Toda organização vive uma tensão permanente entre duas forças.
De um lado, estão aqueles que preservam. Conhecem os processos, respeitam os protocolos, zelam pela conformidade, evitam riscos e garantem que a instituição continue funcionando com estabilidade. São os convergentes. Aproximam-se dos objetivos institucionais pela disciplina, pela previsibilidade e pela confiança que inspiram.
Do outro lado, encontram-se aqueles que inquietam. Questionam procedimentos, desafiam modelos consolidados, identificam oportunidades invisíveis aos demais e insistem em perguntar por que algo continua sendo feito da mesma maneira há tantos anos. São os rebeldes. Não porque rejeitem a instituição, mas porque recusam a acomodação.
A primeira impressão pode sugerir que esses grupos ocupam lados opostos. Na realidade, constituem duas faces da mesma organização.
Walter Longo observa que empresas inovadoras aprendem a conviver com ambos os perfis. A administração pública não é diferente. Talvez essa necessidade seja ainda maior.
O Poder Judiciário vive um momento singular. A inteligência artificial automatiza atividades repetitivas, a transformação digital modifica fluxos de trabalho, a gestão por dados substitui decisões intuitivas e a sociedade exige respostas cada vez mais rápidas, transparentes e eficientes.
Nesse ambiente, a simples repetição do passado deixou de ser suficiente. Mas a ruptura permanente também não é uma alternativa aceitável.
Tribunais existem para produzir segurança jurídica. Sua legitimidade repousa precisamente na previsibilidade das decisões, na integridade dos procedimentos, na estabilidade institucional e na confiança da sociedade.
É justamente por isso que a inovação precisa ser conduzida com responsabilidade.
O rebelde identifica possibilidades que ainda não foram percebidas. O convergente assegura que essas possibilidades sejam incorporadas sem comprometer a estabilidade da instituição.
Quando um elimina o outro, ambos fracassam.
Organizações compostas apenas por convergentes tornam-se burocráticas. Aperfeiçoam o passado, mas encontram dificuldades para construir o futuro.
Organizações formadas apenas por rebeldes vivem em permanente reinvenção. Produzem entusiasmo, mas frequentemente sacrificam a continuidade, a governança e a segurança.
A maturidade administrativa consiste em compreender que inovação e estabilidade não competem entre si. Elas se complementam.
Essa talvez seja uma das tarefas mais sofisticadas da liderança contemporânea.
O líder não existe para uniformizar pessoas. Existe para harmonizar talentos diferentes em torno de um propósito comum.
Sua função não é transformar rebeldes em burocratas nem converter convergentes em revolucionários.
Sua verdadeira responsabilidade é criar um ambiente onde o inconformismo produza inovação e a disciplina transforme inovação em política institucional.
Essa compreensão ganha ainda mais relevância no contexto da inteligência artificial.
As máquinas executarão processos, elaborarão minutas, organizarão informações e acelerarão rotinas. Entretanto, continuarão incapazes de exercer prudência, discernimento, responsabilidade institucional e julgamento ético.
A liderança permanece insubstituível justamente porque administra pessoas, e não apenas processos.
Ao completar 135 anos de existência, o Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo demonstra que instituições longevas não sobrevivem porque resistem às mudanças, mas porque aprendem a mudar sem abandonar os princípios que lhes conferem identidade.
A boa governança nasce exatamente desse equilíbrio.
É ela que permite preservar aquilo que não pode mudar e transformar, com coragem e responsabilidade, tudo aquilo que precisa evoluir.
No fim, as organizações mais sólidas não são aquelas que silenciam seus rebeldes nem aquelas que exaltam apenas os convergentes. São aquelas que descobriram que o futuro pertence às instituições capazes de fazer dessas diferenças a sua maior força.









