Em 20 de janeiro de 1961, John F. Kennedy afirmou em seu discurso de posse como presidente dos Estados Unidos: “Meus compatriotas americanos, não perguntem o que seu país pode fazer por vocês; perguntem o que vocês podem fazer pelo seu país.” Kennedy participou pessoalmente da elaboração do discurso, preservado inclusive em rascunhos manuscritos. Mais de seis décadas depois, essa mensagem continua atual.
Nós, brasileiros, criticamos presidentes, parlamentares, governadores e prefeitos. E temos o direito — e o dever — de cobrar! Mas será que praticamos aquilo que exigimos? Afinal, os políticos são escolhidos pela sociedade e, em alguma medida, refletem seus valores e contradições. Alguns sociólogos afirmam que a maior parte do Congresso e de nossos dirigentes políticos, refletem apenas o comportamento da maioria do povo brasileiro. Procede?
Alguns atribuem a seguinte frase a filósofos como Sócrates ou Platão: “Para mudar o mundo, comece mudando a si mesmo”. Nos escritos de Gandhi, existe um conceito muito próximo: “Se pudéssemos mudar a nós mesmos, as tendências do mundo também mudariam”.
Cobramos honestidade, ética e transparência. Mas cumprimos nossas promessas, respeitamos contratos, rejeitamos pequenas vantagens indevidas e falamos a verdade quando ela nos prejudica?
Criticamos governos que gastam demais e acumulam dívidas. Segundo o Banco Central, os juros nominais do setor público somaram cerca de R$ 1,2 trilhão nos 12 meses até setembro de 2026. Mas controlamos os gastos domésticos? Eliminamos desperdícios e evitamos dívidas desnecessárias?
Condenamos discursos que dividem o Brasil entre “nós e eles”. Porém, quantos romperam amizades ou se afastaram de familiares por divergências políticas? Como cobrar união nacional se não praticamos a reconciliação em casa?
Reclamamos das obras públicas paralisadas. O Tribunal de Contas da União identificou 4.215 obras paradas em levantamento de 2026, a maioria nas áreas de educação e saúde. E nós? Quantos projetos começamos e abandonamos sem concluir?
Exigimos combate à criminalidade, cumprimento das leis, punição de quem comete delitos, a redução da maioridade penal. Mas aplicamos os mesmos princípios quando o responsável é um conhecido, amigo ou familiar? Ou nossas convicções mudam conforme a pessoa envolvida?
Criticamos mentiras, narrativas manipuladas e estatísticas distorcidas. Entretanto, verificamos uma notícia antes de compartilhá-la? Contamos os fatos integralmente ou omitimos aquilo que não favorece nossa opinião?
Debatemos o Bolsa Família: sua contribuição para reduzir a pobreza e a necessidade de não somente beneficiar, mas também estimular autonomia, trabalho e oportunidades. Mas será que também cultivamos relações de dependência, trocando favores por lealdade, na política, nas empresas ou na vida pessoal?
Questionamos salários, benefícios e privilégios de autoridades. Alguns defendem até vereadores voluntários. Mas nós dedicamos tempo, sem remuneração, ao bem comum? Segundo o IBGE, anualmente apenas 4% a 5% da população de 14 anos ou mais realiza algum trabalho voluntário.
Nada disso significa aliviar os erros de políticos ou deixar de exigir responsabilidade dos governantes. Quem administra recursos públicos deve dar exemplo e prestar contas. Mas a crítica ganha força quando vem acompanhada de coerência.
Podemos começar com atitudes simples: respeitar regras, controlar despesas, honrar compromissos, combater a desinformação, concluir projetos, preservar amizades, participar de associações e dedicar algumas horas a causas sociais. Ser cidadão vai muito além de votar e reclamar nas redes sociais.
O filósofo Sêneca dizia “A palavra conduz, mas o exemplo arrasta.” Existe também um ditado popular que exemplifica o artigo, pois critica quem dá conselhos, mas não pratica aquilo que prega: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”
Talvez o Brasil não precise apenas de políticos melhores. Precise também de cidadãos que estejam dispostos a ser o exemplo da mudança que desejam.
E então, o que você pode fazer pelo Brasil? Ele está precisando muito de você!










