Culpa após comer pode prejudicar relação com a alimentação

Comer uma pizza no sábado e decidir ficar em jejum no domingo. Aumentar o tempo de exercício para “compensar” uma sobremesa. Pular o jantar depois de um almoço mais pesado. Situações como essas podem parecer apenas disciplina alimentar, mas também podem indicar uma relação marcada por culpa, rigidez e compensação.

Segundo a nutricionista Adriana Stavro, mestre pelo Centro Universitário São Camilo, uma alimentação pode até ser nutricionalmente adequada e, ainda assim, estar acompanhada de uma relação difícil com a comida. O problema aparece principalmente quando escolhas alimentares passam a ser guiadas por medo, culpa ou regras rígidas.

Pensamento de “tudo ou nada”

Um dos comportamentos associados a esse ciclo é o chamado pensamento dicotômico, ou de “tudo ou nada”. Nesse padrão, alimentos e escolhas são classificados em extremos, como “bom ou ruim”, “permitido ou proibido” ou “limpo e sujo”.

Esse tipo de raciocínio pode favorecer o chamado efeito do “já que”. A pessoa come algo que considera fora da dieta e passa a interpretar aquela escolha como uma espécie de fracasso.

É quando surgem pensamentos como “já que comi um pedaço de bolo, vou comer o brigadeiro também” ou “já que saí da dieta no almoço, não faz diferença sair novamente no jantar”.

Uma decisão pontual acaba, então, influenciando o restante do dia ou até da semana.

Restrição também pode acontecer no pensamento

A restrição alimentar nem sempre significa simplesmente comer menos.

Existe também a chamada restrição cognitiva, caracterizada pela tentativa constante de controlar o que e quanto se come.

Nesse cenário, pensamentos sobre calorias, quantidade de carboidratos, alimentos permitidos e necessidade de compensação podem ocupar uma parcela significativa do dia.

A preocupação se torna maior quando a alimentação exige vigilância constante e passa a provocar ansiedade diante de escolhas que deveriam fazer parte da rotina.

Alimentos proibidos podem ganhar ainda mais importância

Outro ponto de atenção é a proibição completa de determinados alimentos.

Quando chocolate, pizza, sorvete ou outros produtos passam a ser encarados como totalmente proibidos, eles podem ganhar um peso psicológico maior.

Quebrar essa regra pode provocar culpa e sensação de fracasso, além de estimular comportamentos compensatórios, como jejum, restrições excessivas nas refeições seguintes ou exercício físico usado como punição.

Culpa não significa maior controle alimentar

Estudos que analisaram restrição alimentar e culpa apontaram que níveis maiores de restrição não necessariamente estavam relacionados a uma menor ingestão de alimentos.

Por outro lado, a restrição apareceu associada a níveis mais altos de culpa após comer.

Uma das explicações é a distância entre a intenção de seguir regras alimentares rígidas e o comportamento real. Quando a pessoa não consegue cumprir aquilo que estabeleceu, pode interpretar a situação como falta de controle ou fracasso pessoal.

Redes sociais podem reforçar rigidez alimentar

Mensagens divulgadas nas redes sociais também podem contribuir para a criação de uma relação mais rígida com a comida.

Expressões como “dia do lixo”, “jacada”, “detox”, “clean eating” e “comer sem culpa”, além de frases que classificam determinados alimentos como tóxicos ou inflamatórios de forma generalizada, podem reforçar a ideia de que algumas escolhas representam virtude e outras, fracasso.

Stavro ressalta que evitar culpa e rigidez não significa tratar todos os alimentos como nutricionalmente equivalentes. Existem escolhas mais nutritivas e situações de saúde que exigem restrições específicas, mas flexibilidade alimentar não significa ausência de critérios.

A proposta é conseguir fazer boas escolhas na maior parte do tempo sem transformar cada exceção em fracasso ou motivo de punição.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas