Há eleições que exigem do eleitor longas noites de dúvida, comparações minuciosas e uma boa dose de esperança no escuro. A de domingo não é uma delas. Quando se olha com calma para o que está em jogo, a decisão se torna quase aritmética, e a esquerda aparece como a opção mais coerente para quem deseja um país mais justo, mais democrático, mais soberano e mais preparado para o futuro.
Comecemos pelo que é mais concreto: a vida das pessoas. Foi a esquerda que transformou a transferência de renda em política de Estado, e não em favor eleitoral. O Bolsa Família, reconstruído e ampliado, voltou a exigir frequência escolar e acompanhamento de saúde das crianças, ligando o alívio imediato da fome a um horizonte de longo prazo. A valorização real do salário mínimo voltou a ser regra, e não exceção. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais corrigiu uma distorção antiga, em que o professor e a enfermeira pagavam proporcionalmente mais do que quem vive de dividendos. Nada disso é abstrato. É comida na mesa, conta paga no fim do mês, filho que continua na escola.
A defesa dos pobres, aliás, é o que dá sentido a todo o resto. Num país que carrega séculos de escravidão e desigualdade, governar é sempre escolher para quem se governa. A esquerda fez essa escolha às claras. Foi ela que levou energia elétrica ao interior com o Luz para Todos, que colocou a casa própria ao alcance de famílias que nunca tinham tido uma escritura no nome com o Minha Casa, Minha Vida, que ampliou a Farmácia Popular para garantir remédio a quem não pode pagar, que criou o Pé-de-Meia para que o jovem pobre não precise escolher entre estudar e trabalhar, e que ajudou milhões de brasileiros a sair do sufoco das dívidas com o Desenrola. O SUS, maior sistema público de saúde do mundo, sempre encontrou na esquerda sua defesa mais firme. Para quem vive na periferia, no campo ou nas margens das grandes cidades, essas políticas não são estatística. São a diferença entre ter e não ter dignidade.
Depois, vem a questão da democracia. A esquerda brasileira tem uma história de luta contra a ditadura, de defesa das instituições e de respeito ao resultado das urnas, mesmo quando perde. Num momento em que o mundo inteiro assiste ao avanço de projetos autoritários, votar em quem trata a democracia como valor inegociável não é detalhe. É condição para que todas as outras discussões possam acontecer.
E a democracia caminha junto com a soberania. Um país que não decide sobre suas próprias riquezas não decide sobre o próprio destino. A esquerda defendeu a Petrobras e o pré-sal como patrimônio do povo brasileiro, e não como mercadoria a ser entregue a preço de ocasião. Defendeu os bancos públicos, que financiam a habitação, a agricultura familiar e o pequeno empreendedor. Quando o Brasil sofreu pressões e tarifas impostas de fora, foi a esquerda que respondeu com altivez, lembrando que nenhuma potência estrangeira tem o direito de ditar as decisões das nossas instituições. Defendeu o Pix, criado aqui e usado por milhões, como ferramenta brasileira, e reafirmou que nossas leis valem também para as grandes plataformas digitais. Soberania não é discurso nacionalista vazio. É a capacidade de proteger empregos, tecnologia, recursos naturais e dados dos brasileiros, colocando o interesse nacional acima de interesses alheios.
Há também o meio ambiente, tema que deixou de ser pauta de nicho para se tornar questão de sobrevivência e, também ela, de soberania. O Espírito Santo conhece bem o preço da negligência: a lama de Mariana chegou ao Rio Doce e ao nosso litoral, e as enchentes recentes mostraram que o clima já cobra a conta. A esquerda recolocou o combate ao desmatamento no centro da política nacional, retomou a fiscalização e devolveu ao Brasil a credibilidade internacional que havia perdido. Proteger a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica é proteger a água, a agricultura e as cidades. E são justamente os mais pobres que mais sofrem com secas, enchentes e deslizamentos.
E existe a educação e a cultura, que costumam ser as primeiras vítimas de governos que desconfiam do pensamento crítico. Universidades públicas, institutos federais, bolsas de pesquisa, editais de cultura e políticas de acesso como as cotas encontraram na esquerda seus defensores mais consistentes. Foram essas políticas que colocaram, pela primeira vez, filhos de trabalhadores domésticos, pedreiros e agricultores dentro das universidades. Quem pesquisa, ensina ou cria sabe a diferença entre um governo que financia o conhecimento e um que o trata como inimigo.
Nada disso significa que a esquerda esteja acima de críticas. Há erros a reconhecer, alianças questionáveis, promessas que andam devagar e uma necessidade urgente de renovação de quadros. Mas a crítica honesta se faz de dentro de um projeto que aceita ser cobrado, e não de fora de um que se recusa a ouvir. Exigir mais da esquerda é, justamente, um gesto de quem acredita nela.
Por isso, no domingo, a escolha é fácil, mas não pode ser tratada com descuido. O risco de retrocesso é real. O Brasil já viu programas sociais serem esvaziados, a fiscalização ambiental ser desmontada, universidades terem verbas cortadas, patrimônio público ser oferecido a preço de liquidação e instituições serem atacadas por quem deveria protegê-las. Tudo o que foi reconstruído nos últimos anos pode ser desfeito em poucos meses, por canetadas, cortes silenciosos e discursos que normalizam o inaceitável. O retrocesso raramente chega anunciado. Ele vem aos poucos, travestido de eficiência ou de mudança, e quando percebemos, já perdemos direitos que custaram décadas para serem conquistados. E quem paga primeiro são sempre os mais pobres. A abstenção, o voto em branco e a indiferença também têm consequências. No dia 04, votar na esquerda é recusar a volta ao passado, defender o Brasil e os brasileiros que mais precisam, e afirmar que o país não aceita andar para trás.









