Casos de câncer relacionados ao 11 de setembro crescem nos EUA 25 anos após atentados

Ainda que a exata dimensão dos efeitos do 11 de Setembro para a saúde da população americana siga desconhecida, elementos tornados públicos por autoridades locais nas semanas e meses que antecederam esta sexta-feira (11), marco de 25 anos dos atentados às Torres Gêmeas em Nova York, clarearam um pouco esse cenário.

O número de casos de câncer diretamente relacionados ao ar tóxico que dominou a porção sul de Manhattan naquele momento disparou. Os dados oficiais mais recentes, de agosto passado, mostram que há ao menos 57 mil casos reconhecidos. Há dez anos, eram 5.600.
O crescimento expressivo aponta não apenas para o fato de que os diagnósticos aumentaram, mas também para o fato de que pesquisas científicas, estudos clínicos e uma infinidade de litigâncias permitiram aumentar a correlação entre essas doenças e o ar tóxico que dominou a região naquele dia e nos dias seguintes.

Cabe a advogados como Matthew McCauley representar sobreviventes e socorristas que descobriram seus casos de câncer ou outras doenças anos após os atentados e acreditam que eles estão relacionados com o 11/9, mas ainda não tiveram seu caso reconhecido na Justiça.

McCauley é ex-paramédico e, havia poucos meses aposentado da polícia de Nova York quando ocorreram os ataques, começava a trabalhar com advocacia. Ele chegou a ajudar nos resgates dos escombros, e pouco depois começou a advogar pelas vítimas.
“Se uma pessoa teve certo nível de exposição no dia e trabalhou no local, ela se qualifica para programas de saúde públicos que oferecem uma assistência enorme às pessoas, algo especialmente importante hoje em dia, já que os cuidados médicos e os planos de saúde estão muito caros”, diz ele à reportagem.

Um fator novo dos últimos dias pode mudar o rumo dessa história.
Em resposta à pressão popular e judicial que já se estende por duas décadas, o prefeito de Nova York, o democrata Zohran Mamdani, tornou públicos mais de 170 mil arquivos que eram mantidos sob sigilo pela Prefeitura e que mostram falhas na resposta aos atentados. McCauley é um dos advogados que assina esse processo judicial.

A gestão pública disse aos nova-iorquinos, há 25 anos, que era seguro ficar nas ruas no entorno da área atingida pelos ataques terroristas e minimizou a importância de equipamentos de proteção pessoal, como máscaras, para as equipes de resgate.
Aquela zona, no entanto, estava exposta a centenas de substâncias cancerígenas, a mais comum delas o amianto, liberado e pulverizado a partir de materiais de construção e infraestrutura quando desabam.

A brasileira Maria Nelly, 27, natural de Maceió, trabalha com McCauley no atendimento aos que acreditam ter tido a saúde comprometida por esse evento. Todos os dias, fala com diversas famílias.
“A primeira coisa que me chama atenção são as vozes. Muitos mal conseguem falar, ou ser entendidos, porque tiveram a voz ou a fala comprometida por alguma doença, e então necessitam de ajuda de algum familiar.”

Ela relata que muitos dos clientes estão em situação de extrema vulnerabilidade social. “São em geral mais velhos, de 60 a 80 anos, e alguns com estágios da doença já muito avançados. Muitos nem sequer sabiam que tinham direito a ter ajuda do Estado, mesmo que tenham feito esse trabalho hercúleo de ajudar nos resgates.”

À época dos atentados, Nova York era governada pelo republicano Rudy Giuliani, 82, que anos depois se tornaria um aliado de primeira hora do hoje presidente Donald Trump. Sua vida pessoal, aliás, reverbera a disputa pelos impactos na saúde pública pós-11/9.
Há poucos meses, ele entrou na Justiça para pedir que seu tratamento para uma pneumonia fosse pago pelo Estado. Afirmou, para isso, que há anos foi diagnosticado com uma doença pulmonar restritiva (quando o volume pulmonar reduz e fica mais difícil expandir durante a inalação do ar) que estaria relacionada ao ar tóxico dos atentados.

O advogado McCauley diz que os documentos liberados pela Prefeitura podem ajudar na pesquisa científica sobre o tema a correlação entre as condições de saúde de vítimas e os ataques.

“Um dos grupos de pessoas que não estão contemplados atualmente, por exemplo, são os que estavam no útero no momento dos ataques. Se uma mulher estava grávida na época do 11 de Setembro, ela é elegível para o programa, mas o filho, a menos que depois de nascer tenha sido levado de novo para a área afetada, não é elegível, mesmo tendo estado no útero enquanto a mulher estava exposta”, afirma.

Ao menos 2.753 pessoas morreram nos ataques ao World Trade Center, número que engloba vítimas das duas torres, dos dois aviões usados pelos terroristas para atingir os prédios e aquelas atingidas nos arredores da cena. E 40% delas seguem sem identificação.
Criado em 2010 para atender àqueles cuja saúde foi diretamente impactada pelos atentados, o Programa de Saúde World Trade Center tem hoje 139,4 mil condições de saúde relacionadas ao 11/9 -em muitos casos, a mesma pessoa apresentou mais de uma condição.

Os casos mais volumosos são os de doenças do trato respiratório, seguidas por cânceres e casos de saúde mental. E as vítimas são especialmente socorristas, aposentados ou não, seguidos por pessoas comuns, chamados de “sobreviventes”. Os cânceres mais comuns são os de pele, o de próstata, o de mama, linfoma, tireoide, rim, e pulmões.

Os bombeiros tiveram um papel central em demonstrar os impactos dos atentados nos casos de câncer. Desde 2010, o Departamento de Bombeiros de Nova York tem demonstrado a maior incidência de cânceres entre os trabalhadores de resgate expostos à fumaça e aos detritos dos atentados.

Os estudos mostram que os ataques geraram uma exposição ambiental sem precedentes a substâncias capazes de causar câncer.
Eles avaliaram os chamados biomarcadores sanguíneos: a presença de um deles não é determinante para a pessoa ter câncer, mas denota aumento de risco. E encontraram que os bombeiros expostos à zona do ataque apresentaram três vezes mais chances de apresentar mutações em comparação com os que não foram designados para a tarefa.

Além disso, encontraram que, entre os que foram designados, aqueles com essas mutações tinham uma probabilidade quase seis vezes maior de desenvolver leucemia do que os que não apresentavam.

Nova York, FolhaPress – Mayara Paixão

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