IBGE anuncia liberação de microdados e encaminha fim de divulgações do Censo 2022 após atrasos

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) anunciou nesta segunda-feira (31) a liberação dos microdados da amostra do Censo Demográfico 2022.

A publicação encaminha o fim das divulgações da contagem da população de quatro anos atrás. A etapa ocorre após atrasos na coleta das informações e na disseminação dos resultados do recenseamento, iniciado no governo Jair Bolsonaro (PL).

O IBGE planejava liberar a consulta aos microdados em dezembro do ano passado, mas adiou a medida. Com isso, a liberação só ocorreu nesta segunda-feira.

Os microdados são as informações mais detalhadas do Censo. Permitem análises de questões socioeconômicas por acadêmicos e formuladores de políticas públicas, inclusive dentro dos municípios.

Os arquivos reúnem estatísticas coletadas por meio de questionários da amostra aplicados a um conjunto selecionado de domicílios, preservando o anonimato dos informantes.

O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, citou nesta segunda-feira o avanço da IA (inteligência artificial) e das ciências de dados como desafio para a divulgação.

Conforme Pochmann, a situação levou o instituto a fazer uma “avaliação criteriosa” para conseguir publicar os microdados com a manutenção do sigilo estatístico. Há três níveis de acesso às informações (veja mais detalhes abaixo).

O temor era de que a IA pudesse permitir a reidentificação de informantes caso não houvesse cuidado adicional nos protocolos. O Censo anterior é relativo a 2010, quando a inteligência artificial não era uma realidade como é atualmente.

“É uma felicidade enorme para o IBGE disponibilizar os microdados do Censo 2022. Alguns cuidados precisaram ser tomados, [a publicação] levou mais tempo, é verdade. Mas é um passo decisivo para um compromisso ainda maior com o sigilo da informação”, disse o diretor de pesquisas do instituto, Gustavo Junger.

Segundo ele, a liberação encerra o ciclo regular de divulgações do Censo 2022, restando apenas publicações especiais. “O tempo que levou valeu a pena pela qualidade do trabalho desenvolvido e pelas soluções encontradas”, acrescentou.

Estudiosos esperavam a liberação dos microdados para destravar estudos acadêmicos.

O pesquisador André Salata, do laboratório de estudos PUCRS Data Social, diz que os arquivos são fundamentais, assim como outras informações do IBGE.

Conforme Salata, é natural que a publicação dos microdados leve mais tempo, mas o atraso desta vez atrapalhou, gerando um “delay bastante significativo”.

“A gente tinha previsão de produzir alguns relatórios e teve que refazer todo o planejamento. Isso envolve mão de obra e orçamento”, afirma.

No Censo 2010, a publicação dos microdados foi prevista para dois anos depois, em 2012. O prazo consta no calendário disponível no site da contagem populacional.

ATRASOS NA COLETA

A coleta dos dados do Censo mais recente estava prevista para ocorrer em 2020, mas foi adiada para 2021 em razão das restrições da pandemia. Em 2021, houve novo adiamento, motivado pelo corte de verba no governo Bolsonaro.

Assim, a contagem da população ficou para 2022. O orçamento para a pesquisa só foi liberado após o STF (Supremo Tribunal Federal) ser acionado.

Nesta segunda-feira, o coordenador de operações censitárias do IBGE, Fernando Damasco, celebrou a apresentação dos microdados, mas reconheceu que o Censo enfrentou “muitas dificuldades na sua execução”.

Ele citou questões como a pandemia, o crescimento das taxas de não resposta no Brasil e no exterior e os desafios para a contratação de trabalhadores temporários pelo instituto.

A Folha de S.Paulo perguntou ao IBGE por email se o órgão teria algum comentário adicional sobre os atrasos na liberação dos microdados e as dificuldades registradas durante a coleta do Censo. Não houve retorno até a publicação desta reportagem.

O IBGE é presidido por Pochmann desde agosto de 2023. À época, o instituto já havia iniciado as divulgações do Censo. Pochmann foi indicado ao cargo pelo presidente Lula (PT).

ACESSO AOS MICRODADOS

O IBGE realizou uma transmissão em vídeo para anunciar a liberação dos microdados. Segundo o órgão, a divulgação ocorre em um novo modelo com três níveis de acesso.

O instituto disse que esse novo sistema busca equilibrar a ampliação do acesso às informações com a proteção da privacidade.

No primeiro nível, de consulta pública, os arquivos podem ser obtidos diretamente no portal do IBGE, sem necessidade de autenticação ou solicitação prévia, afirmou o órgão. A modalidade possui desagregação geográfica apenas até as unidades da Federação.

O segundo nível corresponde ao acesso controlado, voltado para pesquisadores e gestores públicos que necessitam de informações geográficas mais detalhadas.

Nesse caso, a consulta exige autenticação pela plataforma gov.br, preenchimento de formulário, assinatura de termo de compromisso e aceite dos termos de uso. Há desagregação até o nível das áreas de ponderação da pesquisa.

Já o terceiro nível, de acesso restrito, é realizado por meio da Sala de Acesso a Dados Restritos, localizada na sede do IBGE, no Rio de Janeiro.

Essa consulta é destinada a estudos que demandam o maior detalhamento possível das informações. Exige apresentação de projeto de pesquisa, análise da solicitação e assinatura de termo de confidencialidade. Os pesquisadores têm acesso à base completa da amostra, sem subamostragem.

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – LEONARDO VIECELI

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas