A tentativa de transformar a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Lula (PT) em perseguição política à direita encontra respostas distintas entre pastores que apoiaram a candidatura do senador à Presidência.
Se na terça-feira (27), Silas Malafaia divulgou vídeo para prestar sua gratidão ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, pela devolução de seu passaporte, o pastor gravou nova fala nesta quarta (28), desta vez para encorpar a tese de que a família Bolsonaro é alvo de uma ofensiva da corte capitaneada por Alexandre de Moraes, a quem gosta de se referir como “ditador da toga”.
Já Cláudio Duarte, um dos pastores com maior apelo digital no país, procurou se afastar da disputa. O bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra, justificou a evasão do país com uma alusão ao messias cristão. “Até Jesus Cristo ensinou a se proteger debaixo de perseguições.”
A reação dos religiosos ocorre em meio à repercussão da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, após Moraes determinar a apreensão do passaporte do senador e proibi-lo de deixar o país. Ele fugiu para os Estados Unidos, para onde seu pai também foi após perder a eleição de 2022 para Lula e onde seu irmão está desde o ano passado.
Também alegando ser alvo de perseguição política no Brasil, Eduardo Bolsonaro (PL) atuou junto ao governo Donald Trump para pressionar autoridades brasileiras e tentar barrar o julgamento de Jair Bolsonaro, condenado pelo STF.
A Polícia Federal solicitou a medida contra Flávio minutos depois de o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmar a vitória de Lula no domingo (25). A PF apontou risco de evasão do território nacional e citou vínculos financeiros investigados e uma declaração de Eduardo Bolsonaro favorável à saída do senador do país caso perdesse o pleito.
Malafaia, um dos principais aliados da família Bolsonaro, reagiu à circulação de um vídeo antigo no qual criticava a decisão de Jair Bolsonaro de ir para os Estados Unidos após perder para Lula quatro anos atrás.
O pastor chamou de “esquerdopatas canalhas” os que resgataram a entrevista para confrontá-la com a situação atual, no que julga ser uma distorção – como se ele estivesse falando de Flávio em vez de Jair.
Disse que, se antes achava que Jair deveria ter ficado no país para liderar a oposição a Lula, agora revê sua posição. “Na época eu pensava assim. Depois vi que, se Bolsonaro ficasse aqui, ia ser preso lá atrás.”
Malafaia acusa Moraes de atuar como “agente político”, e não como magistrado imparcial. Achou “corretíssima” a decisão do candidato derrotado nas urnas em deixar o Brasil. “Estou vendo a esquerda espernear. Queria que Flávio ficasse aqui pra ser preso sem o devido processo legal?”
O pastor afirma ainda ter conversado com Flávio na manhã de segunda-feira (26), mas nega que o senador tenha mencionado a intenção de sair do Brasil. Segundo ele, a conversa se limitou à avaliação do resultado eleitoral.
“Falamos sobre o porquê da derrota, eu fazendo conjecturas com ele. Onde é que nós erramos e tal. Foi só sobre isso. Não comentou nada comigo.”
No dia seguinte, Malafaia recebeu a notícia de que seu passaporte, retido em agosto de 2025, seria devolvido.
O passaporte foi apreendido por determinação de Moraes, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de coação no curso do processo e obstrução de Justiça relacionadas à tentativa de pressionar o Judiciário durante o julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Áudios vazados da conversa entre Malafaia e Bolsonaro tiveram relação direta com a investigação. Extraídos do celular do ex-presidente, eles mostravam o pastor discutindo estratégias de comunicação e pressão política, inclusive em meio às sanções anunciadas pelo governo Trump contra o Brasil, e criticando Eduardo Bolsonaro, a quem chamou de “babaca”, “inexperiente”, “idiota” e “estúpido de marca maior”.
Para a PF, as conversas indicavam possível articulação para constranger ministros do Supremo e interferir no processo. Malafaia contestou a investigação e criticou a divulgação das conversas privadas.
O posicionamento de Malafaia sobre a fuga de Flávio contrasta com o de Cláudio Duarte, que apoiou o primogênito de Jair com entusiasmo durante a campanha, mas publicou nesta quarta-feira (28) um vídeo em que se distancia da disputa política.
“Quem venceu, venceu, quem perdeu, perdeu”, afirmou. Disse ainda que o triunfo lulista não interfere em sua vida e evitou aderir à narrativa de perseguição que circula entre setores do bolsonarismo.
“Eu não quero que Lula faça um mau governo. Eu quero que o país cresça, quero que você hoje que está feliz com essa vitória que permaneça feliz.”
A posição do pastor aponta para uma tentativa de encerrar o embate eleitoral e preservar a relação com fiéis de diferentes preferências políticas, sem prolongar a polarização após o resultado das urnas.
Rodovalho, por sua vez, disse que recebeu com “grande surpresa” a notícia de que o ex-presidenciável havia trocado o Brasil pelos EUA. Mas disse entender Flávio.
“Acho que é natural garantir sua integridade física. Até Jesus Cristo ensinou a se proteger debaixo de perseguições. Vamos aguardar se existem causas que justificam esses atos do STF. Na luz que temos agora, foi agressivo e desnecessário apreender seu passaporte.”
POR ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER










