Respostas das urnas sobre as eleições no Espírito Santo

Integrantes do governo, de modo reservado, conversavam na noite desse domingo (25) sobre os motivos que levaram à derrota de Ricardo Ferraço (MDB) nas urnas. Dentre as ponderações, uma parecia martelar com mais força: “Entregamos tanto em quatro anos e não houve reconhecimento da população?”.

As respostas das urnas foram firmes, tendo o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) como o grande triunfante. Abriu uma margem de aproximadamente 100 mil votos sobre seu adversário e será o primeiro governador eleito a suceder a hegemonia de Paulo Hartung (PSD) e Renato Casagrande (PSB), que se alternaram no comando do Estado nas últimas duas décadas.

Inegavelmente, a gestão Renato/Ricardo teve entregas importantes nos últimos quatro anos. Muito foi feito. Contudo, se Casagrande era mais caloroso na relação com o público, o emedebista adotava uma postura muito mais discreta. E isso ficou patente ao longo da campanha. Afinal, uma coisa é realizar. Outra, bem diferente, é conseguir fazer com que a população perceba as realizações e estabeleça uma conexão com quem está à frente delas.

Por sinal, a virada de chave na campanha de Ricardo no segundo turno trouxe bons frutos, mas não foi suficiente. O candidato passou a se comunicar melhor, adotou uma postura mais combativa e buscou maior proximidade com o eleitorado. Talvez faltasse esse “molho” desde o início. Quando a mudança veio, Pazolini já havia construído uma identificação difícil de ser revertida em poucas semanas.

E aí veio mais um trauma para Casagrande, que viu um aliado sofrer uma derrota mesmo com a máquina na mão, assim como o próprio socialista experimentou em 2014. A diferença é que, desta vez, não era ele o candidato, mas o peso político do resultado também recai sobre seus ombros.

Há de se ressaltar, ainda, que muitos dos aliados eleitos do grupo pertencem a forças políticas de centro, o que abre margem para uma possível volatilidade nos posicionamentos e apoios. Na política, a fidelidade costuma ser colocada à prova quando o poder muda de endereço. E, com a derrota, será interessante observar quantos permanecerão efetivamente ao lado de Casagrande e Ricardo.

Pazolini, por sua vez, conseguiu estabelecer uma conexão com o público. Teve um jingle que pegou, com o “coração grandão”, e não era rara a presença de bonecos com sua imagem, os “Pazolinhos”, como alguns apoiadores os batizaram. Elementos que poderiam parecer meros detalhes de campanha acabaram ajudando a construir uma identidade popular. O republicano soube transformar sua imagem em algo facilmente reconhecido pelo eleitor.

Além disso, conseguiu explorar o sentimento de mudança sem necessariamente precisar desconstruir todas as entregas da gestão estadual. A eleição mostrou que a aprovação de um governo, por si só, não representa garantia de transferência de votos. O eleitor pode reconhecer avanços e, ainda assim, desejar outro nome no comando.

A presença do PL em sua aliança também não o prejudicou, como alguns imaginavam. O Espírito Santo, mais uma vez, deu ampla votação a Flávio Bolsonaro (PL). De quebra, a força do campo bolsonarista também contribuiu para impulsionar o republicano, que conseguiu reunir diferentes segmentos do eleitorado em torno de sua candidatura.

O resultado, portanto, não pode ser explicado apenas pelo desempenho das administrações ou pelo tamanho das estruturas partidárias. Houve uma disputa de narrativas, de identificação e, sobretudo, de capacidade de mobilização. Nesse quesito, Pazolini levou a melhor.

Obviamente, ainda que Ricardo tenha sido derrotado, o grupo de Casagrande não deixa de ter potencial para fazer oposição. Conta com lideranças, mandatos, capilaridade política e um ex-governador que acaba de conquistar uma cadeira no Senado. Há espaço para exercer um papel relevante, até como Manato (Republicanos) fez num passado próximo, mesmo depois de perder a disputa pelo Palácio Anchieta.

A questão é saber como essa oposição será construída e quem estará disposto a permanecer nela. Uma coisa é integrar um grupo político quando ele controla a máquina estadual. Outra é manter a mesma disposição quando se passa para o outro lado do balcão.

A segunda-feira pós-eleições traz ressacas para todos os lados. Uns, pelas comemorações que atravessaram a madrugada. Outros, com a cabeça pesada, como se tivessem tomado um porre. E, para alguns, há até ressaca moral.

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