A forte reação do mercado financeiro após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República colocou em debate os reflexos sobre a economia capixaba. A disparada do dólar, a queda da Bolsa e a alta dos juros futuros ampliaram as incertezas sobre o custo do crédito, os investimentos das empresas e a geração de empregos.
Na segunda-feira (26), primeiro dia de negociação após o resultado eleitoral, o dólar comercial chegou a R$ 5,60 durante o pregão e fechou a R$ 5,403, com alta de 8,21%. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, caiu 13,88%, aos 176.608 pontos, e acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando as quedas atingem determinados limites.
Para o presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo, Ricardo Paixão, a reação inicial não significa, necessariamente, que o país entrará em um período prolongado de instabilidade. Segundo ele, o mercado financeiro responde às expectativas dos investidores, que podem mudar rapidamente diante de acontecimentos políticos.
“O mercado financeiro se movimenta através de expectativa dos agentes econômicos. Ele é muito volátil quando a gente fala de qualquer fato e, principalmente, um fato político forte como o resultado das eleições”, afirmou.
Paixão avalia que ainda é cedo para classificar o movimento como sinal de uma crise econômica. Na avaliação dele, o comportamento do mercado dependerá das decisões do governo eleito, da composição da equipe econômica e das sinalizações sobre a condução da política fiscal e monetária.
“É um movimento natural. O mercado financeiro fez uma aposta em um determinado candidato, de repente outro candidato saiu vitorioso e aí você tem essa reação”, disse.
O economista acrescenta que a duração da instabilidade dependerá de fatores como a trajetória da dívida pública, as expectativas de inflação e a política de juros. Para ele, a apresentação de diretrizes econômicas claras poderá oferecer mais elementos para que investidores avaliem os riscos e tomem decisões.
Dólar alto pode favorecer exportadores e encarecer a produção
A valorização da moeda americana tem efeitos diferentes entre os setores da economia capixaba. Empresas exportadoras podem receber mais reais pela venda de seus produtos no exterior, mas o benefício depende dos custos de produção e da quantidade de insumos importados utilizados em cada atividade.
O Espírito Santo tem participação relevante em segmentos como siderurgia, mineração, celulose, rochas ornamentais, petróleo e gás, além de uma estrutura portuária e logística estratégica para o comércio internacional.
De acordo com Paixão, o dólar mais alto pode favorecer a receita em reais das empresas exportadoras. Por outro lado, também pode elevar os custos de máquinas, equipamentos, combustíveis, fertilizantes, componentes industriais e matérias-primas comprados no exterior.
“Esse benefício depende da estrutura de custo de cada empresa. O aumento das despesas pode ser repassado aos preços finais, pressionando a inflação e reduzindo a competitividade de determinados segmentos. A alta dos juros também preocupa porque encarece financiamentos, dificulta a compra de equipamentos e pode levar empresas a adiar projetos de expansão”, explicou.
Para o economista, o desafio é evitar que a instabilidade financeira afete a atividade produtiva. Ele destaca que a indústria de transformação, a construção civil, o comércio e os serviços merecem atenção por sua importância para o emprego e a circulação de renda.
“Na construção civil, a taxa de juros influencia diretamente as condições de financiamento imobiliário. No comércio, o crédito mais caro pode limitar o consumo das famílias. Já o desempenho das indústrias exportadoras dependerá também da demanda internacional e dos custos de produção”.
Paixão ressalta, porém, que uma queda na Bolsa não provoca automaticamente aumento do desemprego. Os efeitos sobre o mercado de trabalho dependem da duração da instabilidade e de sua transmissão para a economia real.
Juros, contas públicas e investimentos entram no radar
A política fiscal, que envolve as receitas e despesas do governo, está entre os principais pontos observados pelos investidores. As preocupações incluem a capacidade de controlar o crescimento da dívida pública, manter a previsibilidade do orçamento e conciliar os gastos públicos com o crescimento econômico.
Durante a campanha, Lula defendeu a continuidade do arcabouço fiscal, mecanismo de regras para as contas públicas, além de investimentos em infraestrutura, indústria e crédito. Também prometeu ampliar políticas de financiamento. A forma como essas medidas serão executadas e financiadas será relevante para a avaliação do mercado.
A discussão sobre os chamados pacotes de benefícios e a ampliação de despesas públicas está relacionada à preocupação com o equilíbrio das contas. “Quando investidores consideram que o governo poderá ter dificuldades para financiar seus gastos, podem exigir remuneração maior para emprestar recursos ao país, pressionando os juros futuros”, explica Ricardo Paixão.
Isso não significa, contudo, que uma elevação da taxa básica de juros seja automática ou que esteja determinada apenas pelo resultado eleitoral. A taxa Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, com base na avaliação do cenário econômico e das perspectivas para a inflação. Em setembro de 2026, o colegiado havia reduzido a Selic para 13,75% ao ano.
Paixão avalia que a combinação entre responsabilidade fiscal, estabilidade monetária e crescimento sustentável será um dos principais desafios do governo federal. Ele defende previsibilidade orçamentária, melhoria da qualidade dos gastos públicos, combate ao desperdício e avaliação das políticas adotadas.
O economista pondera que responsabilidade fiscal não deve ser confundida com cortes indiscriminados de despesas. Para ele, investimentos em infraestrutura, educação, saúde e inovação são necessários para aumentar a produtividade e ampliar a capacidade de crescimento do país.
Na política monetária, o desafio é criar condições para uma redução sustentável dos juros sem comprometer o controle da inflação. Como o Banco Central tem autonomia institucional, a condução da Selic não depende de uma decisão direta do presidente da República.
A confiança dos investidores, segundo Paixão, também está relacionada à estabilidade institucional, à segurança jurídica e ao diálogo entre os Poderes. Uma economia que cresce e amplia sua base produtiva tende a fortalecer a arrecadação e a capacidade de administrar a dívida pública.
No Espírito Santo, ele também aponta a necessidade de acompanhar as decisões do novo governo estadual, especialmente em relação ao Fundo Soberano, formado com recursos dos royalties do petróleo e concebido como uma reserva para beneficiar as futuras gerações.
Findes defende diálogo e continuidade dos investimentos
Em posicionamento divulgado em 26 de outubro, a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) cumprimentou Lula pela eleição para a Presidência da República e Lorenzo Pazolini pela eleição ao governo estadual. A entidade manifestou disposição para o diálogo e para o trabalho conjunto em favor do desenvolvimento econômico e social. 
A federação defende a continuidade das políticas estaduais que contribuíram para atrair indústrias e investimentos. Também aponta a necessidade de preservar um ambiente de negócios favorável, ampliar oportunidades, gerar empregos e renda e fortalecer a competitividade capixaba.
Para o governo federal, a Findes destaca três prioridades: avançar na implementação da política industrial Nova Indústria Brasil, reduzir o chamado Custo Brasil que é o conjunto de despesas e entraves que encarecem a produção e os negócios, e acelerar os investimentos em infraestrutura.
A entidade também apresentou aos candidatos ao governo estadual a Agenda da Indústria Capixaba, documento elaborado com o setor industrial. A agenda reúne 12 pautas prioritárias e 65 propostas distribuídas em seis áreas: capital humano, financiamento, infraestrutura, inovação, meio ambiente e tributação.
Segundo a federação, as propostas buscam enfrentar problemas estruturais que limitam o ambiente de negócios e a competitividade das empresas capixabas. No âmbito nacional, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou aos candidatos o documento Brasil 2050, com propostas de projetos estruturantes voltados ao crescimento sustentável e ao desenvolvimento social.
Perspectivas para 2027 dependem do cenário nacional e externo
Apesar das incertezas, o Espírito Santo reúne condições estruturais para continuar crescendo em 2027. Entre os fatores favoráveis, cita a base industrial, a infraestrutura portuária, a presença de grandes exportadoras e os investimentos previstos para setores estratégicos.
Segundo dados do Observatório da Findes, a atividade econômica capixaba cresceu 4,4% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. A indústria avançou 12,4% no intervalo.
“O desempenho do próximo ano, entretanto, dependerá do ritmo da economia brasileira e mundial, da demanda internacional por commodities, produtos básicos negociados em grandes mercados, como minério de ferro, café e soja da evolução dos juros, da estabilidade cambial e da continuidade dos investimentos públicos e privados”, afirma o presidente da Findes, Paulo Baraona.
Uma redução sustentável dos juros poderá favorecer a construção civil, a indústria de transformação, o comércio e os serviços. Em contrapartida, a manutenção de taxas elevadas, uma desaceleração da economia mundial e o aumento dos custos de produção podem limitar o crescimento.
Já Ricardo Paixão, defende a diversificação da economia capixaba, a ampliação dos investimentos em infraestrutura logística, o estímulo à inovação tecnológica e a qualificação profissional. Para ele, reduzir a dependência de determinados produtos e mercados internacionais pode tornar o Estado menos vulnerável às oscilações externas.
“O Espírito Santo possui condições estruturais para continuar crescendo em 2027, mas esse crescimento não está garantido”, afirmou.
Na avaliação do economista, a consolidação de um ambiente estável, com crédito acessível, segurança jurídica, investimentos produtivos e políticas de desenvolvimento regional, será determinante para transformar as oportunidades em empregos, aumento da renda e melhoria das condições de vida da população.
Ele conclui que o desafio não está apenas em acompanhar as reações imediatas do mercado financeiro, mas em preservar os fundamentos da economia real e assegurar um processo de desenvolvimento sustentável e socialmente inclusivo.










