Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Uma eleição que começou cedo demais e ainda não encontrou o eixo

Há uma máxima antiga na política — repetida quase como um mantra entre estrategistas — de que uma eleição começa quando a outra termina. No Brasil recente, no entanto, essa fronteira deixou de ser nítida. A última década dissolveu os intervalos, substituindo o ciclo eleitoral por uma espécie de estado permanente de tensão política, em que o calendário formal importa menos do que o ambiente contínuo de disputa.

No Espírito Santo, esse fenômeno ganhou contornos ainda mais evidentes quando, em dezembro de 2024, o então governador Renato Casagrande antecipou o debate sucessório ao anunciar, em entrevistas de fim de ano, nomes que poderiam disputar o governo quase dois anos depois. Não se tratava apenas de sinalização política — era, na prática, a largada oficial de um processo que, até pouco tempo atrás, só ganharia corpo no ano eleitoral.

O efeito foi imediato: uma corrida prematura, intensa, mas paradoxalmente desorganizada. O que se vê, a cinco meses do pleito, é um tabuleiro ainda nebuloso, com candidaturas tateando o terreno e um eleitorado distante. A antecipação não produziu clareza — produziu ansiedade.

Parte dessa indefinição nasce fora das fronteiras capixabas. O cenário nacional, longe de oferecer direção, tem operado como um fator de turvação. Episódios recentes envolvendo o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — como crises políticas, derrotas no Congresso e disputas institucionais — contribuem para um ambiente instável, incapaz de irradiar alinhamentos claros para os estados. Em outros momentos da história recente, o Brasil já assistiu a ciclos em que a política nacional organizava os palanques regionais de forma quase automática; hoje, essa verticalização se mostra fragmentada, quando não inexistente. No campo da direita, a situação é ainda mais emblemática.

O bolsonarismo, que já foi vetor de coesão, hoje oscila entre diferentes arranjos possíveis no Espírito Santo. Não está claro se haverá convergência em torno de um único nome, se haverá divisão entre candidaturas competitivas ou mesmo a formação de palanques híbridos. Essa hesitação não é apenas tática — ela revela uma disputa interna por protagonismo e direção, típica de movimentos políticos que perderam seu eixo central de comando.

Para o Senado, o silêncio fala alto. Há uma lista extensa de potenciais pré-candidatos que, até aqui, preferem aguardar. Não é falta de ambição; é cálculo. Em ambientes de alta incerteza, expor-se cedo demais pode significar desgaste sem retorno. A política, nesse estágio, funciona como um jogo de espera, e, muitas vezes, quem entra antes paga o preço da exposição sem colher os benefícios da definição.

A esse quadro se somam movimentos partidários que reconfiguram o jogo quase em tempo real. Mudanças de posicionamento, como as protagonizadas por lideranças e partidos tradicionais, além dos rearranjos típicos da janela partidária, embaralham ainda mais a leitura do cenário. O resultado é um sistema em constante reacomodação, onde alianças deixam de ser estruturas estáveis e passam a operar como arranjos transitórios.

Mas talvez o elemento mais decisivo — e menos controlável — esteja fora das engrenagens tradicionais da política: o eleitor. As pesquisas vêm indicando um distanciamento significativo do capixaba em relação ao debate público. Não se trata apenas de desinteresse momentâneo, mas de uma espécie de fadiga política acumulada ao longo de anos de conflito permanente. Em contextos assim, o eleitor não rejeita apenas candidatos; ele se afasta do próprio processo.

Esse afastamento produz efeitos concretos. Dificulta o posicionamento das candidaturas, esvazia discursos, reduz a eficácia do corpo a corpo e, sobretudo, comprime o tempo real de campanha. Se o eleitor só “entra” na eleição tardiamente — como indicam os levantamentos, que apontam desconhecimento inclusive sobre a realização do pleito —, toda a antecipação política passa a conviver com um paradoxo: muito movimento entre os atores, pouca conexão com quem decide.

A presença da Copa do Mundo no calendário reforça esse fenômeno. Historicamente, grandes eventos esportivos funcionam como zonas de suspensão da política. Em 1994, por exemplo, o Plano Real e a vitória na Copa se entrelaçaram em um ambiente de euforia que redefiniu o humor do eleitorado. Em outros ciclos, o futebol operou como distração coletiva, adiando o engajamento político. Em 2026, tudo indica que o padrão se repetirá: a atenção do eleitor será capturada, empurrando ainda mais para frente o momento de decisão.

O Espírito Santo, portanto, vive uma eleição que começou cedo demais — e, ao mesmo tempo, ainda não começou de fato. Entre a antecipação das elites políticas e a postergação do interesse popular, abre-se um intervalo incômodo, em candidaturas existem, mas ainda não se consolidaram; discursos circulam, mas ainda não encontraram ressonância; alianças se desenham, mas não se estabilizaram.

Em política, o tempo raramente é apenas cronológico. Ele é guiado, sobretudo, pela percepção. E, neste momento, o relógio institucional pode até indicar que a eleição está próxima. Mas o relógio do eleitor — esse, decisivo — ainda parece parado. Ou, talvez, apenas esperando o momento em que tudo, de fato, começará.

Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]