Na linguagem velada que domina os bastidores da política capixaba, o presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), deputado Marcelo Santos (União Brasil), utilizou a visita institucional do governador eleito Lorenzo Pazolini (Republicanos) para delimitar o terreno em que o novo Palácio Anchieta terá de pisar a partir de 2027. Ao mesmo tempo em que elogiou o “gesto de diálogo” do futuro chefe do Executivo, Marcelo foi taxativo: a harmonia entre os Poderes não significará submissão da Casa.
“A Assembleia Legislativa é um poder independente. Nós conquistamos isso, conquistamos o retorno do protagonismo da Assembleia e eu disse a ele [Pazolini] que é muito importante esse respeito ao protagonismo, à Assembleia e aos deputados”, declarou o presidente.
A fala, no entanto, poderá deixar de ser fato para um legado não defendido pelos deputados que representarão o Poder a partir de fevereiro de 2027. No pleito desse ano 14 deputados estaduais foram reeleitos e 16 novos assumirão uma cadeira parlamentar na Assembleia Legislativa capixaba.
Sucessão na Mesa Diretora e distanciamento estratégico

A reunião a portas fechadas no Palácio Domingos Martins reuniu Pazolini, Marcelo Santos e o ex-presidente da Casa, presidente do Republicanos-ES e coordenador da transição do futuro governo, Erick Musso. Questionado se o trio tratou da eleição para o comando da Ales — marcada para 1º de fevereiro de 2027 —, Marcelo esquivou-se de exercer o papel de padrinho político da disputa e negou ingerência.
Com a bagagem de quem cumpre seu sexto mandato estadual, o parlamentar pontuou que cabe aos 30 deputados da futura legislatura (sendo 16 novos nomes) definir o comando do Parlamento:
“Não me cabe interferir aqui, mesmo estando no exercício pleno do mandato de deputado e presidente. Quem tem que escolher o novo presidente (…) são os próprios deputados, fruto do amadurecimento dos que aqui estão e dos que vão chegar.”
Conexão Brasília-Anchieta e cobranças à União
Apesar de dar a posse a Pazolini em janeiro antes de seguir para a Câmara dos Deputados em Brasília, Marcelo fez questão de frisar que sua atuação no Congresso estará atrelada às demandas do Executivo estadual e às fragilidades fiscais e estruturais do Espírito Santo.
Segundo o presidente da Ales, Pazolini já o provocou para atuar como ponte entre o governo do Estado, a bancada capixaba e o governo federal. Marcelo sinalizou postura pragmática quanto ao Palácio do Planalto, ressaltando que, independentemente de filiação partidária, a União precisa entregar investimentos em infraestrutura travados há anos no solo capixaba.
Ele citou nominalmente gargalos como a construção da ferrovia EF-118, a duplicação da BR-262 (que cobrou não depender apenas dos recursos da repactuação do desastre de Mariana) e o asfaltamento das rodovias federais que ainda operam em leito de terra no Estado.
“O Estado vai sofrer efeitos colaterais negativos da reforma tributária. É esse o papel de um deputado federal: garantir os investimentos que nos faltam aqui”, alertou Marcelo, antecipando que levará para Brasília pautas conservadoras na segurança pública, como alterações na legislação penal e endurecimento de penas.










