Uma nova espécie de antúrio, encontrada em fendas de rochas na Serra do Padre Ângelo, no leste de Minas Gerais, foi descrita por dois pesquisadores nas montanhas do médio Rio Doce. Conhecida apenas nessa região, a planta já é apontada pelos cientistas como candidata à classificação de Criticamente em Perigo de extinção.
Batizada de Anthurium occultum, a espécie foi descrita pelos botânicos Rodrigo Theófilo Valadares, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e Paulo Gonella, do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). O estudo foi publicado no início de setembro na revista científica Phytotaxa.
O nome occultum significa “oculto” ou “escondido” em latim e faz referência às características da planta. Além de crescer principalmente entre as rochas, ela mantém suas flores parcialmente encobertas pelas folhas.
“É uma planta que faz jus ao próprio nome em vários sentidos. Mesmo em uma área que vem sendo intensamente estudada nos últimos anos, ela permaneceu escondida entre as rochas e ainda não havia sido reconhecida formalmente pela ciência. Isso mostra o quanto ainda temos para descobrir nesses ambientes”, explica Valadares.
Mais de 40 espécies descritas
A Serra do Padre Ângelo passou a atrair maior interesse científico há pouco mais de uma década. Desde então, expedições têm identificado espécies com distribuição restrita, algumas conhecidas exclusivamente dessas montanhas.
Nos últimos anos, mais de 40 espécies de plantas foram descritas nas montanhas do médio rio Doce. Para os pesquisadores, a identificação de um novo antúrio após sucessivos levantamentos indica que a biodiversidade local ainda é pouco conhecida.
“Depois de tantos anos de trabalho de campo e de tantas espécies novas já descritas para a Serra do Padre Ângelo e montanhas vizinhas, seria razoável imaginar que grandes novidades começariam a se esgotar. O que estamos vendo vai em sentido contrário”, afirma Gonella.
Incêndios e presença de gado ameaçam a planta
A distribuição conhecida do Anthurium occultum é extremamente restrita. Entre as ameaças às suas populações estão incêndios, presença de gado, espécies invasoras, abertura de acessos e visitação sem planejamento.
Com base nesse cenário, os autores propõem que a espécie seja classificada como Criticamente em Perigo de extinção, conforme os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Segundo Gonella, as pressões também atingem outros ambientes da serra, que enfrenta desmatamento, expansão de pastagens e cultivos, extrativismo e incêndios recorrentes.
Proteção depende de medidas permanentes
Em 2025, foram criados dois Parques Naturais Municipais em Conselheiro Pena, abrangendo áreas da Serra do Padre Ângelo e da Serra do Pinhão.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a proteção efetiva dessas áreas depende de planos de manejo, conselhos gestores, fiscalização e ações permanentes de prevenção a incêndios e controle de espécies invasoras.
Como parte dos ambientes relevantes para a biodiversidade permanece fora dos parques, os autores também defendem a formação de um mosaico de áreas protegidas. A proposta é conectar as unidades existentes e incorporar nascentes, florestas e áreas do entorno.










