João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
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Histórias capixabas

Escrevi, há algumas semanas, uma crônica sobre o Tenente Evaristo, um policial sanguinário que andou apavorando o Espírito Santo no início do século passado. Na verdade, comentei o livro escrito por Ângelo Guarniello e publicado em 1904, sobre a presença do oficial da Polícia Militar no Rio Pardo, município capixaba que hoje se chama Iúna. Nele, são contadas muitas histórias acerca da perversidade desse personagem. O escritor teve mesmo que abandonar a cidade, onde seus livros foram queimados, e foi embora para o Paraná, onde ajudou a fundar a Academia de Letras.

Era comum, aliás, no tempo dos coronéis, que agregados e capangas fizessem com violência o serviço sujo da política. Alguns tinham até cargos públicos na estrutura policial de então. Não era raro que bandos de jagunços armados, a soldo dos chefes políticos locais, cometessem muitas atrocidades. As façanhas do Tenente Evaristo, contadas no livro, eram bastantes comuns na época. Iúna, onde se passa a ação, teve seu território marcado pela violência e pelas mortes de mando. Falo isso porque morei na infância naquela cidade, onde meu pai foi juiz de direito, e tenho bem viva na memória os casos que lá ocorriam, tantos anos depois dos fatos protagonizados pelo terrível tenente da polícia militar.

Paulo Cezar Dutra, experimentado repórter policial e jornalista político, andou pesquisando o tema e lembrou, em um de seus textos, de uma citação feita por Danuza Leão, em seu livro Quase Tudo, que conta, como ela mesma diz no título, quase tudo da sua vida. Um texto maravilhoso, leve como ela costumava escrever, que começa por sua infância parcialmente vivida no Espírito Santo. Ela diz no texto que a mãe dela se chamava Altina e tinha o apelido de Tinoca, e que o seu avô era italiano, que veio cedo para o Brasil com a família para tentar a sorte justamente em Rio Pardo, no Espírito Santo.

Esse avô se chamava Braz Lofego e era comerciante no Rio Pardo. Ele tinha uma irmã chamada Nóbila, que também era italiana. Ela estava casada e com dois filhos, quando apareceu por lá o tenente Evaristo. A tia de Danuza se apaixonou por ele. Um dia, como a autora registra no livro, Nóbila sumiu. O irmão Braz já desconfiava de alguma coisa, pegaram a estrada a cavalo, e, muitas léguas depois, encontraram quem buscavam e o fuzilaram no ato.

Nóbila havia fugido do marido e da família com uma empregada, e a combinação era que ela e o Tenente se encontrariam em Cachoeiro, no único hotel da cidade, o que, em si, já era um escândalo para a época. Quando soube da notícia da morte do homem que amava, vestiu-se de preto, e para sempre. Nunca mais voltou para o marido, que cuidou dos filhos, nunca mais pisou na casa de nenhum parente, mas nunca deixou, lembra Danuza, de usar sapatos de salto alto.

Uma pequena tragédia pessoal, mas que mostra muito bem o papel feminino no mundo dos coronéis. Essa mulher jovem, que ousou viver a sua vida, ficou reclusa até o seu último dia. O registro é que morreu em idade avançada. Quando a vingança mais dura se impôs em nome da honra, os irmãos de Nóbila não pensaram na sua dor, nem na de seus filhos. Era imperativa a vingança, pois honra se lavava com sangue. No mundo violento dos coronéis, essa era a lei; aliás, eles faziam as leis.

Os bandos quando invadiam uma casa dos adversários políticos de seus chefes, matavam impiedosamente os homens e violentavam as mulheres. Um capanga de um líder do interior não matava mulheres, servia-se delas sexualmente dias a fio. Como fez o Tenente Evaristo em vários episódios de sua curta, mas violentíssima vida. Essas histórias capixabas aproximam-se das outras que se passaram nos mais variados territórios brasileiros, em toda parte.

O lado sofisticado dos velhos caciques políticos, os artigos que escreviam nos jornais republicanos, os discursos parlamentares, as práticas positivistas eram uma face mais visível do progresso, do desenvolvimento econômico. A outra face era a da violência como arma eleitoral e política, a da intolerância contra os padrões morais que alicerçavam a ordem. Essas histórias vão surgindo de forma fragmentada e são peças de quebra-cabeças que compõem o nosso imaginário social.

 

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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