João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
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O peso do corpo

 “Viveu a vida toda sem barulho, sem alarde, mas com a sutil alegria nos olhos e a certeza de que o justo é o certo e é o que deve ser feito. Morreu como viveu. Como um pé de fruta-pão cujas raízes fraquejam, seus galhos definharam, a seiva vital raleou, suas folhas caíram, secas, opacas. Ela tombou.

Fechando bem os olhos e abrindo uma fresta do coração, ainda dá para ouvir o barulho da água correndo na bica, o girar úmido das pás de moinho e as pancadas ritmadas do pilão ecoando na memória do tempo, esse fio invisível que liga e desliga tudo e todos”.

Esses são os dois parágrafos finais do texto O Peso do Tempo, dedicado, sem maiores explicações, porque prescinde delas, a Josefina. Ele faz parte de uma coletânea de vinte contos escritos pelo sensível Carlos Fonseca, jovem autor, membro da Academia Espírito-Santense de Letras e, para pagar os pesados encargos das nossas vidas, juiz do trabalho.

Nas orelhas do livro, Pedro J. Nunes — escritor que tem a mesma origem geográfica que Carlos Fonseca, ambos nascidos em São José do Calçado, terra que nos deu escritores de grande porte como Geir Campos ou José Carlos da Fonseca — registra que são vinte contos, nos quais vinte vezes se repete a palavra “peso” nos títulos, mas que, em nenhum deles, se encontra a justa medida.

E completa: “E vinte vezes, não menos, se fala de mulheres, da desconhecida do primeiro conto passando por Ayana, Marina, Josefina, e se delas não se fala, falam elas próprias, mulheres que num conto ou outro emprestam a voz do narrador falando de si pela voz do poeta”. Como disse o Pedro, é um livro que desassossega, coloca o dedo na ferida. O texto é forte em muitos lugares, mas é de uma suavidade encantadora.

Os contos não são datados, mas se passam todos em um lugar encantado, quase todos naquilo que poderíamos chamar de sertão, longe da vida atribulada dos grandes centros, perto do encantamento das flores, dos jardins, do pôr do sol, dos ventos e despenhadeiros. Nesses lugares mágicos, a magia está à solta em personagens femininos. São mulheres fortes, mesmo que incorram em fraquezas, e terminam por mostrar a sua força.

Carlos Fonseca faz uma verdadeira ode ao universo feminino, cheia de luz, de mistério, mas também de dor e desamparo. Um livro que lembra as raízes da nossa existência, sem data e sem lugar definido, sem histórias obvias com fins românticos ou felizes, como gosta a literatura fácil e de grande consumo. Seguramente, não é um livro destinado a um leitor de obras comuns; exige sintonia com uma esfera cósmica que o Carlos frequentou em seus textos.

No mundo imaginário que a sociedade brasileira criou, o papel da mulher é muito inferiorizado. As personagens sentem esse peso; não é gratuita a menção tão forte a ele. A resposta a esse imaginário, que coloca as mulheres em posição muito fragilizada, é mostrada ao longo dos vinte contos, dos vinte pesos, de forma muito sutil. Em algumas delas, são simplesmente envolvidas pela loucura e se voltam contra os agressores ou contra si mesmas. Em outras passagens, a personagem embarca numa magia inesperada e mergulha nela. Interessante é que o único personagem central masculino também entra no mundo das mulheres e se transforma em uma pessoa melhor e mais feliz. Inesperadamente.

A ideia do narrador é trazer essa magia das respostas pouco esperadas. O inesperado nos assalta a todo momento, ao longo dos vinte curtos contos, todos de sublime leitura, todos escritos de uma forma tão bela, tão doce e envolvente que nem mesmo as tragédias nos deixam tristes. Elas são a resposta natural nesse universo de forças que saem da natureza e retornam a ela de forma excepcional.

A sociedade brasileira tem uma reparação a fazer com as mulheres, que sofreram agressões, humilhações e inferiorização ao longo dos séculos. O machismo é, para mim, o principal traço da sociedade brasileira, patriarcal e hierarquizada. Temos não apenas que reelaborar um novo lugar para o feminino em nossas vidas, como também resgatar o papel de nossas heroínas.

Por tudo o que representam esses lindos textos de Carlos Fonseca, ele é um marco na exploração do universo feminino, com um olhar profundo e sensível. Aconselho fortemente a leitura.

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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