Sabe aquela mensagem que chega no grupo como “URGENTE”, em letras maiúsculas, chamando muita atenção para algo, e em dois minutos já tem gente indignada, se posicionando, sem saber ao certo do que se trata? Esse é um roteiro real e factível de como surge, ou pode surgir, a desinformação.
Ela não começa na mentira, como muitos podem imaginar. Ela começa justamente naquilo que nós já queremos acreditar. É onde estamos mais propensos a depositar nosso engajamento que se forma o solo fértil para o crescimento de distorções e manipulações de fatos. Porque informação, por si só, raramente muda a opinião de alguém.
Algumas áreas das ciências humanas se dedicam a entender isso há tempos. Emoções, identificação e crenças prévias também integram esse processo.
Se, por exemplo, uma pessoa já possui a sensação, ou a ideia, de que “todo político é corrupto”, qualquer conteúdo ou mensagem que reforce isso, mesmo sem prova, vai parecer plausível. Não porque seja verdadeiro, mas porque encaixa.
Cabe direitinho numa narrativa ou conceito que já foi preestabelecido na mente, por uma série de fatores individuais. A partir daí, podemos perceber, seja pela observação cotidiana ou pela própria dinâmica da comunicação, que a desinformação não cria convicções. Ela organiza e dá movimento às convicções que já existem.
E isso não acontece apenas nos períodos eleitorais ou em grandes campanhas. Acontece no nosso dia a dia. Nos grupos de amigos, de família, nas rodas de bate-papo e em encontros casuais, durante o ano todo.
É comum vermos um vídeo de 10 segundos, cortado fora de contexto, sendo compartilhado como se fosse o todo. Um áudio com tom de “bastidor”, como se fosse alguém revelando uma verdade escondida, ou o conteúdo de um suposto “especialista” discorrendo sobre algo para o qual ele não detém nenhuma competência ou conhecimento comprovado. É aí que está o cerne da questão sobre a desinformação.
Nos períodos eleitorais, as informações e a comunicação ganham ainda mais peso. Porque o problema não é apenas o risco de votar malinformado. É começar a enxergar a realidade de forma distorcida e passar a replicá-la.
Esse imediatismo ao qual somos levados, reforçado pela influência dos algoritmos e pela dinâmica das plataformas digitais, faz com que deixemos, aos poucos, de analisar e investigar os fatos, para somente reagir a eles. Essa prática é bastante nociva para qualquer ambiente ou fluxo de comunicação sadia que possibilite a conciliação de ideias.
Então o questionamento que podemos nos fazer não é somente como combater a desinformação e as fake news, independente da época do ano. É como não sermos conduzidos por elas. Podemos adotar alguns hábitos interessantes, como tentar aplicar “filtros” às nossas percepções, antes de reagirmos. Por exemplo, a emoção imediata.
Se uma informação te deixa com raiva na hora, ela provavelmente foi feita para isso. Você nem terminou de ler ou assistir, mas já quer responder e compartilhar. Esse é o sinal. A confirmação perfeita também é um tipo de filtro que podemos adotar. Se uma informação confirma exatamente algo que já pensamos e acreditamos, devemos desconfiar mais, e não menos. Outro exemplo é a urgência. Se um conteúdo que você recebe pede uma reação rápida, ele provavelmente não quer que você pense nem reflita sobre aquilo.
É fundamental sabermos que, se a informação te demanda velocidade, é porque ela está fugindo da reflexão.
Existem diversas formas de checarmos fatos, inclusive através de iniciativas como as agências Lupa e Aos Fatos, que se dedicam a conferir conteúdos e informações sugeridas pelos cidadãos. Mas acredito que, mais importante do que qualquer ferramenta de checagem, é a nossa postura. Nossa atitude diante das informações que recebemos acaba sendo determinante para nos manter mais conscientes e atentos às armadilhas da desinformação e das fake news.
Talvez o maior desafio hoje não esteja em obter mais e mais informação, mas sim em ter mais consciência sobre como reagir a ela.
Porque no fim das contas, em um mundo onde as relações estão cada vez mais “algoritmizadas” e as informações circulando cada vez mais rápido, a disputa não acontece apenas entre verdade ou mentira.
É também entre quem consegue moldar a forma como enxergamos o mundo antes mesmo que possamos perceber.
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