Durante cinco anos, Divina Neves da Conceição, de 65 anos, contou com a ajuda de profissionais de saúde para cuidar da mãe, que estava acamada. Moradora de Cidade Nova da Serra há 25 anos, ela acompanhou de perto o trabalho das equipes que percorrem as comunidades rurais do município. Mais do que consultas e medicamentos, o que fica na memória é carinho e o olhar à saúde rural.
O atendimento que marcou a vida de dona Divina faz parte de um serviço que existe há 21 anos na Serra e que, somente entre janeiro e setembro de 2026, realizou 12 mil atendimentos. A experiência ultrapassou as fronteiras do Espírito Santo e conquistou o terceiro lugar nacional no Prêmio Atenção Primária Forte, promovido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).
“A equipe é maravilhosa, não só como profissionais, mas como pessoas. Eles têm um carinho muito grande com a gente. Cuidaram da minha mãe durante cinco anos, quando ela estava acamada, e muito bem. Minha mãe não teve uma ferida no corpo, de tanto cuidado que recebia. Qualquer coisa que acontecia, eu ligava e a equipe dava um jeito de ir até nossa casa”, lembra.
Saúde, afeto e muito conhecimento
À frente do trabalho premiado está a médica de Família e Comunidade, Caroline Daniele Silva, a doutora Carol, que há mais de três anos atua na região rural da Serra. Foi percorrendo estradas de terra, visitando casas e ouvindo os moradores que ela encontrou inspiração para desenvolver estratégias de cuidado adaptadas à realidade dessas famílias. Segundo a médica, ela leva cuidado e recebe muito conhecimento
“Meus pacientes, muitos deles agricultores, me ensinaram, mesmo sem perceber, algumas das lições mais bonitas sobre o cuidado. Aprendi que nenhuma semente floresce apenas porque foi plantada. Ela precisa encontrar uma terra preparada, condições favoráveis, atenção, paciência e alguém disposto a acompanhar seu crescimento”, relata a médica.
Essa atenção também é reconhecida por Márcia Lopes de Almeida, de 50 anos. Dona de casa e moradora da zona rural da Serra há quase quatro décadas, ela percebeu mudanças na assistência desde a chegada da profissional.

“Depois que a doutora Carol chegou, melhorou muita coisa pra gente. Ela é muito carinhosa, trata todo mundo com amor e todo mundo gosta muito dela. Ela examina, conversa, demora na consulta porque quer saber o que a gente está sentindo. Isso faz muita diferença. A gente se sente acolhido”, conta.
Proximidade e estratégia
Atualmente, o serviço acompanha comunidades onde vivem aproximadamente 4.722 pessoas. Cerca de 20% dessa população é formada por idosos, o que exige atenção permanente a doenças crônicas e às dificuldades de deslocamento para buscar assistência médica.
Para a secretária municipal de Saúde, Fernanda Coimbra, o reconhecimento nacional é resultado de um trabalho construído a partir das necessidades de quem vive nessas regiões. “Cuidar da saúde também é conhecer a realidade de cada comunidade e encontrar soluções para suas necessidades. Na zona rural, nossas equipes construíram um trabalho de proximidade, com acompanhamento das famílias, acesso aos medicamentos e estratégias que facilitam o tratamento”, afirma.
O prefeito da Serra, Weverson Meireles, também destaca a importância de garantir que a distância dos centros urbanos não seja uma barreira ao atendimento.
“Quem vive na área rural também precisa ter acesso a um atendimento de qualidade, perto de casa. Esse projeto mostra a importância de uma saúde pública que chega até as famílias, acompanha suas necessidades e faz a diferença na vida das pessoas”.
Além do terceiro lugar nacional, o trabalho desenvolvido pelas equipes conquistou o primeiro lugar geral entre as experiências capixabas apresentadas na Mostra Brasil, Aqui Tem SUS, realizada em julho, em Porto Alegre. A iniciativa também será tema de um webdocumentário do Conasems em 2027.
Reorganização amplia presença das equipes
Percorrer longas distâncias, enfrentar dificuldades de deslocamento e garantir que os pacientes não fiquem meses sem acompanhamento estão entre os desafios da assistência à saúde na zona rural da Serra. Para reduzir essas barreiras, o município reorganizou o serviço e conseguiu diminuir de 180 para 35 dias o intervalo necessário para percorrer os territórios atendidos.
A mudança beneficia moradores de oito comunidades: Aroaba, Belvedere, Calogi, Cidade Nova da Serra, Itaiobaia, Muribeca, Putiri e Santiago. O atendimento é realizado por meio de quatro pontos fixos de apoio, uma farmácia central e equipes itinerantes, que oferecem consultas médicas e de enfermagem, visitas domiciliares, acompanhamento de doenças crônicas e ações preventivas.
Os resultados aparecem também no volume de atendimentos: em 2025 foram registrados 13 mil, número que foi alcançado em nove meses esse ano.
Outra mudança ocorreu na distribuição de medicamentos. Entre 2021 e 2025, a quantidade de itens dispensados passou de 13 mil para 23,7 mil, crescimento de 82,2%. A implantação de conectividade, em 2024, também facilitou o agendamento de consultas e o acompanhamento dos pacientes.
Tratamento lúdico reforça resultados
Entre as estratégias adotadas está a chamada “Maleta do Agricultor”, criada pelos próprios profissionais para facilitar a comunicação com pessoas que têm dificuldades de leitura ou compreensão das orientações médicas. Com cartões, adesivos e materiais ilustrativos, a ferramenta ajuda a explicar, de maneira simples, os horários dos medicamentos e os cuidados necessários durante o tratamento.

A atenção às doenças crônicas é uma preocupação constante. Segundo as estimativas apresentadas pelo município, 35% dos moradores rurais têm hipertensão arterial e 10% convivem com diabetes. Em 2025, as equipes receberam classificação “Ótimo” nos indicadores de acesso à Atenção Primária e acompanhamento de pessoas com hipertensão, além de avaliação “Bom” nos indicadores de diabetes e saúde da pessoa idosa.
As estratégias de atendimento itinerante e acompanhamento contínuo foram alguns dos aspectos reconhecidos na premiação nacional de julho. Como desdobramento, a OPAS e o Conasems preveem visitas técnicas de intercâmbio entre os municípios contemplados, para compartilhar experiências que possam contribuir com a assistência à saúde em outras regiões do país.










