Fui ao médico. Estava com vergonha. Não minha.
Os sintomas tinham começado discretos. Um calor no rosto durante o jornal da noite. Uma vontade de sumir no meio da entrevista de alguma autoridade. A mão que ia sozinha à testa, e lá ficava, cada vez que alguém em Brasília começava uma frase com “com todo o respeito”. Depois piorou. Passei a corar lendo o grupo da família. Corava até dormindo.
O médico me examinou com a calma de quem já viu de tudo. Mediu a pressão, olhou a garganta, pediu que eu dissesse “trinta e três”. Eu disse, e fiquei vermelho sem saber por quê. Ele anotou.
— Vergonha alheia — diagnosticou. — Crônica. Contraída por exposição prolongada ao noticiário.
— É grave?
— É a única doença que eu conheço em que quem transmite não adoece.
— E quem me passou isso?
— Está ótimo. Nunca esteve melhor. Deu entrevista ontem.
Pediu exames. Voltei na semana seguinte com o raio-X, e ele pôs a chapa contra a luz com cara de preocupação.
— Pulmão de fumante.
— Mas eu nunca fumei, doutor.
— Fumante passivo. O senhor passou a vida perto de quem fuma. — Apontou outra mancha. — E isto aqui é corrupção passiva.
— Mas eu nunca recebi nada!
— Por isso mesmo. No Código Penal, passivo é quem recebe. Na medicina, é quem paga. O senhor é o passivo.
Explicou que era comum. Que quase todo brasileiro tinha as duas manchas. Que muitos desenvolviam também um quadro de terceiro de boa-fé, que é quando a pessoa não tem nada a ver com a história e perde mesmo assim. Perguntei se tinha remédio. Tinha, mas o plano não cobria, e o posto também não, porque era com dinheiro público.
— E quem paga o dinheiro público?
— O público.
— E quem é o público?
Ele me olhou por cima dos óculos. Não precisou responder.
Na saída, a conta. A secretária — moça simpática, ria de tudo — me estendeu o papel sem levantar os olhos.
— Não está coberto. Culpa do sistema.
— Quero reclamar com o sistema. Onde ele fica?
— Ninguém sabe. Não tem CPF, não tem endereço, nunca foi intimado.
— Então quem paga isso?
— O pato.
Olhei em volta, procurando o pato. A sala de espera estava vazia. Paguei.
Voltei ao consultório uma última vez, com a lista de dúvidas que todo paciente leva e nenhum médico responde.
— E bala perdida, doutor, o senhor trata?
— Essa não. Essa não é comigo.
— Por quê?
— Porque não existe. Nunca vi uma perdida. Todas acham alguém.
Ninguém riu. Nem a secretária, que ria de tudo.
Fiquei um tempo calado. Depois fiz a pergunta que tinha vindo fazer desde o começo, e que tinha vergonha — minha, dessa vez — de fazer.
— E o contrário, doutor? Vergonha própria? Não tem para vender? Eu levava umas caixas. Conheço gente precisando.
Ele fechou a ficha, tirou os óculos e deu a notícia como quem dá um diagnóstico sem volta:
— Vergonha própria saiu de linha. Agora só tem alheia.









