Costumo dizer que, quando desejo me aprofundar em determinados conceitos espirituais, éticos ou filosóficos, quase sempre encontro boas reflexões na Bíblia ou nos ensinamentos dos filósofos gregos, muitos deles formulados séculos antes de Cristo.
O Brasil é um Estado laico, princípio decorrente da própria Constituição, e assim deve permanecer. Isso não impede que ensinamentos religiosos sejam analisados como referências éticas e morais. Dados detalhados do Censo 2022 do IBGE indicam que 86,9% dos brasileiros com 10 anos ou mais pertencem a alguma vertente cristã.
A Bíblia evidentemente não é um manual de administração pública. Entretanto, apresenta princípios que podem provocar boas reflexões sobre o comportamento de qualquer governante. Por mais bem-sucedida que seja a trajetória política do nosso atual presidente, é importante lembrar que todo ser humano é falível. Assim, é sensato ele ter humildade para ouvir as pessoas e pesquisas, reconhecer erros e falhas, visando mudar determinadas atitudes.
No Evangelho de Marcos 10:42-44, Jesus contrapõe o exercício dominador do poder à liderança pelo serviço: quem deseja ser grande deve servir. Trazendo o ensinamento para a vida pública, a mensagem é simples: governar é servir à população, e não se servir do cargo, dos privilégios ou do poder.
Em Provérbios 29:4, a justiça aparece associada à estabilidade de uma nação, enquanto a corrupção contribui para sua destruição. Já em Lucas 3:12-14, cobradores de impostos são orientados a não cobrar além do devido. É essencial a honestidade e ética de um líder político
A Bíblia também é extremamente rigorosa com relação à verdade. Em Colossenses 3:9, Paulo orienta os cristãos a não mentirem uns aos outros. Provérbios 6:16-19 inclui entre as atitudes condenadas a língua mentirosa e a falsa testemunha.
Um presidente possui enorme capacidade de influenciar milhões de pessoas. Quando utiliza números, estatísticas ou informações, deveria ter cuidado redobrado com a precisão daquilo que diz. Na avaliação da imprensa, muitas declarações presidenciais são imprecisas, exageradas ou incompatíveis com os fatos.
Outro princípio bíblico particularmente atual é o da união. Provérbios 6:19 condena expressamente aquele que “semeia discórdia entre irmãos”. Jesus também advertiu, em Marcos 3:25, que uma casa dividida contra si mesma não consegue permanecer. É o conceito de amar ao próximo.
Na avaliação de muitos, a política presidencial do “nós contra eles” contribuiu para aprofundar a divisão entre brasileiros. O papel de um presidente deveria ser procurar aproximar, e não estimular antagonismos entre ricos e pobres, homens e mulheres, negros e brancos, nordestinos e sulistas, católicos e evangélicos, direita e esquerda. Governar um país significa governar para todos.
Em Gênesis 41, José, elevado a uma posição de grande administrador do Egito, prepara o país para sete anos de fome durante os sete anos de fartura. Armazena alimentos e se antecipa à crise. É uma extraordinária lição de planejamento: nos momentos de abundância, um bom gestor também economiza, constitui reservas e pensa no futuro.
Neemias oferece outro exemplo. Quando governador de Judá, relata que, durante 12 anos, abriu mão da provisão destinada ao governador, considerando o peso que já recaía sobre o povo (Neemias 5:14-18). A mensagem atravessa os séculos: quem administra recursos públicos precisa compreender a realidade daqueles que sustentam o Estado.
Em 1 Samuel 8:11-17, há uma advertência sobre governantes que concentram poder e retiram recursos, propriedades e trabalho da população para sustentar sua estrutura. Já em 1 Reis 12, Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi, rejeitou o conselho de aliviar os pesados impostos pagos pelo povo e anunciou que o tornaria ainda maior. O resultado foi uma grave ruptura e a divisão do reino. Carga tributária, desperdício e responsabilidade fiscal são temas muito antigos e prioritários para um governante.
Jesus também deixou ensinamentos que remetem à eficiência e ao planejamento. Depois da multiplicação dos pães, determinou: “Que nada seja desperdiçado” (João 6:12). Em Lucas 14:28-30, pergunta quem começaria a construir uma torre sem antes calcular se teria recursos suficientes para concluí-la.
É difícil não relacionar essa passagem às obras públicas inacabadas. Segundo o Tribunal de Contas da União, em abril de 2025, das 22.621 obras financiadas com recursos federais mapeadas, 11.469 estavam paralisadas — 50,7% do total.
É impressionante perceber como textos escritos há tantos séculos continuam dialogando com questões contemporâneas: liderança, verdade, união, corrupção, impostos, planejamento, desperdício, privilégios e responsabilidade com o dinheiro público.
E talvez exista ainda um ensinamento que reúna vários dos anteriores. Quando Jesus afirma, em Mateus 7:12, que devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que fizessem conosco, oferece uma regra simples que também poderia orientar a vida pública. Um governante gostaria de ser enganado, pagar impostos excessivos, viver em uma sociedade permanentemente dividida?
Princípios como servir, falar a verdade, promover a união, planejar, economizar, agir com justiça, combater a corrupção e cuidar do dinheiro coletivo são importantes referências para qualquer presidente da República, independentemente de sua fé.
E fica a reflexão:
Se o presidente da República seguisse, na administração pública, esses ensinamentos de Jesus e outros princípios encontrados na Bíblia, você acredita que o Brasil poderia estar melhor?









