O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, desembarcou nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28) e divulgou uma carta na qual se apresenta como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. No documento de três páginas, o parlamentar confirma que deixou o país com a família, acusa o Judiciário de perseguição política, questiona o resultado das urnas sem apresentar provas de fraude e anuncia que pretende liderar a oposição brasileira a partir do território americano.
A manifestação foi divulgada após a chegada de Flávio, da esposa e das duas filhas ao aeroporto executivo de Opa-locka, na região de Miami, na Flórida. O desembarque ocorreu por volta das 10h23, no horário de Brasília, depois de uma viagem que incluiu passagem pela Argentina e escala no Equador.
A saída do país ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes do senador e proibiu sua saída do território brasileiro. Como a ordem não foi cumprida, a Polícia Federal cancelou os documentos.
Na carta, Flávio Bolsonaro procura justificar a decisão de deixar o Brasil e rejeita a interpretação de que tenha fugido.
“Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece”, escreveu.
Flávio Bolsonaro se declara presidente eleito e contesta resultado
Logo no primeiro parágrafo da carta, o senador afirma ser o legítimo vencedor das eleições presidenciais realizadas no domingo (25), apesar da vitória de Lula no segundo turno.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, declarou.
Flávio sustenta que houve fraude na votação e questiona uma decisão judicial relacionada à prorrogação do horário de votação. Segundo ele, a medida teria submetido eleitores a condições diferentes e comprometido a regularidade do processo.
O senador também acusa o governo federal de abuso de poder político e econômico durante a campanha e defende a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin.
As acusações, entretanto, não vieram acompanhadas de provas no documento. A declaração unilateral do candidato derrotado não altera o resultado oficial da eleição.
CARTA À NAÇÃO BRASILEIRA 🇧🇷 28.10.26 https://t.co/TkWzSVjbp0
— Flávio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) October 28, 2026
Como Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos
A viagem ocorreu em meio à repercussão de medidas determinadas pelo STF no âmbito de investigações que envolvem o senador.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, com base em registros migratórios argentinos, Flávio Bolsonaro, a esposa e as filhas cruzaram a fronteira com a Argentina às 22h50 de terça-feira (27), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na região de Foz do Iguaçu.
Às 23h30, a família embarcou em uma aeronave particular com destino a Guayaquil, no Equador. De lá, seguiu para os Estados Unidos, onde o avião pousou na manhã desta quarta-feira.
A Polícia Federal informou que não havia registro oficial da saída do senador pelos postos de controle migratório brasileiros. O órgão também esclareceu que a existência de restrições relacionadas a documentos de viagem não caracteriza, por si só, a condição jurídica de foragido.
Flávio é investigado em procedimentos que tramitam no STF, incluindo uma apuração sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. O senador nega irregularidades.
Senador agradece a Trump e Milei
Na carta, Flávio Bolsonaro agradece ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao presidente da Argentina, Javier Milei. O parlamentar atribui aos dois governantes apoio durante sua saída do Brasil e afirma que sua família está em segurança em território americano.
“Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança”, escreveu.
Em outro trecho, agradeceu ao governo americano por recebê-lo e afirmou que pretende permanecer politicamente ativo fora do país.
O senador ingressou nos Estados Unidos com uma autorização humanitária que permite sua permanência no país por até um ano, segundo documento da autoridade alfandegária americana.
Flávio anuncia que comandará oposição a Lula do exterior
Além de contestar a eleição, o senador utiliza a carta para apresentar seus próximos movimentos políticos. Ele afirma que pretende liderar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos e promete divulgar, nos próximos dias, uma estratégia de mobilização de seus apoiadores.
A manifestação é direcionada especialmente a parlamentares, governadores e lideranças políticas alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio menciona nominalmente o senador Rogério Marinho (PL-RN), a quem identifica como seu candidato à presidência do Senado.
“Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, afirmou.
O senador também anuncia que fará pronunciamentos regulares ao público brasileiro e que pretende mobilizar seus apoiadores por meios que descreve como pacíficos e legítimos.
Carta amplia confronto com o Judiciário
Em diferentes passagens do documento, Flávio Bolsonaro acusa integrantes do Supremo Tribunal Federal de perseguição política e sustenta que as investigações contra ele seriam uma tentativa de impedir sua atuação como liderança da oposição. As acusações são apresentadas como avaliações do próprio parlamentar e não foram acompanhadas de elementos que comprovem os crimes atribuídos aos magistrados.
Para justificar a decisão de atuar fora do Brasil, Flávio estabelece comparações com personagens históricos que exerceram atividades políticas no exílio, como Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí. Também menciona lideranças oposicionistas venezuelanas.
Ao final da carta, o senador afirma que sua saída do Brasil não representa o encerramento de sua atividade política.
“Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro”, escreveu.
A publicação representa a primeira manifestação extensa de Flávio Bolsonaro após sua chegada aos Estados Unidos e estabelece a intenção declarada de manter influência sobre a oposição brasileira mesmo fora do país.
Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente do Brasil.
Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.
Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.
A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.
Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.
Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.
Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.
Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.
Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e Maria Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.
Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.
Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.
À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal.
Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.
E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista.
Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.
Que Deus abençoe o Brasil.
Flávio Bolsonaro
.










