Como diria o mestre Elio Gaspari, ganha uma passagem só de ida para o Irã aquele que adivinhar aonde nos levará a guerra entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas eleições deste ano. A frase, espirituosa, serve menos como previsão e mais como diagnóstico: estamos outra vez diante de uma disputa que se organiza como duelo, e duelos raramente deixam espaço para terceiros.
A chamada terceira via continua existindo mais como desejo do que como força política concreta. Seu espaço de crescimento é estreito não apenas porque a polarização ocupa o centro do palco, mas porque falta a ela aquilo que sustenta candidaturas em tempos de tensão: discurso claro, identidade reconhecível, conflito bem delimitado.
Política não tolera o vazio, meu caro leitor, minha dileta leitora. Quando não há enunciação firme de projeto, o eleitor recorre ao que já conhece — ainda que conheça para amar ou para rejeitar. Já escrevi outras vezes: a dualidade entre petistas e bolsonaristas deixou de ser apenas ideológica para se tornar afetiva. É pertencimento. O eleitor não escolhe apenas propostas; escolhe lado, linguagem, tribo. Nesse ambiente, os mais céticos, aqueles que desconfiam de tudo, acabam muitas vezes votando movidos pelo barulho dos extremos. Não porque estejam convencidos, mas porque o barulho organiza o mundo: vota-se contra alguém, não a favor.
A última pesquisa divulgada no fim da semana passada mostrou Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula — dentro da margem de erro. Um empate técnico. O dado é menos sobre quem lidera e mais sobre o um país dividido ao meio, como se cada campo tivesse alcançado seu teto provisório. E aqui reside um ponto incômodo: há uma evidente falta de estratégia consistente de ambos os lados.
O que se vê é um movimento quase coreográfico, como se estivessem sambando ao sabor das baterias — o trocadilho é inevitável depois do episódio da Acadêmicos de Niterói. Testa-se um discurso aqui, ensaia-se um gesto ali. O que repercute fica. O que não encontra eco é rapidamente abandonado. Isso não é estratégia, caros leitores. É ausência de estratégia e adaptação tática permanente.
Em tempos de redes sociais e informação fluida — que nasce pela manhã e morre à noite —, sustentar determinados temas é mais difícil e, paradoxalmente, mais necessário. Estratégia implica repetição disciplinada, construção de memória, insistência quase obstinada em certos eixos. Propaganda é repetição. Quanto mais se um martela um discurso, mais ele se infiltra na memória do eleitor, mais ele cria familiaridade e molda a percepção.
A política contemporânea sofre de ansiedade. Quer responder a cada onda, a cada trending topic, a cada faísca digital. Mas campanhas vencedoras raramente são as mais reativas; são as mais coerentes, minuciosamente planejadas. Repetem, repetem, repetem, até que a ideia deixe de soar como argumento e passe a parecer verdade evidente. Enquanto isso, a terceira via continua à margem, esperando que o cansaço da polarização produza um vácuo.
O problema é que o cansaço, sozinho, não constrói alternativa. Ele apenas desgasta os protagonistas. Se não houver quem organize esse desgaste em proposta inteligível, o eleitor volta para casa conhecida — mesmo que a casa esteja em reforma permanente. No fundo, a eleição que se avizinha não é apenas sobre quem vence. É sobre quem consegue sustentar uma narrativa — ainda que eu evite a palavra — com densidade, coerência e repetição suficiente para atravessar o ruído. Polarização sem estratégia vira improviso, e improvisos são péssimos conselheiros. Terceira via sem discurso vira miragem. O destino, por ora, continua embaralhado.









