: Haddad ganha meia hora de exposição, mas precisa converter essa exposição em votos para superar uma distância que não é pequena e uma rejeição que limita sua expansão. Essa é uma leitura estratégica dos dados, não uma afirmação sobre o cálculo interno da campanha.

O episódio mostra que debate não é apenas um palco: é um ativo de campanha cujo valor depende da posição de cada candidatura. Para quem está atrás, comparecer pode ser uma chance de romper a narrativa dominante, expor contradições e reduzir a distância. Para quem lidera por margem confortável e enfrenta um adversário com dificuldade de ampliar o próprio eleitorado, faltar a um encontro específico pode ser uma forma de evitar riscos sem comprometer a vantagem. Ainda assim, há um preço reputacional. O púlpito vazio pode sugerir cálculo excessivo, fuga da prestação de contas ou desdém pelo eleitor. A pergunta estratégica não é se a ausência custa alguma coisa; é se a campanha acredita que esse custo será menor do que o risco de comparecer.

Esse cálculo não se transfere automaticamente para a disputa presidencial. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados em cenários de segundo turno: o Datafolha de 24 de setembro apontou 47% para Lula e 45% para Flávio; a Quaest divulgada no dia 28 marcou 42% para cada um; e a AtlasIntel publicada no dia 29 mostrou 47,6% para Lula e 47,7% para Flávio. Os números variam entre os institutos, mas descrevem uma disputa sem a folga que Tarcísio tem em São Paulo. Não há uma gordura de vinte pontos para gastar.

É justamente por isso que a ausência de Lula exige outra medida de risco. Num cenário apertado, o debate pode oferecer a oportunidade de consolidar uma vantagem, alcançar eleitores indecisos e mostrar capacidade de comando; a falta pode deixar o adversário falar diretamente ao país sobre o presidente, sem resposta no mesmo espaço. A lógica que talvez faça sentido para um governador com ampla dianteira pode ser menos segura para um candidato cuja vantagem, quando existe, está dentro da margem de erro. Liderar por dois ou cinco pontos não é o mesmo que liderar por vinte. A primeira situação pede defesa ativa da posição; a segunda pode permitir escolhas mais seletivas.

Essa diferença entre cálculo e automatismo atravessa a história dos debates. Em 1989, Fernando Collor, líder nas pesquisas, faltou ao primeiro debate presidencial transmitido ao vivo pela televisão, mas participou dos confrontos seguintes e venceu a eleição. O episódio não prova que faltar seja uma boa estratégia em qualquer cenário; prova que a ausência precisa ser interpretada dentro da campanha inteira. O que o eleitor já acredita sobre o candidato, o tamanho da vantagem, o número de adversários e a natureza do confronto alteram o preço de cada decisão.

Em 2006, Lula faltou ao debate final do primeiro turno. Seu então marqueteiro, João Santana, reconheceu depois que a decisão foi um erro: os concorrentes puderam falar do presidente sem resposta, e parte do eleitorado leu a ausência como soberba. O debate não decidiu sozinho aquela eleição; a falta, porém, abriu um flanco e entregou aos outros a iniciativa de narrar a ausência. Em reputação, às vezes o problema não é o que se diz do candidato. É ele não estar presente para disputar o significado do que se diz.

A disputa entre Paulo Maluf e Mário Covas pelo governo paulista, em 1998, mostra o outro lado: a utilidade do confronto para levar reputações, temperamentos e projetos ao centro da escolha. Maluf terminou o primeiro turno à frente, com 32,21% dos votos válidos, contra 22,95% de Covas. Depois de debates duros no segundo turno, Covas foi eleito, com 55,37%. Não se deve atribuir a virada a uma única noite; eleição não cabe numa cena só. Mas o debate ajudou a tornar visíveis diferenças que a propaganda, sozinha, não resolveria.

Em Colatina, a lição ganhou uma imagem quase teatral. Em 2004, Marcelino Fraga, apontado à época como favorito, não compareceu ao debate. Guerino Balestrassi, que tinha poucas chances de vitória, compareceu sozinho — e acabou eleito prefeito. O debate não criou sozinho a candidatura de Guerino nem explica, por si, o resultado. Mas lhe deu um espaço que os concorrentes deixaram livre: ele pôde falar sem interrupção e aparecer como o único disposto a enfrentar aquela prova pública. Quando os outros faltam, o palco não fica neutro. Alguém o ocupa.

Os exemplos recentes também mostram a força e o limite desse formato. Em junho de 2024, o desempenho de Joe Biden diante de Donald Trump acelerou a crise sobre sua capacidade de continuar na disputa; em julho, ele retirou a candidatura. Três meses depois, Kamala Harris foi considerada vencedora do debate contra Trump por 53% dos eleitores que tinham acompanhado o confronto, contra 24% para o adversário. Sua vantagem na pesquisa Reuters/Ipsos cresceu de quatro para cinco pontos. Harris não venceu a eleição: o debate pode precipitar uma crise, abrir uma janela de reposicionamento ou reorganizar a conversa pública, mas não substitui o conjunto da campanha nem decide sozinho o voto.

A preparação, por isso, não consiste em decorar respostas. Consiste em definir os eixos da mensagem, antecipar ataques, escolher os contrastes que ajudam o eleitor a distinguir os candidatos e impedir que o adversário determine sozinho o terreno do confronto. O candidato preparado sabe quando esclarecer, quando contestar e quando devolver a conversa ao que considera essencial. A disciplina não o torna artificial. Dá forma à espontaneidade — e permite que a imagem construída na campanha sobreviva ao teste da pressão.

O debate é uma disputa de enquadramento, um teste de reputação e uma oportunidade de posicionamento. Participar pode permitir que o candidato explique suas escolhas, exponha o adversário e demonstre coerência diante do eleitor. Faltar pode ser racional quando há margem suficiente para suportar o custo; torna-se arriscado quando a disputa está apertada e cada oportunidade de falar pode influir na percepção de quem ainda não decidiu.

Debate não é derrota para quem sabe entrar. Mas, numa eleição disputada por poucos pontos, deixar o adversário falar sozinho pode ser um luxo que a campanha não tem como pagar.

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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