Desde a emergência de uma direita mais extremada, mais ativa politicamente e muito vinculada ao fenômeno das redes sociais, o Brasil ganhou uma nova estatura política. A marca mais forte desse nosso momento foi, sem dúvida, a surpreendente eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Sem um partido forte, sem alianças regionais ou municipais, sem tempo de televisão, ele expressou um momento de disruptura.
Embora tenha feito um governo medíocre, o que lhe valeu a derrota em 2022, ele tem um mérito político que ninguém pode negar: criou uma outra direita no Brasil. Os brasileiros ligados a essa tendência ideológica passaram a participar do debate das ideias de forma dura, e muitas vezes, grosseira, como vem acontecendo em quase todos os países do mundo.
Essa nova direita ganhou as ruas em grandes manifestações em defesa de suas teses e de seus representantes eleitorais. Eventos como atravessar a Terceira Ponte, na nossa capital, ou realizar grandes aglomerações em Copacabana ou na Avenida Paulista passaram a fazer parte do nosso dia a dia. Assim, nasceu uma nova onda política sólida e convincente, apoiada nos valores morais dos evangélicos, sobretudo os chamados neopentecostais.
Enquanto tudo isso acontecia, os adversários políticos dessa nova onda estavam muito tímidos, muito isolados em seus nichos. A organização do pensamento conservador em grandes bolhas na internet permitia que uma mesma mensagem chegasse a todos de forma clara e inequívoca. A direita ganhou as redes sociais, as suas narrativas e uma nova forma de lidar com a política e as eleições. Seus representantes estão entre os campeões de voto em cada eleição e crescem a cada pleito.
Entretanto, nas eleições que se encerram agora, aconteceu um outro fenômeno: os que não queriam a eleição de Flávio Bolsonaro organizaram-se em grandes manifestações públicas. A campanha de Lula tomou as ruas, ganhou entusiasmo e conseguiu trazer para o dia da votação um contingente de eleitores que havia faltado no primeiro turno.
Idosos, assustados com a perspectiva de perderem direitos; jovens, preocupados com o aprofundamento de uma pauta moral antiquada contra as liberdades conquistadas nas últimas décadas; mulheres em luta contra o machismo crescente; enfim, os que se sentiam mais prejudicados com a ascensão do pensamento conservador organizaram-se em uma frente de luta, que foi para as ruas.
Tenho a impressão de que não foi o PT ou o Lula que ganhou as eleições, mas, sim, essa grande mobilização popular, que reuniu muitas diferentes classes sociais, gerações e matrizes ideológicas. Nem todos aprovavam o governo Lula, nem todos gostariam de votar nele. O que uniu essa massa mobilizada no segundo turno foi o sentimento anti-Bolsonaro, o medo das perdas que poderiam ser impostas e o retrocesso que Flávio parecia representar para esses diferentes grupos sociais.
As eleições nacionais de 2026 foram marcadas pelas mobilizações de rua dos eleitores de Lula, ao contrário do que havia ocorrido de outras vezes. E mais: a convocação e a organização vieram pelas redes sociais, organizadas por um deputado não petista de Minas Gerais, o Janone. Os eleitores comuns passaram a ter os seus celulares invadidos diariamente por um grande número de imagens e mensagens de pessoas fazendo o L, por exemplo, numa demonstração coletiva de pertencimento a uma causa.
A lógica defasada com que o velho petismo fazia suas campanhas foi atropelada pelo eleitor comum, que se sentiu parte de um movimento coletivo, de uma construção política que o levava em conta e na qual tinha papel e protagonismo. Assim, uma causa em comum reuniu pessoas de vários perfis.
Creio mesmo que, aqui no Espírito Santo, essa mobilização anti-Bolonaros tenha ajudado ao forte crescimento de Ricardo Ferraço no segundo turno, justamente por oposição à candidatura bolsonarista de Pazolini. É um paradoxo, porque Ricardo passou toda a campanha rejeitando a presença do PT, e foi justamente esse segmento que lhe proporcionou uma quase vitória de última hora.
A política é uma arte danada: exprime-se e expressa-se de formas muitas vezes inesperadas, ou, como filosofou Max Weber: a história é o lugar do milagre.









