Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

135 ANOS DE PROPÓSITO

A conhecida afirmação de Friedrich Nietzsche de que “Deus morreu” talvez seja uma das frases mais citadas e menos compreendidas da filosofia contemporânea. Ao contrário do que muitos imaginam, o filósofo alemão não estava simplesmente negando a existência de Deus. Sua preocupação era outra. Nietzsche procurava compreender o que aconteceria com a sociedade quando desaparecessem os referenciais que, durante séculos, ofereceram sentido à existência humana.

O professor Clóvis de Barros Filho costuma explicar essa passagem de maneira particularmente feliz. O problema não seria a morte de Deus em si. O verdadeiro desafio surgiria depois dela. Como viver quando desaparecem as certezas? Como orientar escolhas quando já não existem respostas prontas? Como construir sentido em um mundo cada vez mais complexo?

Essa reflexão, embora concebida para explicar a condição humana, encontra surpreendente aplicação na vida das instituições.

Organizações também podem perder de vista sua razão de existir.

Com o passar do tempo, estruturas tornam-se mais complexas. Normas multiplicam-se. Procedimentos são aperfeiçoados. Sistemas são modernizados. Indicadores passam a orientar decisões. Tudo isso é necessário. Tudo isso é importante. Mas existe um risco silencioso: o de que os meios passem a ocupar o lugar dos fins.

Quando isso acontece, trabalha-se muito sem que se compreenda claramente por que se trabalha.

No Poder Judiciário, essa reflexão assume especial relevância.

O cidadão não procura a Justiça para movimentar processos.

Não procura a Justiça para alimentar estatísticas.

Não procura a Justiça para conhecer sistemas eletrônicos ou modelos de gestão.

O cidadão procura a Justiça porque busca solução para seus conflitos, proteção para seus direitos, previsibilidade para suas relações e confiança nas instituições que sustentam o Estado Democrático de Direito.

É justamente aí que a governança revela sua dimensão mais nobre.

Muito além de modelos administrativos, estruturas de controle ou mecanismos de planejamento, governança significa preservar permanentemente a conexão entre a instituição e sua finalidade.

Governar bem é lembrar, todos os dias, para quem se trabalha.

É fazer com que cada investimento realizado, cada projeto estruturante, cada contratação, cada inovação tecnológica e cada política institucional estejam orientados por uma pergunta fundamental: qual benefício isso produzirá para o cidadão?

Essa compreensão tem orientado importantes iniciativas desenvolvidas pelo Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo.

A modernização tecnológica, o fortalecimento da infraestrutura, os investimentos em conectividade, a ampliação da governança, a busca por maior integração administrativa, o aperfeiçoamento dos mecanismos de controle e a valorização de magistrados e servidores não constituem objetivos em si mesmos.

São instrumentos.

O objetivo permanece sendo o mesmo que justificou a criação do próprio Tribunal há mais de um século.

Servir à sociedade.

Neste mês de julho, o Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo celebra 135 anos de existência.

São 135 anos de uma trajetória construída por gerações de magistrados, servidores, colaboradores e gestores que, em diferentes épocas e diante dos mais variados desafios, contribuíram para consolidar uma das instituições mais importantes da vida pública capixaba.

Ao longo desse período, o mundo mudou inúmeras vezes.

Mudaram as tecnologias.

Mudaram os métodos de trabalho.

Mudaram as formas de comunicação.

Mudaram as expectativas da sociedade.

Mas aquilo que justifica a existência do Poder Judiciário permaneceu essencialmente o mesmo.

A promoção da justiça.

A garantia dos direitos.

A preservação da segurança jurídica.

A pacificação dos conflitos.

Talvez seja essa a principal lição que uma instituição de 135 anos possa oferecer.

A longevidade não decorre apenas da força da tradição.

Ela resulta da capacidade permanente de renovar propósitos sem abandonar valores.

Sob a liderança da Presidente, Desembargadora Janete Vargas Simões, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo vive um período marcado por planejamento, modernização e construção de soluções estruturantes voltadas para o futuro.

Mas nenhuma transformação institucional alcança legitimidade apenas por sua sofisticação técnica.

Sua legitimidade nasce da capacidade de melhorar a vida das pessoas.

Porque, ao final, toda política pública possui um destinatário.

Todo investimento possui um propósito.

Toda instituição possui uma razão de existir.

Ao celebrar seus 135 anos, o Poder Judiciário capixaba reafirma exatamente esse compromisso.

O compromisso de continuar evoluindo sem perder sua identidade.

De continuar inovando sem abandonar seus valores.

De continuar construindo o futuro sem esquecer sua missão.

E essa missão permanece tão atual hoje quanto era em 1891.

Servir à sociedade capixaba com independência, eficiência, integridade e senso de justiça.

Afinal, podemos saber exatamente o que fazemos.

Podemos aperfeiçoar continuamente como fazemos.

Mas a excelência institucional somente se completa quando jamais esquecemos por quem fazemos.

E fazemos pelo cidadão.

Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.

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